Certo dia de julho de 2020, poucas semanas depois de sancionada a lei que obrigava o uso de máscaras em espaços públicos, eu estava no hall do elevador do meu prédio – sem máscara, obviamente, porque uso minha cabeça para pensar, não como suporte de alegoria de pano – quando uma vizinha se aproximou e, enquanto esperávamos o elevador, lançou-me um olhar de fúria que pude entrever, do que restava visível de seu rosto mascarado, pelas sobrancelhas erguidas. Eu carregava minha filha de 2 anos no colo. A criança, inocente, abriu um sorriso de expectativa e disse boa-noite à vizinha – porque nos dias anteriores tinha ouvido insistentemente do pai lições de boa educação. Qual não foi sua surpresa quando a vizinha virou-lhe a cara e nada respondeu, preferindo dirigir-se a mim, em tom imperativo: “Não vai pôr a máscara, seu negacionista?”
Naquele momento, tive a confirmação do que vinha suspeitando – e registrando em minhas colunas aqui na Gazeta – desde o início daquele processo distópico. Muita gente havia enlouquecido e perdido o resquício de humanidade. O medo instigado as havia animalizado, colocando-as num animus de pura sobrevivência física. Foi exatamente esse fenômeno que o filósofo Giorgio Agamben, ainda nos primeiros meses de 2020, identificou com a precisão de quem já havia dedicado a vida a pensar os mecanismos da exceção soberana: o pânico sanitário, transformado em política de Estado, reduzia a existência humana à sua dimensão puramente biológica – aquilo que os gregos chamavam de zoé, a mera vida animal, em contraposição a bíos, a vida propriamente humana, qualificada, vivida em comunidade e orientada por um sentido que a transcende.
Sob o império do medo, a “vida boa” – o bíos aristotélico, aquele que inclui liberdade, convívio, cultura, transcendência – foi inteiramente amputada em nome da mera sobrevida (a vida nua, na expressão do próprio Agamben), como se o único valor digno de proteção fosse a manutenção do batimento cardíaco, a qualquer custo e por qualquer meio, inclusive o sacrifício de tudo o que faz a vida humana ser humana. Não à toa, aquela minha ex-vizinha, apavorada, preferiu tratar uma criança de 2 anos com desprezo a arriscar minimamente sua própria integridade biológica: o terror pandêmico, fruto de muita desinformação, censura, manipulação do debate e lavagem cerebral, triunfara – e havia produzido exatamente o tipo de sujeito animalizado que Agamben temia.
Diário de Fauci e relatório do Congresso americano mostram a verdade sobre a pandemia, com cinco anos de atraso – e um preço que muitos de nós já pagamos integralmente, sem direito a reembolso
Cinco anos depois, tudo aquilo que era chamado de “desinformação” está sendo confirmado, ponto por ponto, por dois documentos que jamais imaginei ver publicados em vida: os diários privados de Anthony Fauci, revelados pelo senador Rand Paul, e o relatório final do Select Subcommittee on the Coronavirus Pandemic da Câmara americana, agora ostensivamente promovido pela própria Casa Branca sob o lema lapidar “The Truth”. A verdade, sim, mas com cinco anos de atraso – e um preço que muitos de nós já pagamos integralmente, sem direito a reembolso.
O relatório documenta o que sempre soubemos sem precisar de autorização de Fauci para sabê-lo: que a hipótese do vazamento laboratorial era, desde o início, muito mais que plausível – e que o próprio artigo “The Proximal Origin of SARS-CoV-2”, usado para descartá-la publicamente, nasceu de uma ligação telefônica do próprio Fauci a cientistas que, em mensagens privadas, escreviam frases reveladoras ao descobrir, no material genético do vírus, um sítio de clivagem de furina que a natureza jamais produzira em nenhum de seus 871 parentes virais conhecidos (segundo relata Holmes, seu colega Andersen lhe teria escrito, tomado de pânico: “Eddie, podemos conversar? Preciso que me tirem dessa beira do abismo”). Que o distanciamento de seis pés era um número tirado do nada. Que máscaras foram, na melhor das hipóteses, inócuas. Que lockdowns causaram mais dano do que benefício – precisamente a conclusão a que já havia chegado, em janeiro de 2022, uma meta-análise de pesquisadores da Universidade Johns Hopkins, nona colocada no ranking mundial, que varreu 18.590 estudos e concluiu, sem meias palavras, que “os bloqueios tiveram pouco ou nenhum efeito na mortalidade por Covid-19”, ainda que tenham “imposto enormes custos econômicos e sociais”. Caberia perguntar, então: seria a Johns Hopkins também “negacionista”?
