Milei é isso: uma voz incômoda. Alguém que não se curva ao sistema. Enfrenta os intocáveis, desarruma a casta e faz mais barulho que um palavrão. (Foto: Isaac Fontana/EFE)
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Basura calva. Em tradução livre, lixo careca.
Esta semana, eu ri toda vez que vi um jornalista tentando dizer “lixo careca” ao vivo, mantendo a pose e a seriedade. Foi assim que Javier Milei se referiu a um ministro do Supremo durante o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro.
O Itamaraty chamou o episódio de “sem precedentes”, Mauro Vieira falou em declarações grosseiras e inaceitáveis, e Fachin classificou como “incivilidade entre Estados”. Teve até quem apontasse a pior crise entre os dois países em meio século.
Mas será que foi Milei quem inaugurou essa crise? Será que o peso de um palavrão e de uma declaração de apoio bastam para explicar tudo isso? Onde, afinal, essa história começou?
Bom, que Lula é aliado de governos populistas e socialistas na América Latina, isso você já sabe. Na Argentina, não é diferente. Há décadas, ele mantém uma relação próxima com o peronismo e o kirchnerismo. Por isso, quando Milei apareceu nas eleições de 2023 como uma ameaça a esse grupo político, Lula fez questão de deixar sua marca.
E não foi apenas soltando o verbo numa convenção de lançamento de candidatura. Estamos falando de dinheiro, estratégia de marketing e até de recado na televisão pública.
Em 2023, Sergio Massa era ministro da Economia e virou candidato à Presidência. Ou seja: o homem que comandava a economia de uma Argentina em crise se apresentava como a solução para a crise que seu próprio governo ajudou a criar, depois de 16 dos últimos 20 anos sob governos de esquerda.
Com a economia respirando por aparelhos e a eleição se aproximando, Massa precisava de algum alívio. A Argentina buscava US$ 1 bilhão no CAF, um banco internacional que empresta dinheiro a países da América Latina. O valor serviria para pagar uma parcela ao FMI e liberar um novo socorro financeiro. Só que o país já tinha atingido seu limite de crédito.
Foi aí que Lula entrou. Segundo especulações, ele pressionou a ministra Simone Tebet a autorizar o voto favorável do Brasil no CAF. Ela, é claro, negou qualquer pressão. Ainda assim, o Brasil concedeu o voto favorável, e o empréstimo foi aprovado pouco antes da eleição e deu o fôlego que Massa precisava.
E, se liberar crédito para um país quebrado em plena eleição já parece muito, espere até Lula colocar, literalmente, a mão na Massa.
Você lembra de como foi a campanha do PT em 2022? Lula tinha acabado de sair da prisão, mas conseguiu tirar o foco do próprio passado e colocar Bolsonaro no centro de todos os medos: as armas, a ditadura, o fim da democracia. A estratégia deu certo, e ele resolveu levar a mesma fórmula para seus hermanos argentinos.
Lula enviou cerca de 20 publicitários brasileiros que trabalharam em sua campanha para repetir a estratégia na Argentina.
Na bagagem, levaram a mesma fórmula: o medo. Em um dos vídeos, uma criança tirava um revólver da mochila no meio da sala de aula. A mensagem era direta: isso é o que aconteceria se Milei fosse eleito. Na tela, aparecia o recado: “Milei não”. Era o “Ele Não” com sotaque argentino.
E, claro, o apoio não parou por aí. Lula decidiu, institucionalmente, tomar partido. Recebeu Massa no Palácio do Planalto ainda durante a campanha, chamou Milei de “pior que Bolsonaro” e disse que sua vitória seria o maior retrocesso da América Latina em 40 anos.
Depois do primeiro turno, ministros como Alexandre Padilha, Paulo Pimenta e Fernando Haddad entraram no coro. O PT publicou uma nota oficial de apoio a Massa e, dias antes do segundo turno, para não restar dúvidas, Lula usou a televisão pública brasileira para pedir votos contra Milei.
Mas eu entendo. O que deve machucar mesmo é ser chamado de “basura calva”. Então, vamos voltar ao que levou Milei a proferir esses insultos.
“Não me deixaram visitar meu amigo, que estava preso, quando todo mundo sabe que Lula recebeu muitas pessoas na prisão”, disse Milei durante o discurso, após proferir as ofensas.
Ele se referia à decisão de Moraes que, na véspera da convenção, negou a visita que faria a Bolsonaro no dia 25, na casa onde ele cumpre prisão domiciliar.
Mas pera lá. Um líder estrangeiro visitando um aliado preso para declarar apoio político não é novidade.
Em 2019, Alberto Fernández, ainda candidato à Presidência da Argentina, foi a Curitiba visitar Lula e disse estar diante de “um homem preso indevidamente”. Anos depois, já presidente, Lula fez o mesmo na Argentina: visitou a ex-presidente condenada pela Justiça, Cristina Kirchner, e saiu com um cartaz escrito “Cristina livre”.
Agora me diga: onde estava essa defesa da soberania quando Lula usou governo, partido, ministros, marqueteiros e televisão pública para influenciar a eleição argentina?
Ou quando cruzou a fronteira para atacar a Justiça de outro país por condenar Cristina Kirchner em um esquema de corrupção que favorecia empresários aliados com contratos milionários de obras públicas?
Diante de tudo isso, é até cômico que a grande crise tenha nascido de duas palavras: “basura calva”. Não é o que esperamos ouvir de uma jornalista em rede nacional ou, muito menos, de um chefe de Estado. Soa estranho, incomoda, quebra o protocolo. Mas Milei é isso: uma voz incômoda. Alguém que não se curva ao sistema. Ele enfrenta os intocáveis, desarruma a casta e faz muito mais barulho do que um simples palavrão.
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