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Uma “Gazeta do Povo” incomoda muita gente

“Não tenho a menor intenção de entregar nossa linguagem à Turma da Esquerda, e tenho toda a intenção de fazer o que for necessário para recuperar o que foi perdido. Não seria ótimo voltar a ouvir a palavra ʻliberalʼ e saber que ela novamente significa alguém que valoriza a liberdade individual, e não alguém que quer tirar de você o seu refrigerante de 600 ml?” (Charlie Kirk, A Hora da Virada)

Chegou às minhas mãos uma reportagem da revista Piauí sobre esta Gazeta do Povo, mais especificamente sobre o seu presidente, Guilherme Cunha Pereira. O título é curioso: O Publisher Missionário. A matéria em si não é de todo ruim, não me parece desonesta; é opinativa, claro, como se espera de um veículo progressista ao fazer o perfil de um conservador. Ela traça o início do jornal, um pouco da história de seus fundadores e os caminhos editoriais que o veículo seguiu desde o início de sua publicação, em 1919, até sua “guinada ideológica, tornando-se porta-voz da direita ultraconservadora” – segundo a matéria – nos anos recentes. Mas algo me incomodou: a assimetria com que um veículo que declara sua linha editorial/política à direita é tratado pelos colegas da imprensa no país.

Nos Estados Unidos, por exemplo, a relação entre imprensa e política costuma ser mais explícita do que no Brasil. É comum que jornais mantenham páginas editoriais assumidamente conservadoras ou progressistas e, historicamente, até declarem apoio formal a candidatos em eleições presidenciais. Mesmo canais de televisão – como Fox News e MSNBC – são amplamente reconhecidos por sua orientação editorial, sem que isso represente, necessariamente, uma renúncia ao compromisso com a apuração dos fatos. O jornalismo opinativo também tem seu lugar assegurado. Enquanto isso, por aqui ocorre o contrário: os grandes veículos tendem a se apresentar como apartidários e independentes, ainda que também possuam linhas editoriais identificáveis, e mesmo os veículos mais discretos, desde que sejam progressistas, não veem sua legitimidade ser fruto de escrutínio dos colegas com rótulos. A própria revista Piauí, que não declara sua orientação editorial, tampouco a disfarça. Eu mesmo rebati, anos atrás, uma matéria desonesta sobre “negros de direita” na qual fui citado.

Incomodou-me a assimetria com que um veículo que declara sua linha editorial/política à direita é tratado pelos colegas da imprensa no país

Dito isso, decidi usar este espaço e esta matéria da Piauí para fazer, de modo um pouco mais organizado do que já fiz outras vezes, algumas considerações sobre este jornal que me acolheu, um semidesconhecido professor, em 2015, e desde então tem me dado um espaço único para divulgar as minhas ideias.

Em agosto de 2015, Marcio Antonio Campos, meu editor e amigo desde então, me procurou pelo Facebook para que escrevesse um artigo de minha escolha. Escrevi “Demagogia generalizada”, criticando, desde a estreia, a manipulação progressista da opinião pública num programa televisivo. Desse artigo de estreia até hoje – tendo assinado um contrato como colunista em março de 2018 –, jamais fui pautado e jamais tive meus textos nem sequer questionados pelo jornal. Ou seja, a defesa da liberdade de expressão que a Gazeta do Povo prega, ela pratica.

Em 2018, diante de um alinhamento ao então candidato Jair Bolsonaro e, após a eleição, um apoio praticamente incondicional ao seu governo – tendo, inclusive, contratado muitos colunistas igualmente alinhados –, mantive minha posição crítica, iniciada com um artigo publicado em 31 de maio de 2018, numa crítica ao fervor revolucionário que havia tomado conta de setores da direita, inclusive o próprio Jair Bolsonaro, em apoio à desastrosa greve dos caminhoneiros daquele ano. Quando ele foi eleito, o título de meu artigo foi “O que esperar dos governados por Bolsonaro” – mostrando que eu não tinha expectativa alguma em relação ao seu governo, que previa ser aquém daquilo que dele esperavam. A Gazeta do Povo sempre assegurou minha liberdade de dizer o que pensava.

