Ex-procurador-geral de Justiça e ex-secretário de Segurança Pública, Alfredo Gaspar é deputado federal pelo Alagoas. (Foto: Kayo Magalhães/Câmara dos Deputados)
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A escolha do deputado federal Alfredo Gaspar (PL-AL) como candidato a vice-presidente na chapa do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) trouxe de volta à tona uma chaga que se tornou uma marca registrada do PT e de seus aliados no jogo político-eleitoral – a das acusações graves, feitas sem provas, contra quem quer que coloque seu projeto de poder em risco.
Logo após a formalização da indicação de Gaspar, ressurgiu a denúncia de “estupro de vulnerável” feita contra ele pelo deputado petista Lindbergh Farias e pela senadora Soraya Thronicke, do PSB, na reta final da CPMI do INSS, da qual foi relator, que investigou as fraudes bilionárias cometidas contra os aposentados e pensionistas da Previdência.
Como tem se tornado comum por parte do PT e de seus satélites, Soraya e Lindbergh não apresentaram até agora nenhuma evidência para sustentar a denúncia de que Gaspar teria realizado o estupro de uma menina de 13 anos, formalizada em março, por meio de uma notícia-crime impetrada contra ele no STF (Supremo Tribunal Federal). E, ao que tudo indica, nada terão a apresentar à Procuradoria-Geral da República, solicitada a se manifestar sobre a questão pelo ministro Gilmar Mendes, que deu 15 dias para ambos fornecerem elementos que ajudem a identificar os autores das mensagens que constam dos autos e das ligações telefônicas ocorridas entre eles.
Lindbergh, inclusive, segundo o noticiário, já teria procurado lideranças do PL para tentar fazer um acordo com Gaspar e evitar sua eventual responsabilização pela acusação. De acordo com declarações do deputado Sóstenes Cavalcante à CNN Brasil, o próprio Lindbergh falou que não tem como provar a acusação. “Ele me disse que não tem provas contra o Gaspar. É uma acusação muito grave sem prova nenhuma”, afirmou Cavalcante.
Pela troca de mensagens entre eles à qual a CNN teve acesso, Lindbergh chegou a escrever que poderia soltar uma nota pública dizendo que “não tem provas” da denúncia e Sóstenes respondeu que “essa frase resolve tudo”. Gaspar, porém, num sinal claro de que não tem culpa no cartório, recusou-se a aceitar a retratação do petista, que atua como uma espécie de franco-atirador do PT e do governo Lula, desferindo ataques ilimitados contra seus adversários no Congresso, muitos dos quais sem fundamento na realidade.
Tráfico de influência
O recuo de Lindbergh, na verdade, só reforça a percepção de que a acusação feita por ele e por Soraya carecia de provas desde o início e buscava destruir a reputação de Gaspar e desqualificar o trabalho exemplar que ele realizou à frente da CPMI, que acabou por pavimentar o caminho para sua escolha como vice de Flávio.
Por articulação do Planalto e do PT, o relatório final de Gaspar – que pedia o indiciamento de 216 pessoas, entre elas vários nomes ligados ao governo, além de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, pelos crimes de tráfico de influência, lavagem de dinheiro e corrupção passiva – não foi aprovado pelo colegiado. Mesmo assim, foi encaminhado ao STF por Gaspar e pelo senador Carlos Viana (Podemos-MG), que era o presidente do órgão, e agora está nas mãos do ministro André Mendonça, relator de dois processos sobre as fraudes do INSS que correm na instituição.
Isso, porém, não impediu que a tropa de choque do PT e seus aliados no Legislativo e nas redes sociais, que tanto reclamam das fakes news dos outros, martelasse por aí, sem constrangimento, a denúncia não comprovada de Lindbergh e de Soraya, contribuindo para moldar a opinião pública contra Gaspar e, por tabela, contra o próprio Flávio. Contaram para isso com o apoio da mídia amiga, que propagou sem qualquer filtro a acusação, ao noticiar sua escolha para a chapa do candidato ao Planalto pelo PL.
