Uma eleição presidencial é construída com meses de acordos e alianças, propaganda, economia, rejeição, militância e, sobretudo, com tudo aquilo que o eleitor acredita quando chega à urna. Mas há momentos em que algumas horas diante das câmeras parecem capazes de embaralhar tudo isso — especialmente quando a disputa está apertada, e milhões de indecisos ainda procuram uma razão para escolher um lado.
São momentos como os debates eleitorais, uma das estratégias mais antigas das campanhas. É no debate que as ideias são confrontadas, as ausências são notadas, os ânimos se acirram e o que era para ser uma discussão verbal pode escalar para ataques físicos. Dada essa importância, uma pergunta se impõe: um candidato pode ganhar uma eleição em duas horas de debate na televisão?
A resposta parece óbvia: provavelmente não. Mas a realidade é bem mais complexa do que isso, já que o debate não termina quando as luzes se apagam e os candidatos deixam o estúdio. Ele continua nos jornais, nos comentários dos analistas e, principalmente, nos cortes que chegam aos celulares dos eleitores.
Por isso, o que pode decidir uma eleição não é exatamente o debate em si, mas sim quem conseguiu transformar sua versão do debate na história que todo mundo vai lembrar e contar no dia seguinte.
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Em 1989, debate presidencial colocou Lula e Collor frente a frente
O Brasil já teve uma eleição em que essa pergunta deixou de ser apenas uma hipótese retórica. Em dezembro de 1989, Fernando Collor e Luiz Inácio Lula da Silva disputavam uma das eleições presidenciais mais importantes e apertadas da história brasileira. Os dois se enfrentaram duas vezes na televisão.
No segundo debate, realizado no dia 14 daquele mês, Collor e Lula ficaram frente a frente por duas horas e meia. Nem todos os eleitores assistiram ao debate na íntegra. No dia seguinte, porém, partes da discussão foram editadas e exibidas em horário nobre no Jornal Nacional, da TV Globo. Collor seria eleito presidente, com 53% dos votos válidos contra 47% de Lula.
A edição do debate motivou um pedido público de desculpas por parte da emissora. A Globo reconheceu que tentar resumir um debate como se faz com os melhores momentos de uma partida de futebol foi um erro e um risco inaceitável para o jornalismo.
O confronto entrou para a história, mas a pergunta permanece: um debate pode realmente decidir uma eleição? Ou o que decide é aquilo que acontece com o debate depois que ele termina?
O primeiro debate televisivo criou a política da imagem
John Kennedy e Richard Nixon protagonizaram, em 26 de setembro de 1960, o primeiro debate presidencial transmitido nacionalmente pela televisão americana. Nixon tinha experiência política e era vice-presidente; Kennedy era mais jovem e relativamente menos experiente.
A narrativa histórica ficou famosa: quem ouviu o debate pelo rádio teria percebido Nixon como vencedor; quem assistiu pela televisão teria ficado mais impressionado com Kennedy. Aparência, postura, iluminação, suor, expressão corporal e domínio da câmera passaram a fazer parte da avaliação política.
Esse episódio é frequentemente apontado como um momento fundador da política televisiva moderna. Mais do que as propostas, a postura dos candidatos na frente das câmeras teve um peso inédito junto aos eleitores. Kennedy pode ter ganho aquela eleição não apenas pelo debate, mas é inegável que o confronto teve influência entre os eleitores.
As perguntas certas na hora certa
Em 1976, o democrata Jimmy Carter havia vencido as eleições presidenciais nos EUA contra o então presidente, o republicano Gerald Ford. Quatro anos depois, ele iria experimentar o mesmo sentimento de seu antecessor ao ser derrotado pelo ex-ator Ronald Reagan.
Eles se enfrentaram em um único debate, uma semana antes da eleição, e o resultado do pleito não mostra o quão competitiva estava a disputa. Pelo menos até o encontro televisionado dos adversários.
A performance de Reagan foi considerada muito superior à de Carter. Nas considerações finais do encontro, o republicano foi o último a falar, e lançou uma série de questionamentos aos eleitores americanos. As perguntas, feitas diretamente para os telespectadores, praticamente fizeram a campanha de seu adversário derreter diante das câmeras.
“Todos vocês irão às urnas e tomarão uma decisão. Acho que, ao tomarem essa decisão, seria bom se perguntassem a si mesmos: vocês estão em melhor situação do que estavam há 4 anos? É mais fácil para vocês irem às lojas e comprarem coisas do que era há 4 anos? Há mais ou menos desemprego no país do que havia há 4 anos? Os Estados Unidos são tão respeitados no mundo todo quanto eram? Vocês sentem que nossa segurança é tão sólida, que somos tão fortes quanto éramos há 4 anos?”, questionou Reagan
Depois do debate, a disputa, que antes estava acirrada, mudou rapidamente. Reagan venceu a eleição de forma esmagadora, com 44 estados contra 6 de Carter, cujo governo enfrentava inflação, crise econômica, a crise dos reféns no Irã e um forte desgaste interno.
O debate não morreu, só mudou de tela
Exemplos como os anteriores mostram a força que a TV tinha décadas atrás na decisão de voto dos eleitores. Mas e hoje, com as eleições tão focadas nas redes sociais, os debates ainda são relevantes?
A pesquisa Panorama Eleitoral Brasileiro, realizada pelo Instituto Informa e divulgada em reportagem da revista Veja mostra que sim. Segundo o levantamento, realizado entre 21 de maio e 7 de junho de 2026, com 2.419 entrevistas em todo o país, 53% dos entrevistados afirmaram que os debates e as entrevistas ao vivo têm potencial para chamar a atenção ou levá-los a reconsiderar a escolha de um candidato. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com 95% de nível de confiança.
