Símbolo do Comando Vermelho marcado em um poste no Pará. (Foto: Sebastiao Moreira/EFE/EPA)
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Em um momento em que Lula lamenta que os EUA tratem o PCC e o CV como organizações terroristas, afiançando que “ficou triste que disseram que nossos criminosos são terroristas” (sic), em que a palavra soberania passa a ser usada para impedir ações internacionais contra essas organizações criminosas e em que os EUA revogam o visto da embaixadora brasileira em Washington, uma reportagem de Diógenes Feitosa nessa Gazeta do Povo mostra que a situação só não está mais tensa por falta de conhecimento.
A Operação Omertá, que faz referência ao código de silêncio da máfia (quem colaborar com a polícia, morre), descobriu que o Comando Vermelho está cobrando “pedágio” de R$ 60 mil de políticos com mandato e de R$ 30 mil de candidatos sem mandato para poderem fazer campanha em alguns bairros de Sobral, no Ceará.
Além disso, o MPCE e a Força Integrada de Combate ao Crime Organizado (Ficco) descobriram que os criminosos do Comando Vermelho ameaçavam candidatos e tentavam influenciar a escolha dos eleitores.
Bem… se estamos falando de um país tão “soberano”, como diz Lula e alguns nacionalistas perdidos unicamente quando têm problemas com a polícia, quem é de fato o soberano?
Mais: segundo fomos informados pelos maiores gênios da humanidade, os políticos (Lula incluso), organizações como o PCC e o CV não devem ser enquadrados como terroristas por não terem objetivos políticos. Ora, uma única notícia desfaz totalmente o caso.
Não é demais lembrar que o Comando Vermelho tem “vermelho” no nome por uma questão político-partidária. Que os criminosos aprenderam com os terroristas políticos da época da ditadura no presídio de Ilha Grande a se profissionalizarem e transformarem-se em uma organização criminosa.
No caso do PCC, apenas no dia do “Salve Geral” de maio de 2006, com 564 mortes em uma única semana em atentados feitos para “desmoralizar o governo”, explicam as filiações políticas do grupo. Os atentados reúnem o terror e a motivação político-partidária.
O caso de Sobral não deve ser considerado isolado. Se candidatos e políticos precisam pagar para a facção criminosa apenas para fazer campanha, não se pode dizer que o Brasil seja “soberano”
A palavra, usada erroneamente numa média de 11 em cada 10 vezes em que é citada no debate público, tentaria deixar claro que o Brasil, institucionalmente, consegue andar sozinho e funcionar sem ajuda de aparelhos.
Não é o caso, se as eleições são definidas por achaque do CV. Se os candidatos vencedores não são aqueles definidos pelo sistema político brasileiro (o tal do “Estado democrático de Direito” tão citado), e sim por uma facção criminosa, não há mais motivo para dizer que haja soberania territorial brasileira. Institucionalmente, o crime organizado está acima das organizações, e define as eleições – a base do sistema político brasileiro.
O TSE, que autorizou tropas federais nas eleições de 2022 em Sobral, não parece ter se manifestado sobre a atuação do grupo terrorista CV nas eleições de 2024 e nas desse ano. Se em qualquer parte do território, ainda mais em uma disputa apertada, quem determina os votos são criminosos, as eleições, no mínimo, podem ser consideradas um pouco forçadas.
Para isso, teríamos de lembrar o que o próprio TSE, então presidido por Alexandre de Moraes, determinou em 2022. Na época, Alexandre de Moraes proibiu a veiculação de uma propaganda de Bolsonaro que afirmava que Lula havia sido o candidato mais votado em presídios. Moraes declarou as peças “estatisticamente incorretas e gravemente descontextualizadas”.
Para o dono do Brasil, os votos computados diziam respeito a apenas 2,06% dos presos do Brasil – apesar de ser um percentual bem maior do que qualquer pesquisa eleitoral. Ainda fez Bolsonaro ser obrigado a exibir um pedido de resposta de Lula. Neste ano, Lula venceria com larga folga se apenas os presos votassem, com 79,8% dos votos.
Carl Schmitt, em famosa provocação, definiu que “soberano é quem define no estado de exceção”. O Brasil já vive em um estado de exceção constante. Já temos um soberano em um tribunal em Brasília. E parece que, por mera coincidência, o candidato que adora falar em soberania é o mesmo que ganha apoio de criminosos.
As instituições soberanas brasileiras têm mais coisas escondidas do que nossa vã filosofia é capaz de imaginar.
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