Dias atrás, neste espaço, a Gazeta do Povo diagnosticou o que chamamos de “crise da alma” brasileira: uma perda de esperança que nasce da conjunção de uma crise institucional, uma crise econômica e uma crise civil, ético-cultural, que se alimentam mutuamente. Esta perda de esperança se traduz, com muita frequência, em uma afirmação tão apocalíptica quanto – mostraremos a seguir – enganosa: a de que “o Brasil não tem jeito”. Ainda que haja muitos motivos para tal constatação, temos a ousadia de afirmar que ela é um engano grave, que costuma se alastrar e acompanhar os países em crise. Considerar que o presente é permanente, que as coisas sempre foram assim e sempre serão é um fatalismo que a própria história do mundo desmente.
É um pessimismo que deve diminuir nos próximos meses, até porque, ao longo da campanha eleitoral que está para começar, muitos candidatos afirmarão que sim, o Brasil tem solução – desde que sejam eles os eleitos. Não se trata, no entanto, de um processo tão simples. Mesmo quando se trata de candidatos que de fato defendem um conjunto de ideias correto (pois muitos também oferecerão como solução fórmulas que apenas agravarão os atuais problemas), os casos de países que mudaram para melhor mostram que é preciso construir uma direção clara e mantê-la por muitos anos. É disso, e não de passes de mágica nem de salvadores da pátria, que depende a concretização dos nossos desejos de um Brasil rico, um Brasil decente e um Brasil seguro.
Será possível, por exemplo, que o Brasil deixe de ser um país de renda média e passe a integrar, em um horizonte de 20 anos, o grupo das nações de alta renda, aquelas que têm renda per capita superior a cerca de US$ 14 mil, nos critérios do Banco Mundial? Nosso ponto de partida é uma renda per capita de US$ 9,5 mil – o salto seria de quase 50% em duas décadas. Parece impossível, mas três exemplos, inclusive alguns bem próximos, mostram que não se trata de utopia.
Os casos de países que mudaram para melhor mostram que é preciso construir uma direção clara e mantê-la por muitos anos
A Costa Rica, geograficamente muito próxima de países de baixa renda e em crise, acaba de atingir esse mesmo objetivo que gostaríamos de ver traçado para o Brasil. Em julho de 2025, o Banco Mundial reclassificou o país como economia de alta renda, resultado de duas décadas de crescimento consistente – cerca de 3% ao ano, em média, entre 2004 e 2024. O Chile é outro exemplo: em 1990, 39% dos chilenos viviam na pobreza; em pouco mais de 15 anos, esse número caiu para menos de 14%, enquanto a renda por habitante quase sextuplicou entre 1990 e 2018. Em 2010, o Chile tornou-se o primeiro país da América do Sul a ingressar na OCDE, o grupo das nações mais desenvolvidos do mundo. E há o exemplo mais radical: o da Coreia do Sul. Nos anos 1960, a renda per capita sul-coreana era inferior à brasileira e o país figurava entre os mais pobres do planeta. Hoje, a Coreia do Sul é uma potência tecnológica, industrial e cultural, cuja renda per capita é o triplo da brasileira.
Há inúmeros outros casos bastante documentados, com boa literatura analisando esses movimentos. O que ela mostra é que nenhum desses países “ganhou na loteria”, por exemplo encontrando alguma reserva abundante de commodities valiosas. O que eles fizeram foi mais difícil: criaram instituições confiáveis, investiram pesado na educação (especialmente a educação básica), mantiveram responsabilidade fiscal, abriram-se ao comércio internacional – e preservaram esse rumo ao longo de diferentes governos. A palavra-chave é consistência.
O que vale para a economia vale para a segurança pública, como demonstram os casos de Nova York, Colômbia, Escandinávia e Itália. Em 1990, Nova York registrou 2.245 homicídios; era a cidade mais violenta dos Estados Unidos, um símbolo mundial de violência urbana, retratada inclusive em clássicos do cinema. Também lá não houve milagre algum, mas decisão política, inteligência policial, aplicação efetiva da lei e recuperação da confiança nas forças de segurança. Duas décadas depois, os homicídios anuais giravam em torno de 300, uma queda de mais de 80% em comparação com os piores dias da “cidade que nunca dorme”. Nova York havia se tornado referência mundial em redução da violência – e o aumento verificado no início desta década se deveu justamente ao abandono de algumas das medidas que haviam ajudado a reduzir a criminalidade, o que apenas ressalta a importância da consistência nas políticas públicas.