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Eu mesmo, por falha minha, acabei caindo nessa, influenciado pelo noticiário francamente negativo a respeito de Gaspar, num comentário que fiz sobre o assunto. Embora deixasse claro que nada havia se provado contra ele, cheguei a dizer que a mera existência da denúncia representava uma propensão de Flávio e de sua campanha ao masoquismo. Acreditava que a escolha deixaria sua chapa exposta a ataques desnecessários, além dos motivos já conhecidos, como a “rachadinha” no Rio e sua conversa sobre o financiamento do filme Dark Horse com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.
Só depois me dei conta de que poderia se tratar de mais uma manobra contra sua candidatura. Independentemente da posição que se tenha em relação a Flávio e ao clã Bolsonaro, não dá para “passar pano” para uma acusação sem apresentação de provas até o momento, como as de Lindbergh e Soraya.
Exame de DNA
Ex-promotor, ex-Procurador-Geral de Justiça e ex-secretário de Segurança de Alagoas, Gaspar sempre negou a acusação e moveu queixas-crimes por calúnia, injúria e denunciação caluniosa contra os dois parlamentares. Além da disposição de levar até o fim os processos contra a dupla, no STF, na Procuradoria-Geral da República e no Conselho de Ética da Câmara e do Senado, ele tomou a iniciativa de realizar um exame de DNA junto à perícia oficial de Alagoas para coleta de material genético destinado à antecipação de prova.
É certo que Alfredo Gaspar não era a primeira opção de Flávio – principal concorrente do presidente Lula no pleito, conforme as pesquisas – para vice. Talvez nem a segunda e nem a terceira. Flávio fez tudo o que estava ao seu alcance – é preciso reconhecer – para ter uma mulher de outro partido como vice, com o objetivo de ampliar o apoio à sua candidatura e reforçar sua posição com o eleitorado feminino, junto ao qual aparece bem atrás do presidente Lula nas pesquisas eleitorais.
Tentou atrair a senadora Tereza Cristina (PP-MS), ex-ministra da Agricultura do governo Bolsonaro, que tem forte identificação com o agronegócio e os eleitores de direita e centro-direita e certamente teria agregado muito valor à sua candidatura. Tentou também atrair, sem sucesso, a ex-presidente da Caixa, Daniella Marques, do Republicanos, coordenadora da área econômica de sua campanha, e as deputadas Simone Marquetto, do próprio PP, e Renata Abreu, presidente do Podemos. O Republicanos e o Podemos, porém, também optaram por manter a neutralidade nas eleições.
No fim das contas, a truculência do ataque a Gaspar expõe o receio que Lula, o PT e seus camaradas têm de enfrentar na campanha cobranças sobre os escândalos que eles tentam a todo custo varrer para debaixo do tapete.
Segundo muitos analistas, a decisão das três legendas de manter a neutralidade no pleito, inviabilizando a indicação de uma vice para o candidato do PL, teria menos a ver com questões políticas do que com a busca por uma blindagem de dirigentes partidários que respondem a processos por malfeitos no STF e preferem evitar possíveis atritos com ministros da Corte por causa do apoio a Flávio.
Cobranças sobre escândalos
Agora, diante do isolamento que lhe foi imposto, obrigando-o a lançar uma chapa puro-sangue para a disputa, a escolha de Gaspar pode ter surpreendido muita gente, mas tende a fortalecer a candidatura de Flávio no Nordeste, onde ele também está em desvantagem em relação a Lula, e nas áreas de segurança pública e de combate à corrupção. Conhecedor dos detalhes das investigações da CPMI do INSS, ele também poderá contribuir com informações preciosas sobre a participação de Lulinha e de aliados do presidente nas fraudes.
No fim das contas, a truculência do ataque a Gaspar expõe o receio que Lula, o PT e seus camaradas têm de enfrentar na campanha cobranças sobre os escândalos que eles tentam a todo custo varrer para debaixo do tapete. A tentativa de desidratar a principal candidatura da oposição, conforme a fotografia mais recente das pesquisas, com a reciclagem de uma acusação não sustentada por evidências pode produzir o efeito oposto. Em vez de enfraquecer a chapa Gaspar-Flávio, quem apostou no assassinato de reputação como arma política, na época da CPMI e agora, é que pode se dar mal.
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