Há muitas pesquisas que mostram que a maioria das pessoas reconhece na leitura um caminho para viver melhor: ler aprimora o pensamento crítico, fortalece a fluência verbal e escrita na norma culta e se consolida como um hábito saudável. Não por acaso, essa percepção dialoga com um estudo da Universidade de Roma, segundo o qual leitores tendem a ser mais felizes do que não leitores.
Há, ainda, uma sensação particular de enlevo e êxtase quando imergimos em uma boa leitura, seja pelo aconchego de um livro impresso, seja pela praticidade de um tablet ou outro dispositivo digital. Afinal, ao contrário de antigas previsões belicosas, não se trata de uma disputa, mas de suportes distintos que atualmente convivem harmoniosamente entre gerações analógicas, imigrantes digitais e nativos digitais.
Nesse contexto, os suportes digitais de leitura apresentam vantagens evidentes: são práticos, permitem armazenar inúmeros livros (benefício para quem viaja) e oferecem, em geral, preços de download mais módicos. Contudo, alguns estudos indicam que a leitura em tela pode ser menos eficiente do que a do livro impresso para a compreensão e a retenção de conteúdos, sobretudo os mais complexos e entre gerações que não são nativas digitais.
Vivenciamos, assim, uma época singular da história, marcada pela superabundância de livros, revistas e jornais a preços acessíveis e pelo acesso gratuito a praticamente todos os grandes clássicos da literatura universal por meio de downloads – feito que nem a invenção da imprensa por Gutenberg foi capaz de alcançar em tamanha amplitude.
Ironias e contradições à parte, o Brasil ainda é, comparativamente, um país de poucos leitores, sobretudo quando se consideram conteúdos formativos e de maior densidade intelectual
Há exatos 37 anos, o físico inglês Tim Berners-Lee criou a fantástica World Wide Web (www), movido pela “ambição de que um dia ela abraçasse toda a Terra”, segundo suas palavras, a ponto de até desistir de patenteá-la, para que fosse “livre e igualitária”. Até hoje, mais de 1,1 bilhão de sites já foram registrados, conquanto uma parcela significativa do conteúdo da web seja fútil, quando não perniciosa. Estimativas apontam que mais de 50% dos novos conteúdos são atualmente criados por bots e IA.
Assim, a internet se aproxima, sob certo prisma, da realização do grande sonho dos diretores da antiga Biblioteca de Alexandria, que, do século III a.C. ao século IV d.C., chegou a abrigar cerca de 500 mil rolos de papiro. A biblioteca tinha um lema ambicioso: “adquirir um exemplar de cada manuscrito existente na face da Terra”. Uma verdadeira odisseia, pois cada papiro ou pergaminho era conquistado por diferentes meios, sobretudo escambo ou pilhagem, aproveitando-se da posição estratégica de Alexandria como centro do comércio e da navegação. Dada a raridade desses documentos, restringia-se o manuseio deles aos mais conspícuos mestres do período.
Ainda hoje, na Era da Informação, essa restrição persiste em algum grau, pois parte das informações estratégicas, científicas e tecnológicas continua acessível apenas mediante autorização ou pagamento, mesmo que sejamos marcados por uma profusão incomparavelmente mais ampla e democrática de conteúdos disponíveis na web.
Ironias e contradições à parte, o Brasil ainda é, comparativamente, um país de poucos leitores, sobretudo quando se consideram conteúdos formativos e de maior densidade intelectual. Dados recentes da GWI mostram que o(a) brasileiro(a) continua entre os campeões mundiais em tempo dedicado às redes sociais: em média, 3h46 por dia, índice que nos mantém no topo do ranking global. Trata-se de um tempo que, não raro, substitui leituras, estudos e a convivência presencial com familiares e amigos, um custo silencioso dessa hiperconectividade que se impôs ao cotidiano, consumindo não apenas o presente, mas também o futuro de pessoas de todas as idades.
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Um estudo ainda mais abrangente, divulgado em novembro de 2024, na 6ª edição do Retratos da Leitura no Brasil, do Instituto Pró-Livro, revela um cenário inquietante: pela primeira vez na série histórica, 53% (a maioria) dos brasileiros e das brasileiras não leram sequer um livro (nem mesmo em parte) nos três meses anteriores à pesquisa. O país perdeu 6,7 milhões de leitores e leitoras nos quatro anos que antecederam a publicação do estudo.
Charlie Munger, sócio e grande amigo de Warren Buffett, foi um dos investidores mais influentes do século XX. Morreu em 2023, aos 99 anos, deixando uma trajetória marcada por lucidez, cultura ampla e uma fortuna bilionária. Em um de seus relatórios, registrou uma de suas frases mais citadas: “Em toda a minha vida, nunca conheci pessoas sábias, em qualquer área, que não lessem o tempo todo; nenhuma, zero.”
A observação (e o impacto que causou em Munger) ecoa algo que a experiência cotidiana já nos ensinou: são os exemplos, mais do que os discursos, que moldam a formação de novos leitores e novas leitoras. A criança, muitas vezes, não escuta, mas observa e imita. Por isso, pais, mães, responsáveis e professores(as) leitores(as) tendem a formar crianças leitoras.
Os benefícios da leitura são amplos: bons leitores desenvolvem melhor compreensão de textos, maior loquacidade, pensamento crítico e escrita fluente na norma culta, atributos cada vez mais valorizados em concursos e na vida profissional. Quem bem lê, bem escreve. E, quanto à importância da boa escrita, os antigos já advertiam, na lapidar concisão do latim: verba volant, scripta manent (as palavras voam, os escritos permanecem).
Jacir Venturi, autor de livros, membro do Conselho Estadual de Educação e do Centro de Letras do Paraná, foi professor da UFPR, da PUCPR e coordenador na Universidade Positivo.