Em 2020, o jornal me ofereceu a oportunidade de gravar um curso, de minha escolha, a ser oferecido gratuitamente em sua plataforma. Gravei Religião e Política, uma relação perigosa, no qual, inclusive, fiz críticas à relação dos evangélicos com o governo Bolsonaro. Submeti à análise dos editores, que me disseram, sem pestanejar: “o curso é seu, você tem liberdade de dizer o que pensa”.

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Sei que os leitores da Gazeta do Povo muitas vezes não gostam de meu posicionamento. Mas fico feliz quando compreendem que o dissenso é necessário até para que aprendamos a sustentar aquilo em que acreditamos. E é extremamente louvável – uma bênção de Deus, eu diria – que o jornal mantenha um pensamento diverso à direita, a fim de garantir a diversidade de nossa visão de mundo. Se há diversidade à esquerda (marxistas, leninistas, trotskistas etc.), por que não pode haver à direita? Há, e a Gazeta do Povo faz bem em defendê-la.

Voltando à matéria, ela diz, em determinado momento, que, a partir de 2017, “em um projeto conduzido por Guilherme e sem paralelo na imprensa nacional, a Gazeta publicou um manifesto editorial ultraconservador intitulado Nossas convicções”. E emenda:

“Ao longo de 28 textos, a Gazeta seguiu um padrão corrente – é ultraconservadora nos costumes e liberal na economia. É contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo, contra o aborto, contra qualquer estrutura de família que não seja a tradicional. É a favor do Estado mínimo, da livre-iniciativa, do mercado livre.

Parabéns à Gazeta do Povo por ter escolhido um lado e apresentá-lo de modo absolutamente transparente, e ao seu “publisher missionário”, Guilherme Cunha Pereira, por sua coragem e generosidade

A pergunta é: o que há de “ultraconservador” nisso? Por que o prefixo “ultra”? E mais: a posição, em termos de valores, tem muito mais a ver com a linha religiosa influenciada por seus proprietários, que são católicos, do que com o conservadorismo. Cito Roger Scruton – como citei em outro artigo em que faço, detalhadamente, essa importante distinção: “embora haja uma conexão entre conservadorismo e sentimento religioso, é difícil argumentar a favor de sua identificação”. A Gazeta do Povo é um veículo declaradamente à direita em política, de disposição conservadora e com uma visão liberal na economia. Além disso, há uma notória influência cristã vinda, sobretudo, de Guilherme.

Não sei se todos os colunistas são cristãos, mas todos sabem da linha do jornal e, por exemplo, de sua defesa incondicional da vida desde a concepção. Inclusive, penso do mesmo modo, pois é desse modo que todo cristão deve se posicionar. Os leitores sabem e é exatamente por isso que assinam a Gazeta. O que há de mau nisso? Nada.

A matéria ainda vê como um “avanço rumo à direita radical” que a Gazeta tenha demitido “o único colunista identificado com o progressismo, o paranaense Rogério Galindo”. Curioso. Será que existe algum colunista conservador na Piauí? Tenho certeza de que não. Podemos dizer, então, que a Piauí é um veículo de esquerda radical? Acho que sim.

Parabéns à Gazeta do Povo por ter escolhido um lado e apresentá-lo de modo absolutamente transparente, e ao seu publisher missionário, Guilherme Cunha Pereira, por sua coragem e generosidade. Se seus críticos fizessem o mesmo, estariam colaborando muito mais para a democracia que dizem defender. Mas sabemos que tipo de democracia eles defendem. E obrigado por acreditar em meu potencial e ter me aberto um espaço de liberdade de pensamento e expressão como nenhum veículo jamais faria. Vida longa à Gazeta!

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