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Por que o mundo insiste em ignorar as vítimas cristãs da violência religiosa na Nigéria?

Há tragédias que o mundo civilizado só consegue enxergar depois de traduzi-las para uma linguagem suficientemente neutra, suficientemente burocrática e, por isso mesmo, suficientemente inofensiva. Enquanto não recebem o selo vocabular dos organismos internacionais, continuam a acontecer no escuro: aldeias queimadas, meninas sequestradas, mulheres violentadas, famílias expulsas, igrejas atacadas, comunidades inteiras reduzidas à condição de estatística em relatórios que quase ninguém lê: é o que está acontecendo na Nigéria.

A Nigéria é hoje um desses escândalos morais diante dos quais a consciência ocidental parece ter desenvolvido uma espécie de surdez seletiva. Quando a violência atinge cristãos – e, mais especificamente, mulheres e meninas cristãs –, o fato concreto costuma desaparecer sob camadas sucessivas de explicações sociológicas, geopolíticas, econômicas, climáticas, tribais ou administrativas. Tudo é mencionado, menos aquilo que, em muitos casos, salta aos olhos: a identidade religiosa das vítimas não é um detalhe lateral da tragédia; é parte do motivo pelo qual elas se tornam alvos.

Agora, especialistas da ONU vieram alertar formalmente para o risco aumentado de violência contra mulheres e meninas cristãs, bem como contra integrantes de outras minorias religiosas, sobretudo no norte e no cinturão central da Nigéria. O vocabulário é o esperado: “relatórios críveis”, “graves preocupações”, “violações de direitos humanos”, “sequestros”, “violência sexual”, “conversões forçadas”, “casamentos forçados”, “deslocamento interno”. Tudo muito correto, tudo muito diplomático – e tudo, ao mesmo tempo, aterrador.

O que esses termos descrevem, em linguagem de repartição internacional, é uma realidade muito mais crua: meninas arrancadas de suas casas, mulheres reduzidas a troféus de guerra, cristãos mortos ou expulsos por milícias armadas, comunidades abandonadas à própria sorte e um Estado incapaz – quando não complacente – de cumprir o seu dever mais elementar: proteger vidas inocentes.

As mulheres e meninas cristãs da Nigéria não precisam de piedade abstrata. Precisam de defesa, justiça, pressão diplomática, responsabilização dos agressores e reconhecimento honesto da natureza da violência que sofrem

Convém notar um ponto que a boa consciência contemporânea costuma evitar. A liberdade religiosa não é uma decoração retórica para constituições em tempos de paz. Ela é, antes de tudo, o direito de permanecer fiel à própria consciência quando essa fidelidade custa caro. É fácil defender a liberdade religiosa quando ela se resume a cerimônias discretas, discursos abstratos ou celebrações folclóricas. O teste real começa quando a fé se torna uma marca de vulnerabilidade, quando o nome cristão, a ida à igreja, a recusa em converter-se ou a simples pertença a uma comunidade religiosa podem transformar uma mulher ou uma criança em presa preferencial.

Aí se revela a diferença entre defender direitos humanos e administrar reputações. Muitos governos, universidades, fundações e organismos internacionais dominam perfeitamente a gramática dos direitos humanos enquanto ela serve para conferências, slogans e notas protocolares. Mas, quando a vítima é uma camponesa cristã nigeriana – sem assessoria de imprensa, sem poder de lobby, sem utilidade eleitoral para as grandes causas da moda –, a indignação global parece subitamente perder a voz.

Não se trata de negar que a Nigéria enfrenta conflitos complexos. É claro que há disputas por terra, fragilidade institucional, corrupção, pobreza, armas circulando, tensões étnicas e crise de segurança pública. Só uma inteligência preguiçosa reduziria tudo a uma única causa. Mas só uma inteligência covarde excluiria precisamente a causa religiosa quando ela é indispensável para compreender a escolha das vítimas, o simbolismo dos ataques e a lógica de intimidação das comunidades.

Dizer que mulheres e meninas cristãs estão especialmente vulneráveis é reconhecer aquilo que os fatos revelam: em muitas regiões da Nigéria, a identidade cristã converteu-se em fator específico de exposição à violência. Quando a coerção mira a fé, quando a conversão forçada e o casamento forçado são empregados como instrumentos de dominação e quando aldeias, igrejas e famílias são atacadas em razão de sua pertença religiosa, já não se está diante de uma violência genérica ou fortuita. Trata-se de perseguição religiosa. Recusar-se a nomeá-la não é prudência analítica nem cautela diplomática; é participação indireta na mentira.

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O mundo moderno tem uma facilidade notável para comover-se com símbolos e uma dificuldade ainda maior para proteger pessoas concretas. Discute-se linguagem inclusiva em gabinetes climatizados enquanto meninas são sequestradas em aldeias esquecidas. Redigem-se manifestos contra a intolerância enquanto comunidades cristãs vivem sob ameaça de extermínio. Celebra-se a diversidade religiosa em cerimônias oficiais enquanto, em certas regiões, o simples exercício da fé pode equivaler a uma sentença de morte social, física ou espiritual.

A questão, portanto, não se limita ao que fará a Nigéria. Consiste, sobretudo, em saber como reagirá a comunidade internacional depois de seus próprios especialistas terem reconhecido a gravidade do problema.

Continuará a recusar-se a dar aos fatos o nome que lhes corresponde, como se o reconhecimento da perseguição aos cristãos representasse uma inconveniência política? Continuará a tratar os cristãos perseguidos como vítimas inconvenientes, a fim de preservar a conveniência de suas narrativas políticas? Continuará, enfim, a confundir prudência diplomática com silêncio cúmplice?

O Estado nigeriano tem obrigações claras: investigar, punir, proteger, desmantelar redes criminosas, garantir segurança às comunidades vulneráveis, rever estruturas legais discriminatórias e impedir que normas locais ou códigos de blasfêmia alimentem um ambiente de hostilidade contra minorias religiosas. Nenhuma soberania nacional pode servir de biombo para a barbárie. A soberania existe para proteger um povo, não para oferecer abrigo jurídico à impunidade.

Mas também há uma obrigação moral mais ampla, que recai sobre todos os que ainda acreditam que direitos humanos significam alguma coisa. Se a liberdade religiosa vale apenas para os grupos que despertam simpatia cultural, ela não é liberdade; é preferência ideológica. Se a dignidade da mulher vale apenas quando a agressão confirma a narrativa política conveniente, ela não é dignidade; é propaganda. Se a infância só comove quando aparece no enquadramento certo, então já não falamos de direitos universais, mas de uma curadoria seletiva da compaixão.

As mulheres e meninas cristãs da Nigéria não precisam de piedade abstrata. Precisam de defesa, justiça, pressão diplomática, responsabilização dos agressores e reconhecimento honesto da natureza da violência que sofrem. Antes de tudo, precisam que o mundo pare de esconder sob eufemismos uma perseguição que escolhe suas vítimas pela fé. Porque a primeira vitória dos perseguidores é sempre esta: obrigar as vítimas a morrer sob uma descrição falsa.

André Fagundes é professor da pós-graduação em Direito Religioso na UniEvangélica/IBDR, doutorando em Direito Público, mestre em Direito Constitucional e investigador do Instituto Jurídico da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. É parecerista e pesquisador do Centro Brasileiro de Estudos em Direito e Religião (CEDIRE).

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