A disputa diplomática do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com os mandatários argentino, Javier Milei, e americano, Donald Trump, chegou ao auge da tensão nesta terça-feira (4), com a revogação por Washington do visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, e a decisão de Brasília de rebaixar as relações com Buenos Aires.
Estreitando laços comerciais, de segurança e políticos entre seus países, os dois líderes de direita estão contribuindo para isolar o governo Lula nas Américas.
Milei foi ajudado por Trump antes das eleições legislativas argentinas de meio de mandato, realizadas em outubro do ano passado: os Estados Unidos compraram diretamente pesos argentinos e fecharam um acordo de swap cambial de US$ 20 bilhões com o Banco Central da Argentina para frear a alta do dólar.
Enquanto o Brasil foi sobretaxado especificamente por Washington em julho em 25% por supostas práticas comerciais injustas e em 12,5% por alegadas falhas no combate à importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado, sanção dividida com outras 59 economias, a Argentina foi alvo da menor tarifa no segundo caso (10%).
Além disso, em fevereiro, a Argentina e os Estados Unidos assinaram um acordo de comércio e investimentos.
Por meio desse instrumento, a Argentina reduzirá ou eliminará tarifas sobre 221 categorias de produtos dos EUA, enquanto estes retirarão taxas sobre 1.675 produtos argentinos.
Embora o comércio bilateral do Brasil com os Estados Unidos siga bem acima do praticado com a Argentina, este cresce em ritmo mais acelerado: segundo dados do governo americano, entre 2024 e 2025, o comércio de bens dos EUA com os argentinos passou de US$ 16,2 bilhões por ano para US$ 18,2 bilhões, uma alta de 12%.
Já o comércio de bens Brasil-Estados Unidos foi no mesmo período de US$ 91,3 bilhões para US$ 94,2 bilhões, um incremento de apenas 3%.
Milei também aderiu este ano ao Conselho da Paz, o grupo criado por Trump para reconstruir a Faixa de Gaza e intermediar outros conflitos pelo mundo. Esta adesão e o acordo comercial ainda precisam ser aprovados pelo Congresso argentino.
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Os dois países também cooperam em defesa, com a Argentina aderindo ao plano Escudo das Américas, anunciado por Trump, e um acordo por meio do qual os EUA ajudarão na modernização da infraestrutura da Marinha argentina e receberam autorização para que forças do Comando Sul americano participem do patrulhamento das águas do sul argentino.
Além disso, a Argentina está comprando 24 caças F-16 (de fabricação americana) da Dinamarca, que estão chegando em lotes anuais de seis até 2028, com aprovação da transferência por Washington, que também forneceu US$ 40 milhões para ajudar no negócio de US$ 560 milhões, além de treinamento, manutenção e suporte de longo prazo.
Outros acordos envolvem o fornecimento recíproco de combustível durante operações militares e facilitação da aquisição de tecnologia militar e drones por Buenos Aires.
Além do Conselho da Paz, a parceria entre Buenos Aires e Washington na política externa vem ocorrendo nas críticas e pressão sobre líderes esquerdistas, como Lula, o colombiano Gustavo Petro e o espanhol Pedro Sánchez, e no apoio a candidatos de direita nas eleições latino-americanas, onde tem ocorrido uma “onda azul” de vitórias sobre a esquerda.
Contando já a posse de Abelardo de la Espriella na Colômbia na sexta-feira (7), a América do Sul ficará dividida entre sete governos de direita (Argentina, Paraguai, Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Peru) e cinco de esquerda (Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e Uruguai).
Crise pode influenciar eleição se impactar claramente vida dos brasileiros, diz analista
Em entrevista à Gazeta do Povo, Carolina Montolli, professora do curso de direito da Estácio, disse que divergências entre chefes de Estado são inerentes às relações internacionais e não significam, por si sós, um isolamento definitivo.
“Entretanto, quando tensões diplomáticas se refletem em medidas concretas, como restrições diplomáticas, redução do diálogo político ou dificuldades na cooperação econômica e de segurança, podem surgir impactos relevantes para o país”, disse a especialista.
Montolli citou como possíveis consequências a redução da capacidade de negociação em temas estratégicos, como comércio exterior, investimentos e segurança nacional; diminuição da influência política em fóruns multilaterais e mecanismos de integração; o aumento da percepção de insegurança institucional por investidores internacionais, “caso conflitos diplomáticos gerem instabilidade prolongada”; e dificuldades para a construção de consensos em agendas em comum, “como o combate ao crime organizado transnacional, imigração, meio ambiente e desenvolvimento econômico”.
“A diplomacia não pode ser conduzida apenas pelo calor das divergências políticas; ela é um instrumento estratégico de proteção dos interesses permanentes do Estado”, afirmou a analista, que citou o histórico da política externa brasileira de ser “uma política de Estado e não apenas de governo”.
Montolli afirmou que a crise diplomática pode influenciar a eleição de outubro se houver impactos claros em setores como economia, segurança pública e confiança nas instituições sobre a capacidade de governança.
“Um eventual desgaste internacional somente tende a produzir efeitos eleitorais relevantes se for percebido pelos eleitores como responsável por consequências concretas na vida cotidiana, como perda de investimentos, dificuldades econômicas ou redução do protagonismo internacional do Brasil”, afirmou.


