O presidente dos EUA, Donald Trump, durante o Jantar dos Correspondentes da Casa Branca nesta sexta-feira (25), em Washington (EUA): ele vestiu um boné com os dizeres “Trump 2028”. (Foto: EFE/C-SPAN)
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O segundo mandato de Donald Trump sentenciou ao mundo uma era de desglobalização tão perniciosa para a economia quanto a geopolítica. E é emblemático que tal movimento tenha eclodido de dentro do país que, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, se consolidou como o estandarte do capitalismo liberal.
Eis que o tal “Consenso de Washington”, combatido em toda parte pelas esquerdas ditas anti-imperalistas, vai desmoronando pela força dos próprios agentes que, outrora, o promoveram, numa inflexão ideológica que reabilitou o protecionismo e traiu o livre mercado.
Não se sabe se Trump ganhará o desejado Nobel da Paz pelos esforços de negociação no Oriente Médio, o que se sabe é que ele já faz merece um doutor honoris causa da Unicamp pelas suas teses econômicas
Entre 1987 e 2008, ou seja, entre os estertores da União Soviética e a crise do subprime, o comércio de bens e serviços globais se expandiu de forma ininterrupta, alcançando nada menos que 51% do Produto Interno do Bruto produzido no planeta inteiro. Foi um período de acúmulo de riqueza quase que sem par desde a Revolução Industrial. E também foi o momento em que os acordos de livre comércio se consolidaram, incluindo a zona do Euro e o tratado da América do Norte. A realidade agora é outra.
Em um espaço de pouco mais de um ano, Donald Trump declarou guerra comercial a todos os países do mundo impondo tarifas unilaterais em duas ocasiões. Na sua visão de relações comerciais, os Estados Unidos é vítima de acordos lesivos aos seus interesses. O uso das tarifas teria o fito de buscar uma compensação, um equilíbrio, uma amortização dos supostos prejuízos. De repente, países periféricos e do mundo em desenvolvimento passaram a ser os exploradores.
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A primeira leva de taxações teve como base o uso abusivo do Poder Executivo de expedi-las baseada em genéricas alegações de emergência econômica. Era evidente, desde o primeiro momento, que uma vez examinadas pela Suprema Corte dos EUA, cairiam, como acabou acontecendo. Trump não desistiu, e as reinstituiu usando como subterfúgio supostas investigações comerciais. Ele deseja as tarifas porque tem uma visão comercial torta, irracional e, pasme o leitor, anticapitalista.
O preço econômico que os Estados Unidos pagarão já está sendo contabilizado, e não apenas na inflação para os próprios consumidores internos. Estimativas apontam que o país reduzirá sua presença global no comércio de bens e serviços. Franqueará, portanto, espaço para seus adversários geopolíticos, principalmente a China. O outro preço, que é moral e reputacional, nem pode ser dimensionado.
Eduardo Galeano jamais escreveu As veias abertas da América do Norte, mas apresentou uma vitimização dos povos latinos em um tom e em uma cadência semelhantes aos usados pelo mandatário dos Estados Unidos para justificar suas tarifas. Não se sabe se Trump ganhará o desejado Nobel da Paz pelos esforços de negociação no Oriente Médio, o que se sabe é que ele já faz merece um doutor honoris causa da Unicamp pelas suas teses econômicas.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos
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