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Farisaísmo cultural: as discussões em torno da  “Odisseia” do Nolan

A Odisseia do Nolan: eu faria diferente. (Foto: Melinda Sue Gordon/Universal Pic/ Divulgação)

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A Odisseia do Nolan. Na bolha intelequitual só se fala nisso e não precisa nem ter visto o filme para falar. Fala-se à toa e muito. Porque a Odisseia do Nolan é isso. Ou aquilo. Perfeito & horrível. Mas e se eu lhe disser que a Odisseia do Nolan é apenas a Odisseia do Nolan? Não é a do Homero, muito menos a minha. Nem a sua. É só uma leitura particular que uma pessoa específica, um tal de Christopher Nolan, tem o privilégio de transformar em cinema.

Li a “Odisseia” há muito tempo. É um dos textos basilares da Civilização Ocidental, blá-blá blá. Diante da controvérsia em torno do filme, porém, fico me perguntando se existe uma “ortodoxia da Odisseia”. Um jeito certo de lê-la, interpretá-la e a adaptar à tela grande. Acho que não, né? Objetivos propagandísticos à parte, dá para dizer que todos somos livres para ler ou não ler e interpretar da forma como bem entendermos. Serve para a “Odisseia” e qualquer obra, seja ela clássica ou não.

Acento agudo

O que existe, isso sim, é muito farisaísmo cultural. Isso pode e aquilo não pode. Oh, que absurda essa adaptação! Não condiz com a minha imaginação. Eu faria algo totalmente diferente. Faria, mas não fez. Vida que segue. De minha parte, continuo achando que tanto para as adaptações de clássicos quanto para a decisão de atravessar ou não a rua na faixa de pedestre, vale o ensinamento bíblico segundo o qual “tudo me é permitido, mas nem tudo me convém”. Ir ao cinema assistir à “Odisseia” do Nolan também. Falar. Ostentar. Sentenciar. Será que lhe convém?

De tudo o que li sobre a versão do Nolan para a “Odisseia” de Homero (melhor assim?), a melhor constatação foi a de que o filme substitui valores como a honra e a lealdade, muito caros aos gregos, pelo remorso e reparação muito caros aos nossos contemporâneos. Isso é tudo o que você precisa saber sobre o filme. E sobre o espírito do tempo. O resto é ruído e, por falar nisso, quero deixar registrado que a mim ainda me dói a queda do acento agudo em “odisseia”. Assim como em “ideia”, “prosopopeia” e “plateia”. Me pergunto como ninguém se revolta contra isso.

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