No Nepal, a Geração Z derrubou um governo. A história expõe como a corrupção pode incendiar um povo — ou anestesiá-lo. (Foto: Narendra Shrestha/EFE/EPA)
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Manifestantes cercaram a residência de um ministro, apedrejaram as janelas e atearam fogo ao imóvel na manhã de uma terça-feira. O ataque ocorreu no segundo dia de uma onda de protestos que já havia se espalhado por diversas cidades do país.
Naquele mesmo dia, colunas de fumaça subiam de pelo menos três pontos da capital. O prédio do Congresso Nacional ficou em chamas por horas, com todas as janelas estourando, enquanto os bombeiros tentavam controlar o incêndio sem sucesso. O palácio presidencial também foi invadido e parcialmente incendiado.
Muitos dos manifestantes eram adolescentes, e alguns ainda vestiam o uniforme da escola.
O governo decretou toque de recolher e fechou o principal aeroporto do país. Menos de 48 horas depois, diante da pressão crescente das ruas, o chefe de governo anunciou sua renúncia.
E o estopim? Um dia antes, aquele mesmo ministro havia decretado o bloqueio de 26 redes sociais em todo o país.
Semanas antes do banimento, um vídeo no TikTok mostrava caixas da Louis Vuitton e da Cartier empilhadas como uma árvore de Natal. Era o presente de fim de ano do filho de outro ministro.
Em outro vídeo, o filho de um político aparecia jantando em um restaurante de luxo, com um Mercedes estacionado na porta.
Esses vídeos passaram a circular ao lado de cenas de filas de emprego e de pessoas contando moedas no caixa do mercado. O contraste virou hashtag, viralizou e, em poucos dias, ganhou um nome: “filhos da elite”. O salário oficial dos pais estava longe de explicar aquele padrão de vida.
Foram vídeos como esses, compartilhados aos milhões, que prepararam o terreno para o banimento que viria dias depois e para o fogo que viria na sequência.
Essa história, é claro, não aconteceu no Brasil. Também não foi na Venezuela, em Cuba ou em nenhum desses países que costumam ocupar as manchetes.
Aconteceu do outro lado do oceano, em um país pequenininho, espremido entre a China e a Índia: o Nepal. Você talvez só o conheça por causa do Monte Everest.
Foi esse país minúsculo que escreveu um roteiro capaz de nos fazer parar para pensar: até onde vai a paciência de uma geração cansada de ser enganada?
O primeiro-ministro caiu em menos de 48 horas. Só que o país ficou sem líder, em um vácuo perigoso demais para durar. Foi então que aquela mesma geração fez algo que nenhum outro país havia feito antes: escolheu o próximo chefe de governo dentro de um grupo de bate-papo on-line.
Um aplicativo usado, até então, quase só por gamers. Mais de 140 mil jovens debatendo, votando e escolhendo uma ex-juíza de 73 anos, conhecida por ser incorruptível, para assumir o país interinamente.
O parlamento, literalmente, virou um chat.
Quem esteve por trás de tudo aquilo, dos incêndios ao Discord, passando por meses de pressão, foi a geração Z nepalesa. Foram eles que saíram às ruas de uniforme escolar. Foram eles que votaram em uma plataforma de videogame. E foram eles que, meses depois, nas primeiras eleições livres, escolheram como primeiro-ministro um ex-rapper de 35 anos.
E é para entender mais sobre essa história que estou, neste exato momento, a caminho do Nepal.
O Nepal é conhecido pelos monges budistas, pelos mosteiros no meio do Himalaia e pela imagem de paz que associamos a quem medita e busca o silêncio, o que parece conflitar com as imagens recentes que trouxeram o país às manchetes internacionais.
Adolescentes e jovens de vinte e poucos anos, no meio do Himalaia, decidiram que não ficariam calados diante de um sistema que empobrece o povo e enriquece os filhos do poder.
E, deixando bem claro: não defendo incêndio em prédio público, golpe ou qualquer tipo de violência. O que essa história me faz pensar é outra coisa.
Se, no Nepal, um filho de ministro posando com sacolas da Louis Vuitton foi capaz de incendiar uma geração inteira, em outros lugares acontece o contrário: o fogo queima tão devagar que quase ninguém percebe.
É assustador ver adolescentes colocando fogo nas próprias instituições, por mais tomadas que elas estejam por gente corrupta e autoritária. Mas também assusta perceber o outro extremo: um povo que convive há tanto tempo com a corrupção e o abuso de poder que já quase não reconhece o perigo.
É a velha história do sapo na panela: a água esquenta aos poucos, cada novo absurdo parece suportável e, quando ele finalmente percebe o perigo, já está fervendo.
Vou ao Nepal participar de uma conferência internacional sobre liberdade, formada majoritariamente por jovens da Geração Z. No mesmo país em que essa geração incendiou o próprio Parlamento para reivindicar liberdade. Vou tentar entender o que levou tantos jovens a arriscar a própria pele por um princípio que a nossa geração parece ter esquecido que existe.
Quem sabe, lá, eu aprenda por que o fogo da minha geração, no meu país, parece ter perdido a chama.
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