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O amor é a memória em estado de graça

Há um capítulo das Confissões em que Agostinho, depois de procurar Deus pelo mundo inteiro, nas coisas belas e nas doutrinas dos homens, volta-se para dentro e O encontra onde menos esperava: nos palácios da própria memória. “Tarde te amei, beleza tão antiga e tão nova.” O achado é vertiginoso e costuma passar despercebido: se Deus se deixa encontrar na memória, então a memória não é um depósito, é um santuário. E, se é um santuário, talvez a relação entre amor e memória seja mais íntima do que supõe a psicologia de manual. Esta é a tese deste ensaio: o amor não é uma paixão que a memória registra, mas a própria memória em operação, escolhendo, entre os escombros do vivido, aquilo que merece ser eterno.

Machado de Assis intuiu essa cumplicidade melhor que ninguém. Bentinho, ao construir a casa do Engenho Novo à imagem da casa da infância, queria “atar as duas pontas da vida”, queria que a memória fizesse o que o tempo desfez. Que a empreitada tenha fracassado não desmente a intuição, apenas a torna trágica. Porque a memória é uma editora incorrigível: corta, retoca e ilumina, como aqueles restauradores que devolvem ao afresco cores que ele talvez jamais tenha tido. A questão não é se ela mente, mas a serviço de quê mente. Quando mente a serviço do ciúme, produz um Dom Casmurro. Quando mente a serviço do Amor, produz aquilo a que chamamos, sem ironia, uma vida.

Sirva de fio condutor a figura de um diplomata brasileiro, hoje servindo à beira do Báltico, com uma mulher amada, duas filhas pequenas e uma Bíblia anotada na cabeceira. A profissão vem ao caso: um diplomata é um funcionário da memória alheia. Passa a vida redigindo telegramas, isto é, decidindo o que, de cada dia, merece sobreviver ao dia. Viena, Caracas, Mascate, Jacarta, Talin: cinco cidades, cinco arquivos, e, em cada um deles, a mesma descoberta discreta e humilhante, a de que o essencial nunca estava nos telegramas.

O essencial era a mulher rindo dele numa esquina da Löwelstraße com a Schenkenstraße porque ele insistia em pronunciar uma palavra alemã com um sotaque engraçado. Isso não foi expedido para Brasília, mas, sim, para uma eternidade particular.

Borges imaginou o caso-limite que ilumina todos os outros: Funes, o memorioso, o homem que se lembrava de tudo, de cada folha de cada árvore de cada monte e de cada uma das vezes que a havia percebido ou imaginado. Funes era um monstro, e era um monstro precisamente porque não podia amar: quem lembra tudo não escolhe nada, e amar é escolher. A memória total é o inferno; o paraíso é feito de esquecimentos bem administrados. O amor exige o que Funes não tinha: o direito de esquecer o acessório para que o essencial tenha onde morar.

Adolfo Bioy Casares, mais elegante que Borges e talvez por isso menos citado, escreveu a advertência complementar. Em A invenção de Morel, um fugitivo apaixona-se, numa ilha deserta, por uma mulher que afinal não existe: é uma projeção, uma gravação tridimensional repetindo para sempre a mesma semana. E o fugitivo, em vez de desesperar, grava a si mesmo dentro da semana dela, para coincidir com ela eternamente, ainda que a máquina o mate, e ela irá matá-lo. Seria cômodo sorrir do náufrago, não fosse ele o retrato antecipado de uma época inteira.

Fotografamos, filmamos, arquivamos; convertemos o amor em acervo

O diplomata guarda no telefone alguns milhares de imagens das filhas e já se surpreendeu contemplando as fotos na sala ao lado daquela em que elas, em carne, osso e gritaria, o chamavam para brincar. A invenção de Morel não é uma fantasia: é uma denúncia. O perigo não é esquecer quem amamos, é preferir a gravação.

Nelson Rodrigues, que, sob a safadeza escandalosa, escondia um moralista rigoroso, enxergava o óbvio que os sofisticados não veem: ninguém ama o presente. O presente é inabitável; escorrega, não posa para retrato. Ama-se sempre uma criatura composta, feita da moça da primeira valsa e da mulher do café da manhã de hoje, sobrepostas como transparências.

Um casamento longo confirma a lição: não é a convivência de duas pessoas, é a convivência de dois arquivos que negociam, todas as noites, uma versão comum do passado. Quando a mulher do homem conta uma história dos dois e ele a corrige, não estão discutindo fatos: estão disputando a redação final de uma eternidade doméstica. Vence quase sempre ela. E a Eternidade, ao que tudo indica, sai ganhando.

Julio Cortázar sabia que a memória não anda em linha reta e, por isso, escreveu um romance que se pode ler fora de ordem, saltando de capítulo em capítulo como quem joga amarelinha. O jogo é rigorosamente exato: ninguém se lembra da própria vida em ordem cronológica, e a memória amorosa é toda ela contramão e atalho.

