“Queixei-me de baratas” – afamado excerto de Clarice Lispector, que denota uma nostalgia em relação à vida – bem se aplica à vicissitude (pós)-moderna de um mundo maculado pela prostração diante de um ócio interior, capaz de sobrecarregar a alma com vários “nadas”.
A metáfora de que Clarice Lispector lança mão traduz o desejo íntimo de sentido, à medida que dialoga com a severidade efêmera da existência, de modo a transbordar o marasmo do dia a dia caótico em que a sociedade hodierna naufraga.
Nisso reside parte da eterna angústia humana na busca pelo sentido da vida, ao mergulhar nas águas profundas da dor, em constante batalha contra o tédio que alimenta a rotina de um universo saturado de ansiedade.
O desejo pelo descobrimento da “razão de ser” evoca as multifacetadas vertentes do pensamento teórico e empírico, levando o homem a imergir em si mesmo, na epopeia da metalinguagem da vida. É aqui que a humanidade evidencia suas fragilidades e vulnerabilidade diante do enigma da existência.
Nesse momento, somente a insígnia da esperança poderá suscitar a cura para a alma enferma e incapaz de ser feliz.
Mas esperança é um termo abstrato, que muitas vezes se esconde atrás de falsas crenças que impedem o ser humano de enxergar o mundo. Desse modo, somente a (re)interpretação da vida será capaz de conduzir à felicidade, a mais “desejada das gentes”, como descreveria Manuel Bandeira em seus poemas.
No entanto, esperar pela esperança é mover-se em direção à felicidade; é construir elos entre razão e emoção, em perfeita simbiose e cadência no ritmo da vida.
No vernáculo filosófico, a esperança não é apenas um desejo ingênuo, mas uma postura ativa de abertura ao futuro, voltada à possibilidade de mudança e de construção de sentido, mesmo diante das intempéries da vida. Não se trata de mero otimismo, mas de um compromisso contra a paralisia provocada pelo desespero e pelo medo.
Esperançar é abdicar da mera espera passiva e enfrentar os desafios do presente. Mais do que isso, é assumir para si o compromisso permanente com a evolução da própria vida
Destarte, o eminente filósofo Ernst Bloch, em sua obra O Princípio da Esperança, propõe que a esperança é a passagem do “não” para o “ainda não”, indicando que aquilo que falta no presente representa uma possibilidade de realização futura, capaz de transformar a realidade. Assim, a esperança pode ser compreendida como um pensamento de natureza ontológica.
Para Thomas Hobbes, a esperança é o desejo acompanhado da crença de que um resultado positivo é possível, diferenciando-se do medo, que corresponde ao desejo acompanhado de uma expectativa negativa.
A filósofa Hannah Arendt atribui um sentido distinto à esperança, compreendendo-a não como virtude, mas como um sentimento que pode criar uma armadilha: algo que nos distrai do presente e enfraquece nossa capacidade de agir. Essa interpretação decorre de uma compreensão meramente teórica da esperança, na qual a inação resulta da incapacidade de construir, no presente, uma imagem promissora do futuro.
Nesse contexto, Arendt, já na década de 1930, alertava para os perigos de simplesmente esperar pela esperança, numa inação voluntária que paralisa e impede o ser humano de construir os caminhos da mudança e da transformação. Durante a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, houve quem se resignasse ao nazismo, aguardando ingenuamente que as mazelas do mundo fossem superadas naturalmente.
Como exemplo de sua concepção, Arendt citava os campos de concentração nazistas, nos quais a esperança era utilizada como instrumento para manter os prisioneiros obedientes. Alimentar ilusões de sobrevivência tornava-se uma poderosa arma contra qualquer tentativa de libertação.
A filósofa também fazia referência ao escritor Tadeusz Borowski, sobrevivente de Auschwitz, autor da frase: “Nunca nos ensinaram a desistir da esperança, e é por isso que hoje perecemos nas câmaras de gás”.
O perigo da passividade no presente, alimentada pela expectativa de uma esperança futura, aprisiona a alma no engano e fortalece o medo e a melancolia. Nesse ponto, evidencia-se a necessidade de recorrer ao verbo “esperançar”, neologismo que inspira a sociedade a romper os laços que unem medo e desesperança, passividade e omissão.
A teologia, por sua vez, atribui à esperança um papel ativo na luta contra a corrosão do caráter humano e na construção de uma sociedade em que o bem não se dá por vencido, mas combate o mal por meio da força do amor e dos ensinamentos das Sagradas Escrituras.
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Nesse ínterim, o renomado teólogo alemão Dietrich Bonhoeffer destacou-se, em sua época, pelo combate ao regime nazista, defendendo uma concepção de esperança essencialmente ativa, vivida no presente, sem permitir que a razão fosse iludida pela apatia decorrente da crença de que o futuro se constrói pelo acaso.
Da mesma forma, nas páginas da Bíblia Sagrada, a esperança rompe com a lógica da passividade e da omissão ao oferecer à humanidade a possibilidade de construir o futuro por meio da transformação do presente. Isso decorre da convicção de que as causas últimas da vida são verdadeiramente favoráveis e capazes de produzir bem-estar, alegria e plenitude.
O profeta Jeremias, em seu livro, escreve: “Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês, diz o Senhor, planos de fazê-los prosperar e não de lhes causar dano, planos de lhes dar esperança e um futuro”. O texto revela a promessa divina de um futuro promissor para a humanidade.
O autor da Carta aos Hebreus, no capítulo 6, versículo 19, descreve a esperança cristã como “âncora da alma, segura e firme”. Essa metáfora indica que a fé em Jesus sustenta a alma e confere ao homem o verdadeiro sentido da vida e do porvir. Também no Novo Testamento, o apóstolo Paulo afirma: “Todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus”.
Assim, a teologia bíblica reconhece a fé em Deus como fundamento da esperança, sem a qual o ser humano estaria à deriva, incapaz até mesmo de orientar o próprio caminho.
Tanto a filosofia quanto a teologia convergem para uma compreensão ampla da esperança como algo que se constrói pelo movimento, pela coragem e pelo irromper da alma na transformação do presente, tendo como horizonte a conquista da bem-aventurança por meio do conhecimento de si mesmo e da fé no Transcendente.
“Esperançar” é, portanto, abdicar da mera espera passiva e enfrentar os desafios do presente. Mais do que isso, é assumir para si o compromisso permanente com a evolução da própria vida, impedindo que os dias se tornem omissos diante da busca pela verdadeira felicidade.
Edgar Talevi de Oliveira é licenciado em Letras, bacharel em Teologia e mestre em Teologia.


