Pode ser coincidência? Pode, mas as recentes declarações do cantor Nando Reis e do ator Wagner Moura também podem significar mais do que isso.
Ao anunciar que deixará de falar de política depois de sofrer prejuízos comerciais e boicotes, Nando Reis afirmou ao UOL: “Isso é completamente inútil. Ficar falando com quem não quer ouvir”. Não, Nando Reis não falava ao espelho.
Poucos dias depois, em entrevista a Pedro Bial gravada em Atenas, Wagner Moura também verbalizou seu cansaço por ser tão odiado e foi além, classificando os exageros do identitarismo como “fascismo de esquerda”, ao mesmo tempo em que reafirmou querer dialogar com a direita e criticou a polarização como “a maior ameaça” à democracia. Não, você não leu errado, ele disse isso mesmo.
É claro que o recuo dessas duas celebridades do progressismo brasileiro não representa um abandono de suas convicções; é apenas algo estratégico. E ainda que não seja coordenada, as falas não deixam de ser um reflexo local de um movimento que vem redesenhando a esquerda ocidental.
A Certidão de Óbito do “Woke 1″
No último fim de semana, a deputada democrata Alexandria Ocasio-Cortez (AOC), outrora o maior símbolo do ativismo radical no Congresso americano, surpreendeu ao validar, no programa “This Week” da ABC, a frase de um seu colega de partido: “O Woke 1 foi uma loucura”.
Se o leitor está se perguntando o que seria “Woke 1”, também me fiz a mesma pergunta. Fui pesquisar a respeito. A expressão vem sendo usada para tentar encapsular o auge do moralismo progressista (entre 2020 e 2024). Foi a era do identitarismo performático, das patrulhas linguísticas acadêmicas, de cancelamentos sem direito de defesa e do abuso de slogans extremistas como “Defund the police” (“Cortem o financiamento da polícia”).
Ao perceber que essa postura cavou um abismo entre a agenda progressista e o eleitor comum, parte da esquerda iniciou um “recall” ideológico. A declaração de AOC faz parte dessa estratégia e veio a propósito das antigas posições da candidata a governadora de Wisconsin, Francesca Hong, que foi defensora, no passado, de abolir a polícia e as prisões.
Imediatamente, isso rendeu a AOC acusações de oportunismo tanto à direita quanto à esquerda mais purista. Tanto faz se é oportunismo ou não, o fato é que se estão abandonando o “Woke 1” é porque estão, na verdade, inventando um “Woke 2”.
A gestação do Woke 2.0
Ao que parece, o movimento de AOC é uma tentativa de sobrevivência eleitoral, algo mais pragmático do que programático, com lideranças como ela aparentemente abandonando o tom professoral e os temas de nicho. A diversidade continua na agenda, mas o foco migra para pautas materiais e universais, como inflação, custo de vida, moradia, saúde pública.
No Brasil, dois exemplos ilustram isso também. Primeiro, o Psol, partido fortemente atado ao wokismo, tem focado em outras pautas, como a da PEC sobre a escala 6×1 da jornada de trabalho. Foi um membro do partido quem propôs a emenda constitucional, aliás.
Segundo: nesta semana, Duda Salabert, do mesmo Psol, manifestou-se contrária a uma decisão judicial que condenou a influenciadora Bianca Barreto por falas consideradas transfóbicas contra Salabert, dizendo que não comemoraria porque decisões assim podem produzir efeito contrário ao que pretendem combater.
É nessa linha que o silêncio com fins comerciais de Nando Reis e o cansaço vaidoso de Wagner Moura fazem mais sentido: menos vocabulário de nicho, menos ativismo e mais abertura para tentar alcançar um público maior. No caso deles, pode ser apenas efeito de um esgotamento, um mal-estar generalizado com seu grupo ideológico, mas que acaba servindo perfeitamente a essa agenda pragmática eleitoreira.
Mas também há uma outra dinâmica surgindo no campo progressista e não tem nada a ver com isso, mas em radicalizar ainda mais. Nas redes sociais, há o chamado “Dark Woke”. Uma militância mais jovem que não tenta mais “educar” o mundo. Em vez disso, vem adotando a guerrilha digital do adversário, do que chamam de extrema-direita, usando ironia ácida, memes e deboche para tentar retratar o que não é espelho como algo ridículo, ultrapassado e inadmissível.
No Brasil, algo semelhante também acontece quando pensamos em figuras como o influenciador Jones Manoel, que recentemente evitou condenar os estupros cometidos pelo Hamas em Gaza alegando não ser “sommelier de resistência”. Há também representantes eleitos, como o deputado estadual paranaense pelo PT, Renato Freitas, constantemente envolvido em polêmicas por seu radicalismo barulhento.
A esquerda ocidental parece caminhar, portanto, em duas direções opostas e contraditórias. Mas isso não é novidade, nem algo incomum. O leitor já deve ter ouvido falar da estratégia das tesouras — quando divisões internas, reais ou não, criam alas moderadas e radicais que parecem se opor, mas, no fim das contas, sempre se direcionam a um único objetivo final.
A data provável do parto do Woke 2.0
As eleições brasileira e americana de 2026 serão também a data de nascimento do woke 2.0. Por ora, os números sugerem uma resposta desconfortável para a esquerda: o pragmatismo engaja menos a base do que o necessário, como se viu nas prévias democratas em MIchigan. Mas o radicalismo sem filtro tem o custo de assustar exatamente os eleitores que decidem eleições em um cenário de polarização como o atual.
Antes da disputa interna democrata em Michigan, as pesquisas já indicavam uma corrida apertadíssima de qualquer dos candidatos contra o republicano Mike Rogers. A vitória de El-Sayed sobre Stevens, por pouco mais de um ponto percentual, reforçou entre analistas a dúvida se ele consegue repetir esse desempenho num eleitorado bem mais amplo e menos ideológico em novembro. Os números já eram particularmente ruins entre eleitores independentes, aliás.
É sinal de que, embora conquiste o eleitor progressista e até o mobilize, o discurso mais radicalizado tem baixa ressonância fora do círculo ultra-engajado. A verdadeira prova de fogo dessa aposta ainda está por vir em novembro nos EUA, e hoje os números favorecem mais a cautela do que o otimismo progressista. No Brasil não é diferente. E o resultado em ambos os países é que indicará se o lobo precisará se recobrir de nova pele de cordeiro ou poderá se mostrar sem pudor, com o pelo eriçado e expondo os dentes, pronto a atacar.