Um cheiro de café em Talin devolve o homem, sem escalas, a uma cozinha de Caracas em pleno desabastecimento, onde o café era contrabando e felicidade; uma ladeira gelada do Báltico entrega-lhe uma tarde úmida de Jacarta; as filhas dormindo arremessam-no a um hospital, anos atrás, ao instante exato em que compreendeu que seu coração passaria a circular fora do corpo, repartido em duas. Quem quiser narrar honestamente uma vida amada terá de seguir o método de O jogo da amarelinha: do capítulo 73 ao 1, do 1 ao 2, do 2 ao 116. Qualquer outra ordem seria mentira.

Thomas Mann gastou mil páginas d’A montanha mágica para demonstrar que o tempo não é grandeza física, e sim substância moral: dilata-se e contrai-se conforme a densidade do que se vive. Hans Castorp subiu para uma visita de três semanas e ficou sete anos, porque lá em cima o tempo era outro. Toda vida de diplomata é uma sucessão de montanhas mágicas: cada posto é um sanatório de três ou quatro anos, com seus Settembrinis de recepção e seus invernos que não acabam. E, no entanto, feitas as contas, 20 anos de carreira pesam menos, na balança da memória, que certos minutos avulsos: um sim, um primeiro choro, uma oração murmurada no escuro de um quarto em Mascate.

A memória não mede o tempo: pesa-o. E o Amor é o que há de mais pesado

Ergue-se aqui a objeção inevitável, e ela tem um nome, Michel Houellebecq. O romancista francês sustentaria que tudo isso é embelezamento de cadáver, que o amor se dissolveu na lógica do mercado erótico, que somos partículas elementares em colisão e que a memória amorosa é apenas a propaganda que a espécie faz de si mesma. A objeção tem a força melancólica das coisas meio verdadeiras e merece resposta à altura.

A resposta vem de um russo. Dostoiévski pôs na boca de Aliocha Karamázov, diante de uma pedra e de um grupo de meninos, a mais alta doutrina pedagógica já formulada: uma única lembrança boa, guardada desde a infância, pode um dia salvar um homem. Uma única. A memória amorosa não é propaganda, e sim estoque de salvação. E quem tem filhos passa os dias, saiba-o ou não, fabricando as lembranças que um dia terão de salvá-los. Diante da pedra de Aliocha, o cinismo de Houellebecq não é refutado, mas simplesmente deixado para trás, como se deixa um quarto sem janelas.

Resta a hora contra a qual tudo isso se decide. Virgil Gheorghiu chamou de vigésima quinta hora aquela que vem depois da última, a hora em que todo socorro chega tarde, em que a máquina já triturou o que tinha de triturar. O século passado a conheceu nos campos e nos vagões lacrados, e o nosso a conhece em versão doméstica e anestesiada, pois esta é a hora em que um homem olha a própria casa e descobre que esteve ausente de todas as fotografias em que aparece.

Contra ela, vale convocar dois brasileiros que o Brasil se deu ao luxo de esquecer. Mário Ferreira dos Santos ensinou que tudo o que vive luta contra a dissolução e que a forma é a vitória provisória do ser sobre o caos: a memória amorosa é exatamente isso, a forma que damos ao tempo para que ele não nos dissolva.

Outro Mario, o Vieira de Mello, diagnosticou que o Brasil trocou os moralistas pelos estetas, a cultura da alma pelo espetáculo da alma. Aplicada ao Amor, a lente revela o retrato: uma civilização de estetas coleciona sensações e descarta lembranças, porque a sensação é consumo e a lembrança é compromisso. Um povo sem memória amorosa não é um povo jovem, é um povo que não terá com que se salvar quando soar a vigésima quinta hora.

Um dia o homem será, para as filhas, apenas memória. O inventário será imperfeito, como são todos: hão de lembrar o pai com injustiças, lacunas e meia dúzia de cenas superestimadas. Não faz mal. Se desse arquivo desordenado sobreviver uma única lembrança boa, uma manhã ensolarada em Goiânia, uma tarde de neve em Talin, uma oração em voz alta, uma gargalhada na cozinha, a doutrina de Aliocha terá sido cumprida, e o dever de casa estará feito.

Porque a carne esquece, os impérios extraviam seus telegramas e as bibliotecas ardem com uma regularidade que já não escandaliza ninguém. Só uma memória não falha, e é nela que todas as outras estão penduradas como lâmpadas numa corrente. Foi o que Santo Agostinho descobriu ao encontrar, nos porões de si mesmo, alguém que lá estava desde antes dele, pois amar é apostar que fomos lembrados antes de existir e que seremos lembrados depois de partir, que há uma memória que não arquiva, não deleta, não se distrai. A morte é o fim da percepção, não é o fim da memória. E a ressurreição, essa apoteose que nenhum esteta ousaria encenar, não é outra coisa que não Deus recusando-se, gloriosamente, a nos esquecer.

Lindolpho Cademartori é diplomata de carreira desde 2006 e mestre em Diplomacia pelo Instituto Rio Branco.

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