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O próprio Brasil mostra que isso é possível. As sucessivas edições de estudos como o Atlas da Violência apontam que há estados com baixos índices de homicídios, e outros com números comparáveis aos de países em guerra. A diferença está nas instituições, nas prioridades e nas políticas públicas que não caem no erro de achar que a defesa da dignidade humana exige desconfiança em relação à polícia ou complacência com os criminosos – isso só leva a aceitar a impunidade. É o contrário: uma sociedade verdadeiramente humana não tem medo de ser firme e de proteger prioritariamente as vítimas, as famílias honestas, que só desejam viver em paz.
Por fim, na esfera civil e ético-cultural nem é preciso buscar exemplos externos. Graças à Operação Lava Jato, milhões de brasileiros passaram a considerar possível combater aquilo que, por décadas, foi tratado quase com resignação: a corrupção. Por mais que uma reação organizada e interesses políticos tenham conseguido desmontar a maior e mais bem-sucedida operação de combate à corrupção da história do Brasil, essa demolição não muda o fato de que a cultura de descrença quanto à possibilidade de atacar a corrupção mudou profundamente. E o que muda uma vez pode voltar a mudar.
Nossa sociedade está aprendendo. Há uma disposição crescente de rediscutir temas sem recorrer automaticamente a lógicas estéreis, como a surrada oposição entre opressor e oprimido ou o vitimismo permanente. A cultura do cancelamento e a afetada sinalização de virtude estão sendo cada vez mais questionadas. E uma razão adicional para esperança é o fato de o Brasil não “partir do zero”. O país tem estabilidade monetária desde o Plano Real; nosso agronegócio está entre os mais competitivos do mundo; reformas importantes como a da Previdência e a trabalhista, marcos regulatórios como o do saneamento, e medidas como a autonomia do Banco Central foram aprovadas no Congresso (ainda que algumas delas enfrentem retrocessos). O bom trabalho, portanto, já está em andamento – mas precisa ser terminado.
A pergunta não é se o Brasil pode mudar, pois a história de muitos países já respondeu que sim. A verdadeira pergunta é outra: teremos coragem e perseverança para construir essa mudança?
Além disso, agressões e repressões não foram capazes de conter a cultura de valorização da família, da vida, da liberdade, do empreendedorismo, do associativismo, da participação na vida pública, cultura essa que vem crescendo nos últimos 20 anos – em parte, também como reação a essas agressões e repressões. Temos, assim, um pano de fundo de valores humanos extremamente fecundo. E também a tecnologia é um elemento de esperança. A disseminação rápida da inteligência artificial traz desafios gigantescos, especialmente no mundo do trabalho, mas pode acelerar o crescimento e encurtar o tempo de implementação de medidas que levem à superação das crises.
O Brasil está bem posicionado para iniciar um ciclo de grande desenvolvimento institucional, econômico e ético-cultural. Mas ele depende de escolhermos líderes capazes de iniciar uma transformação na direção correta, com medidas assertivas e capazes de sobreviver ao próprio mandato, porque é assim que os países mudam. A virada não ocorre em quatro anos, mas não exige um século inteiro; basta que uma sociedade decida caminhar na mesma direção saudável por 20 anos, com a capacidade de manter boas políticas públicas ao longo do tempo.
O brasileiro nunca deixou de ser um povo otimista, mas precisa trazer essa característica de volta à superfície. A história nunca está completamente escrita e o Brasil não está condenado ao fracasso. Temos problemas profundos, mas também instituições que podem ser reconstruídas, uma economia que pode voltar a crescer, e uma sociedade que segue mostrando enorme capacidade de reagir quando encontra lideranças, ideias e objetivos claros. A pergunta não é se o Brasil pode mudar, pois a história de muitos países já respondeu que sim. A verdadeira pergunta é outra: teremos a lucidez, a coragem e a perseverança para construir essa mudança?


