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O que nunca te contaram sobre ser mulher fora do Ocidente

Em partes do mundo, nascer menina é risco: há abandono, abuso e silêncio. A liberdade feminina pode ser arrancada ou corroída aos poucos. (Foto: Sylvester DSouza/Unsplash)

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“É menino ou menina?”

Foi uma das primeiras coisas que perguntei a Lyba quando finalmente a encontrei pessoalmente no Nepal. Já éramos amigas havia anos por fazermos parte da mesma organização, o LOLA (Ladies of Liberty Alliance), mas só nos conhecíamos por chamadas de vídeo. Agora ela estava diante de mim, grávida de oito meses.

“Eu não sei.”

Não porque ela não queira saber.

Na Índia, é proibido revelar o sexo do bebê durante a gestação. Quando perguntei o motivo, Lyba me contou uma história assustadora.

No ano passado, o pai dela encontrou um saco de lixo abandonado perto de um hospital. Dentro, havia uma bebê recém-nascida. Uma menina.

Ela havia sido jogada fora por ser menina.

Lyba me contou que há famílias que, ao descobrirem que esperam uma menina, tentam matá-la ainda no ventre, chegando a colocar a própria vida da mãe em risco para impedir que uma filha nasça.

É para tentar salvar outras meninas desse destino que a Índia proíbe revelar o sexo do bebê durante a gestação.

E foi para encontrar mulheres como Lyba que eu vim parar no Nepal.

Estou participando de um retiro de lideranças do LOLA, uma rede global de mulheres que defendem a liberdade ao redor do mundo. Fui convidada como palestrante para um treinamento com líderes da organização na Ásia.

E algumas das histórias que ouvi aqui ajudam a entender, de forma muito concreta, o que ainda significa lutar por liberdade.

Em algumas regiões do Nepal, mulheres ainda são expulsas de casa durante o período de menstruação e obrigadas a dormir sozinhas em abrigos precários, vulneráveis até a ataques de animais. Foi Prasidika, líder do LOLA no país, quem me contou.

Ainda mais chocante é a tradição das Kumaris. Meninas escolhidas como deusas vivas perdem parte da infância: não brincam livremente, não frequentam a escola normalmente e até rir ou chorar pode ser visto como mau presságio.

Em Bangladesh, Nafisa e Effat me mostraram um cenário ainda mais assustador.

Meninas são abandonadas por terem nascido meninas, mulheres sofrem ataques com ácido e, em algumas comunidades, homens de mais de quarenta anos se casam com adolescentes de quinze ou dezesseis

Nos assentamentos de Daca, Effat encontrou mulheres sem nenhuma noção básica sobre saúde sexual e reprodutiva. Sem escola que ensine isso, a informação que sobra vem da pornografia.

Nem contraceptivo elas decidem sozinhas: se o marido não providencia, a mulher raramente vai atrás por conta própria, porque isso ainda é visto como coisa que mulher não deveria fazer.

E é claro que essa falta de autonomia não termina nas fronteiras de Bangladesh e Nepal.

No Sri Lanka, Zeenath mostrou outra face desse mesmo problema: o silêncio.

Ela falou sobre meninas muito jovens vítimas de estupros coletivos, muitas vezes envolvendo o próprio namorado e seus amigos, e sobre casos de abuso dentro de instituições religiosas. Em um deles, uma menina foi abusada durante anos por um líder religioso. A própria mãe sabia, mas permaneceu em silêncio por causa do dinheiro que recebia.

E esse silêncio começa muito antes. Em partes do país, menstruar ainda é motivo de vergonha. Zeenath contou que, ao comprar absorventes, eles são embrulhados em várias camadas de papel para que ninguém veja o que a mulher está carregando.

Quando até um absorvente precisa ser escondido, não é difícil entender por que tantas outras coisas também permanecem em silêncio.

Na Armênia, Hamest me contou que muitas mulheres ainda perdem liberdade depois do casamento, seja na forma de se vestir, nas amizades que mantêm ou até na própria segurança dentro de casa. Nas Filipinas, Angela mostrou que essa perda pode ser ainda mais literal: o divórcio simplesmente não existe. Ao lado do Vaticano, é o único país que ainda mantém a proibição.

Talvez, para nós brasileiros, muitas dessas histórias pareçam pertencer a um mundo muito distante. E justamente por isso elas servem como um lembrete incômodo: liberdade nunca deve ser tratada como algo garantido.

Ela pode ser arrancada de forma brutal, como nos casos que ouvi aqui, mas também pode ser corroída aos poucos, quando aceitamos que o Estado, a cultura, a família ou até a religião decidam cada vez mais sobre a vida do indivíduo.

Por isso, diante de qualquer escolha coletiva, existe uma pergunta que deveria vir antes de todas as outras: isso nos torna mais livres ou menos livres? Liberdade não é uma palavra bonita para colocar em campanha política. É o espaço que cada pessoa tem para ser dona da própria vida. E esse espaço nunca deveria diminuir.

E sobre a pergunta que abriu este texto, Lyba ainda não sabe a resposta. Mas me contou que sente que carrega uma menina no ventre: a Yana. Essa também é a torcida do marido. Em um mundo onde tantas meninas ainda precisam lutar pelo direito de simplesmente existir, criar uma filha livre é uma das formas mais bonitas de ajudar a mudar essa história.

E, se você é mulher e se interessou pelo trabalho do LOLA, essa rede também está aberta para você. O Brasil tem hoje um dos núcleos mais ativos da organização, presente em mais de 30 cidades. Tenho certeza de que você será muito bem-vinda por aqui.

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