Para o relações públicas, especialista em opinião pública e professor da PUC-PR Marcos José Zablonsky, essa importância se deve mais pelo que o debate representa atualmente, e menos pelo que esse embate entre candidatos já foi um dia.
À Gazeta do Povo, Zablonsky explicou que os debates continuam fundamentais, mas sua função mudou. Segundo o professor, antes o sucesso era medido pela audiência da TV. Hoje o debate é um “produtor de conteúdo para todo o ecossistema digital” dos candidatos, formado pelas redes sociais, aplicativos de mensagens e plataformas onde a informação circula e se multiplica.
“O candidato vai ao debate, e a equipe dele faz os cortes e distribui para as redes. Os influenciadores participam disso porque também vão fazer seus comentários. Vai rolar memes, mensagens em grupo de WhatsApp. E o eleitor pode ser impactado por toda essa cadeia. Não é mais como era antigamente, antes era o candidato, a TV e o eleitor”, detalhou.
Dessa forma, avaliou o especialista, as redes sociais passaram a amplificar o que antes ficava restrito às mídias convencionais. Para Zablonsky, o debate não morreu, apenas “mudou de tela”.
Faltar ao debate pode deixar candidato em desvantagem
Nos debates de primeiro turno é relativamente comum a presença de alguns candidatos cumprindo um papel no mínimo curioso: fazer o “trabalho sujo” para os principais nomes em disputa. Frases de impacto e ataques coordenados são algumas das ferramentas usadas para expor ou desestabilizar os adversários.
Não raro, alguns candidatos escolhem não participar dos debates, já prevendo esse cenário hostil. Essa opção, para o professor Marcos Zablonsky, pode não ser a melhor escolha por alguns motivos.
O primeiro, mais óbvio, é a exploração da ausência pelos adversários, que podem tachar o ausente de “covarde”, entre outros adjetivos desabonadores. O segundo é a ausência de um conteúdo que poderia alimentar as redes, algo que os adversários terão em sua vantagem.
“Vence um debate quem tira o outro do prumo. Uma fala atravessada às vezes é mais importante do que uma proposta. Se o candidato não está lá para se defender, ele sai em desvantagem. Além de não ter os próprios cortes, pode ter que produzir um material adicional para explicar a ausência. E, no final, quem decide o vencedor nem assistiu ao debate, só aos cortes”, completou.
Venceu, mas não levou
Ainda assim, vencer os debates não significa necessariamente a vitória nas urnas. A história tem alguns exemplos dessa situação, e a eleição americana de 2012 talvez seja uma das mais bem documentadas sobre esse assunto.
Naquele ano, Mitt Romney, do lado dos republicanos, e Barack Obama, pelos democratas, disputava a Casa Branca. Antes do primeiro debate, pesquisas mostram que os eleitores colocavam Obama como vencedor, com 51%, contra 29% favoráveis a Romney.
O debate entre os dois ocorreu em 3 de outubro daquele ano. Depois do encontro, a percepção virou completamente: 66% disseram que Romney havia se saído melhor, contra apenas 20% para Obama.
Em setembro, antes do debate, a vantagem de Obama entre os eleitores registrados era de 51% a 42%. A pesquisa pós-debate mostrou um empate em 46%. Entre os indecisos, a vantagem de Romney era clara, 49% a 45%. Para o instituto Pew Research Center, responsável pelos levantamentos, o debate tinha alterado dramaticamente o tom da campanha, com os índices se movendo de forma rápida para o lado do republicano.
Só que Obama venceu a eleição, sendo reeleito com 51% dos votos populares e 26 estados, contra 24 favoráveis a seu adversário. Esse caso mostra que um debate pode alterar significativamente a trajetória de uma campanha, sem necessariamente alterar o vencedor da eleição.
Depois da TV, debate segue vivo nas redes
O que mudou realmente, e de forma mais radical, parece ter sido o lugar ocupado pelo debate em uma campanha. O eleitor já não precisa ficar horas diante da televisão para participar do acontecimento.
Um candidato pode ter uma fala de 30 segundos transformada em vídeo, meme, manchete, postagem, reação de influenciador e assunto de grupo de mensagens poucas horas depois. O palco continua o mesmo, mas a disputa pela memória e o que aconteceu no debate acontece cada vez mais fora dele.
Talvez seja essa a principal diferença entre os debates de ontem e os de hoje. Antes, quem não assistia ao debate talvez nunca seria impactado pelo que foi dito ou discutido pelos candidatos. Em 2026, porém, a seleção dos “melhores momentos” pode ser feita em segundos por uma equipe de campanha, um influenciador ou pelo próprio algoritmo das redes sociais. O debate termina no estúdio da TV, mas sua vida eleitoral está apenas começando.
No fim, portanto, um debate talvez não seja capaz de eleger sozinho um presidente. Mas pode fornecer a frase que uma campanha precisava, o erro que seu adversário esperava, o vídeo que milhões de pessoas vão compartilhar ou a imagem que ficará associada a um candidato até o dia da votação.
“A maior preocupação hoje não está nos poucos minutos para a resposta, nas réplicas ou tréplicas. O que importa é o que é produzido por essa cadeia com base nos cortes dos debates, e o que disso pode ser multiplicado nas redes. As campanhas tentam conquistar os indecisos, e sabem que não podem perder nenhuma oportunidade”, concluiu Zablonski.
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