Tudo isso, ressalte-se, dito por um comitê do Congresso americano, com centenas de páginas de documentação – não por “negacionistas” brasileiros sem importância, mas pela mais alta instância investigativa do país que produziu a própria vacina.
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E aqui chego a um ponto de caráter mais pessoal. Enquanto americanos descobrem, com cinco anos de atraso, que tinham razão em duvidar, nós, no Brasil, fomos processados e devassados por termos duvidado a tempo. Em agosto de 2021, a chamada “CPI da pandemia” aprovou a quebra do meu sigilo fiscal, requerendo ao Coaf um relatório de inteligência financeira sobre minhas movimentações desde 2019 – como se dúvida sobre lockdown fosse crime e precisasse de rastro bancário para ser provado. Levei o caso ao Supremo. Mas a senhora Cármen Lúcia, invocando “motivação idônea” (e, como boa parte de seus pares, tendo sempre em vista o objetivo prioritário de “derrotar o bolsonarismo” e “combater o populismo de extrema-direita”), manteve a decisão.
As “provas” apresentadas contra mim foram três postagens no Twitter: uma criticando a cobertura jornalística de protestos contra o lockdown na Espanha; outra defendendo que pacientes buscassem tratamento nos primeiros sintomas, não apenas quando já faltasse ar; e uma terceira sobre a suspensão de testes de uma vacina específica – nenhuma delas, ao contrário do que afirmava o requerimento, contra vacinas em geral, mas contra sua obrigatoriedade, posição que, aliás, coincidia integralmente com a da própria OMS.
Isso não é hipérbole de colunista inconformado. É registro documental do que fizeram a quem ousou pensar em tempo real o que hoje um comitê do Congresso americano confirma com o beneplácito silencioso da imprensa que outrora nos chamava de loucos. A diferença entre mim e Fauci é que ele escrevia suas dúvidas num diário fechado a sete chaves; eu escrevia as minhas em colunas assinadas, sujeitas a escrutínio – e por isso fui investigado.
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A “ciência” invocada contra nós, nesse episódio, nunca foi ciência no sentido estrito – método hipotético-dedutivo, sujeito a falseamento e revisão. Foi cientificismo, aquele fenômeno que a filósofa Susan Haack descreveu com precisão: o uso da palavra “científico” como título honorífico, retoricamente blindado contra questionamento. E os episódios que confirmaram essa suspeita não faltaram: o modelo catastrofista do Imperial College, que se revelou grosseiramente errado depois de já ter induzido lockdowns ao redor do mundo; o Lancetgate, em que duas das mais prestigiadas revistas médicas do planeta publicaram, com base em dados de uma empresa fantasma cujo banco de dados nem sequer existia, estudos que demonizaram a hidroxicloroquina – dados tão risíveis que o número de mortes reportadas num único hospital australiano superava o total de mortes do país inteiro. Foi o suficiente, porém, para que Fauci declarasse a “ciência” encerrada, e os imbecis políticos e midiáticos aqui no Brasil reproduzissem a falcatrua.
Recuso-me a esquecer, também, que posicionar-se contra a obrigatoriedade de uma vacina desenvolvida sob regime de urgência é ser simplesmente fiel ao Código de Nuremberg de 1947 – cujo primeiro princípio é a exigência absoluta de consentimento voluntário, cláusula nascida do julgamento dos experimentos médicos nazistas. Quem chamou de negacionista quem pensava assim deveria explicar por que considera dispensável essa lição específica da história.
Nenhuma dessas revelações traz de volta o tempo perdido, os empregos destruídos, as crianças privadas de escola e prejudicadas em seu desenvolvimento linguístico por conta das insalubres mordaças de pano, os doentes impedidos de buscar tratamento precoce, ou a reputação de quantos foram publicamente humilhados por dizer, em 2020, o que hoje se lê em relatórios oficiais de Washington. O que essas revelações trazem, isso sim, é a obrigação moral de revisão: de a imprensa reconhecer seus erros, de as instituições que perseguiram cidadãos por mera divergência de opinião prestarem contas, e de a sociedade em geral relembrar uma lição tão antiga quanto esquecida – a de que nenhuma autoridade, científica ou política, está isenta de errar, e que o preço de silenciar quem discorda costuma ser pago, mais cedo ou mais tarde, por todos.


