Julho começou e terminou com ordenações de bispos sem mandato papal. (Foto: Imagem criada utilizando Google Flow/Gazeta do Povo)
Ouça este conteúdo
Julho de 2026 começa e termina com ordenações episcopais sem autorização papal – atos cismáticos que levam à excomunhão automática dos que ordenam e dos que são ordenados. No dia 1.º, foi a Fraternidade Sacerdotal São Pio X (SSPX); no último sábado, dia 25, foi a congregação dos Filhos do Santíssimo Redentor, popularmente conhecidos como Redentoristas Transalpinos (apesar do nome, eles não têm ligação com os redentoristas, a congregação fundada por Santo Afonso Maria de Ligório): seu superior, padre Michael Mary Sim, foi ordenado bispo no mosteiro localizado em uma ilha na Escócia. No mesmo dia, o bispo de Aberdeen anunciou a excomunhão.
Há uma diferença importante entre o caso da SSPX e dos Redentoristas Transalpinos: enquanto os tradicionalistas radicais com sede na Suíça aceitam (ao menos nominalmente, porque na prática a coisa é diferente) a autoridade do papa Leão XIV e de seus antecessores, os tradicionalistas radicais sediados na Escócia abraçaram de vez o sedevacantismo em maio de 2026, por meio de uma declaração na qual consideravam “pretendentes papais” todos os pontífices desde São João XXIII. Os três bispos que ordenaram o padre Michael Mary – o canadense Pierre Roy, o brasileiro Rodrigo Ribeiro da Silva e o espanhol Fernando Altamira Alaníz – também são sedevacantistas.
Mas essas histórias estão interligadas: todos os envolvidos na ordenação de 25 de julho têm algo que os conecta à SSPX. Rodrigo Ribeiro foi ordenado padre pelo bispo Richard Williamson – um dos quatro bispos ordenados sem autorização papal por Marcel Lefebvre e Antônio de Castro Mayer em 1988 –, quando este já tinha deixado a SSPX para fundar uma dissidência ainda mais radical (embora não sedevacantista). Tanto Roy quanto Altamira foram ordenados bispos por Rodrigo, mas ambos tinham sido padres da SSPX antes disso. Quando o então padre Rodrigo virou sedevacantista, rompeu com o grupo de Williamson, mas quem o ordenou ao episcopado foi um norte-americano que, adivinhem só?, também tinha sido da SSPX. A linhagem de sucessão apostólica de Rodrigo Ribeiro o liga ao arcebispo vietnamita Pierre Martin Ngô Ðình Thục, que também foi sedevacantista por algum tempo, mas se reconciliou e morreu em 1984, em comunhão com Roma.
Os Redentoristas Transalpinos bem que podem virar para os padres e bispos da SSPX e dizer “nós somos vocês amanhã”
Existe uma falácia chamada de “plano inclinado” ou “ladeira escorregadia”, que consiste em afirmar que uma coisa levará a outra, e a outra, e a outra, sem que de fato haja uma probabilidade consistente de relação causal. Mas, quando dizemos que a rebeldia da SSPX, que consiste em uma espécie de “sedevacantismo prático” (reconhece-se o papa, mas ele é costumeiramente desobedecido), é uma porta de entrada para o sedevacantismo real, não podemos ser acusados da falácia da “ladeira escorregadia”, porque temos não um, nem dois, mas muito exemplos que o demonstram. A má vontade (estou sendo bonzinho) em relação aos documentos do Vaticano II e à missa de São Paulo VI, e o ambiente de relativização da autoridade papal criam o caldo que leva os mais exaltados a abraçar de vez a ideia de que Deus vem desamparando sua Igreja nas últimas sete décadas.
