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Calor extremo muda a lógica da construção civil e impõe nova agenda ao mercado imobiliário

Edifícios em área urbana durante período de calor intenso evidenciam a importância de soluções para eficiência térmica nas construções. (Foto: pexels)

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Antes vistas como fenômenos pontuais, as ondas de calor extremo passaram a integrar o planejamento estratégico de governos, empresas e investidores ao redor do mundo. Em 2026, a Europa voltou a enfrentar temperaturas recordes durante o verão, com a França registrando marcas superiores a 40°C em diversas regiões, interrupções no transporte ferroviário por deformação dos trilhos, restrições ao funcionamento de escolas, pressão sobre o sistema elétrico e impactos diretos na infraestrutura urbana. O cenário reforça um alerta que já começa a mobilizar o setor da construção civil no Brasil: projetar edifícios preparados para o clima do passado pode significar criar ativos vulneráveis diante das condições climáticas das próximas décadas.

Especialistas apontam que os efeitos do aquecimento global devem tornar eventos extremos mais frequentes também no Brasil. Para o engenheiro civil, mestre em sustentabilidade, diretor da Hotfloor e mentor da SmartLy, Euclides Ciruelos, essa mudança exige uma revisão profunda na forma de pensar as edificações. “Durante muitos anos, a engenharia concentrou seus esforços em proteger as construções da umidade e das chuvas. Agora, o desafio também passa a ser controlar o ganho excessivo de calor. Isso muda completamente a lógica do projeto”, afirma.

Segundo Ciruelos, o aumento das temperaturas exige maior atenção ao desempenho térmico das edificações desde a fase de concepção. Coberturas, fachadas e esquadrias deixam de ser apenas elementos estéticos para assumir papel decisivo na eficiência do imóvel. Soluções como isolamento térmico, vidros com controle solar, películas de proteção, brises, ventilação cruzada, sombreamento e materiais com maior inércia térmica passam a integrar uma nova geração de projetos capazes de reduzir significativamente o aquecimento interno dos ambientes.

O desafio, entretanto, não está restrito aos novos empreendimentos. Grande parte do parque imobiliário brasileiro foi construída sem considerar cenários de calor extremo. Para essas edificações, o retrofit surge como alternativa para aumentar a resiliência climática sem a necessidade de reconstrução. “É possível incorporar isolamento térmico em coberturas, instalar vidros de controle solar, utilizar telhados refletivos, ampliar sistemas de sombreamento e implementar automação para controlar climatização e ventilação. Essas intervenções melhoram o conforto térmico, reduzem o consumo de energia e aumentam a durabilidade dos materiais”, explica.

Resiliência passa a ser indicador econômico

A adaptação climática também começa a ganhar relevância sob a ótica financeira. Para Ciruelos, edifícios capazes de manter conforto térmico com menor consumo energético tendem a apresentar custos operacionais mais baixos e preservar melhor seu valor de mercado.

“Resiliência climática deixa de ser apenas um diferencial e passa a ser um requisito econômico. Investir em isolamento térmico, automação predial, gestão inteligente da climatização e monitoramento em tempo real significa proteger o patrimônio contra os efeitos das mudanças climáticas, reduzir despesas ao longo da vida útil da edificação e preservar o valor do ativo”, pontua.

Na avaliação do especialista, a tendência acompanha o movimento observado com as certificações ambientais, que passaram de elemento de diferenciação para critério de valorização imobiliária e de análise por investidores e instituições financeiras.

Inteligência artificial entra na gestão dos edifícios

Além das soluções construtivas, a tecnologia deve assumir papel estratégico para enfrentar as ondas de calor. Sistemas de automação predial integrados a sensores e inteligência artificial permitem monitorar continuamente o comportamento da edificação e ajustar automaticamente climatização, iluminação, persianas e demais cargas elétricas. “A automação possibilita manter o conforto térmico utilizando apenas a energia necessária. Ao mesmo tempo, monitora a demanda elétrica, evita sobrecargas e aumenta a confiabilidade das instalações”, afirma.

Entre as soluções destacadas por Ciruelos está o Controle Inteligente de Demanda, tecnologia desenvolvida pela SmartLy que distribui automaticamente o consumo elétrico, reduzindo picos de carga sem comprometer o funcionamento dos equipamentos.  Segundo ele, esse tipo de gerenciamento tende a ganhar importância à medida que cresce o uso simultâneo de aparelhos de ar-condicionado durante períodos prolongados de calor extremo, reduzindo riscos de sobrecarga e custos operacionais.

Projetar para o clima do futuro

Para o engenheiro, a principal transformação que o setor da construção civil precisará incorporar nos próximos anos é abandonar a lógica baseada nas condições climáticas históricas. “Precisamos deixar de projetar edifícios para o clima do passado e começar a projetá-los para o clima do futuro”, enfatiza.

Isso significa, segundo Ciruelos, incorporar desde a concepção dos empreendimentos soluções de eficiência energética, automação predial, gestão inteligente da demanda elétrica, ampliação das áreas verdes e utilização de superfícies refletivas capazes de reduzir as ilhas de calor nos centros urbanos.

Ele também defende investimentos em retrofit das edificações existentes, atualização das normas técnicas e fortalecimento de certificações que priorizem a adaptação às mudanças climáticas. “A adaptação climática não será apenas uma questão ambiental. Ela representa uma estratégia para preservar o valor dos ativos imobiliários, reduzir custos operacionais, garantir conforto aos usuários e aumentar a segurança das cidades diante de eventos extremos que tendem a se tornar cada vez mais frequentes”, conclui.

A experiência europeia demonstra que o impacto das ondas de calor vai muito além do desconforto térmico. Quando temperaturas extremas comprometem infraestrutura, elevam o consumo de energia e afetam a produtividade das cidades, a capacidade de adaptação das edificações deixa de ser apenas uma preocupação da engenharia e passa a integrar a agenda econômica. Para o mercado imobiliário brasileiro, preparar os empreendimentos para esse novo cenário pode representar não apenas uma medida de proteção climática, mas uma decisão estratégica para preservar competitividade e valor patrimonial nos próximos anos.

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