E, quando essas pessoas têm o poder episcopal, o estrago é muito maior. Thục ordenou ao menos seis bispos sedevacantistas (um deles acabaria se declarando papa em 1978); Williamson ordenou outros seis bispos sem mandato papal. E esses bispos vão ordenando outros, e assim sucessivamente. Todos são verdadeiros bispos, porque as ordenações são válidas, embora ilícitas – uma distinção que já expliquei aqui algumas vezes. E são poucos os casos dos que se reconciliam com a Igreja, como aconteceu com Thục e o brasileiro dom Licínio Rangel, ordenado sem mandato papal em 1991; o normal é que eles permaneçam na revolta contra a autoridade petrina – ou acabem reincidentes no cisma, como Bernard Fellay e Alfonso de Galarreta, da SSPX, excomungados quando foram ordenados em 1988, aceitos de volta por decisão unilateral de Bento XVI em 2009, e novamente excomungados no dia 1.º.
Os Redentoristas Transalpinos bem que podem virar para os padres e bispos da SSPX e dizer “nós somos vocês amanhã”. Quer dizer que todo membro da SSPX vai virar sedevacantista? Nem de longe; mas os que ficarem e abraçarem a rebeldia demonstrada no dia 1.º, uma vez separados da Igreja Católica, correm, sim, o risco de irem se radicalizando mais e mais. Que Deus os ajude a recuperar o bom senso, e que ilumine os bispos para que deixem as portas abertas aos sacerdotes e fiéis da SSPX, de forma que eles possam se integrar às dioceses sem solavancos.
VEJA TAMBÉM:
Time dos Países Baixos homenageará Santa Rosa de Lima em camisa
Segunda camisa do Fortuna Sittard, time dos Países Baixos, homenageia Santa Rosa de Lima, padroeira da cidade de Sittard; fonte de letras e números é inspirada em capela dedicada à santa. (Foto: Tobias Giesen/Fortuna Sittard)
Imagem de Santa Rosa de Lima aparece perto da gola em camisa do Fortuna Sittard. (Foto: Tobias Giesen/Fortuna Sittard)
A Copa do Mundo terminou (suspiro) e os times europeus estão na pré-temporada, antes do início dos campeonatos mundiais. É o momento em que vários deles lançam uniformes novos. O Fortuna Sittard, da Eredivisie (a primeira divisão dos Países Baixos), resolveu homenagear Santa Rosa de Lima em sua segunda camisa, toda em um tom escuro de vermelho (as cores tradicionais do time são amarelo e verde), como o das rosas – cujo formato compõe a marca d’água do uniforme. Mas, antes que você considere essa homenagem mais aleatória que um rolê do Ronaldinho Gaúcho, explico que a referência tem tudo a ver com a cidade de Sittard.
Santa Rosa de Lima é a padroeira da cidade – mas como uma santa peruana passou a ser venerada em um município dos Países Baixos, espremido entre Alemanha e Bélgica, e que ainda por cima tem um santo para chamar de seu (o passionista São Carlos do Monte Argus, nascido na vila vizinha de Munstergeleen)? A resposta está na epidemia de disenteria que atacou Sittard com força no ano de 1669. Os dominicanos que mantinham uma escola na cidade também faziam trabalho missionário no Peru e conheciam a história de Rosa, beatificada em 1667; eles incentivaram a população da cidade a pedir sua intercessão e prometeram fazer dela a padroeira da cidade, erguer uma capela em sua honra no ponto mais alto de Sittard, e realizar uma procissão todos os anos. A epidemia cessou subitamente e os moradores cumpriram a promessa – a procissão ocorre sempre no último domingo de agosto. A fonte usada nos nomes e números dos jogadores também é inspirada na arquitetura da capela, construída no alto do Kollenberg.
Minha torcida é do PSV, mas espero que nesta temporada o Fortuna – que acumula posições intermediárias na tabela desde que subiu para o “Holandesão” – tenha um bom campeonato, quem sabe até abocanhando uma vaguinha em alguma competição da Uefa.
Encontrou algo errado na matéria?
Comunique erros
Use este espaço apenas para a comunicação de erros


