Muita coisa pode mudar em alguns séculos, mas a essência do ser humano permanece a mesma. (Foto: Imagem criada utilizando Google Flow/Gazeta do Povo)
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Toda época gosta de acreditar que é inédita! Basta acompanhar o debate público para logo identificar, às vezes subentendida, a convicção de que vivemos desafios absolutamente novos, diante dos quais as gerações passadas teriam pouco ou nada a ensinar. E isso é verdade? A velocidade da tecnologia, o advento da inteligência artificial, as transformações culturais – as orgânicas e as forjadas pelos projetos financiados –, a avalanche de informações e a constante redefinição de valores… Tudo isso parece reforçar aquela impressão.
Há, sem dúvida, elementos realmente novos em cada período histórico. Mudam as circunstâncias, os costumes, as prioridades e até mesmo a linguagem com que descrevemos nossos problemas. No entanto, há um grande risco nessa percepção, o risco de assumirmos, não uma ideia, mas uma crença, que se infiltra na nossa mentalidade como a água numa casa velha… Qual? O de imaginar que a natureza humana também muda na mesma velocidade. E ela não muda.
Ora, as grandes questões, as fundamentais, continuam surpreendentemente semelhantes. O homem ainda precisa aprender a distinguir o verdadeiro do falso, o essencial do acessório, o bem do mal. Continua enfrentando o orgulho, a vaidade, o medo, a injustiça, a ambição desmedida e a tentação de seguir a multidão, apenas porque ela parece estar do lado vencedor. Talvez por isso uma das formas mais discretas de arrogância seja, justamente, acreditar que nossa geração está dispensada da experiência acumulada ao longo dos séculos. Quando se supõe que tudo o que veio antes ficou automaticamente ultrapassado, perde-se exatamente aquilo que o tempo oferece de mais precioso: a capacidade de separar aquilo que é permanente, do que é passageiro.
As grandes questões, as fundamentais, continuam surpreendentemente semelhantes. O homem ainda precisa aprender a distinguir o verdadeiro do falso, o essencial do acessório, o bem do mal
Existe ainda outra confusão difundida – ainda menos fácil de identificar, ou, melhor dizendo, de assumir. A gente, mesmo quando vive por ela, prefere negar. Podemos até ser mentalmente conservadores, mas, sem cuidado, com o passar do tempo e a força da opinião alheia… bem, costuma-se identificar o que é amplamente aceito com aquilo que é verdadeiro. Como se uma ideia, apenas por dominar o ambiente cultural de determinada época, adquirisse automaticamente legitimidade. Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. Mas a popularidade jamais foi critério suficiente de verdade. A história está repleta de consensos que hoje sabemos serem equívocos evidentes.
Cada época possui seus pontos cegos. Do ponto de visto da conduta humana e da personalidade, certas virtudes recebem enorme destaque; outras quase desaparecem do horizonte. Algumas qualidades passam a ser celebradas enquanto outras são consideradas antiquadas. O problema começa quando se conclui que aquilo que está em evidência representa toda a vida moral. É comum, por exemplo, transformar determinadas qualidades em substitutos da própria virtude. A eficiência, a produtividade, a coragem, a autonomia, a autenticidade ou o sucesso profissional podem ser bens importantes. Mas nenhuma delas, isoladamente, basta para formar um bom caráter.
O mesmo ocorre quando elevamos uma única virtude moral ao posto de critério absoluto. A generosidade sem prudência pode tornar-se ingenuidade. A coragem sem justiça degenera em violência. A sinceridade sem delicadeza converte-se em grosseria, e assim sucessivamente: toda força, isolada numa direção, degenera em seu excesso, sem equilíbrio. Aristóteles lembrava que a virtude está no meio, no equilíbrio de duas forças, assim como Santo Agostinho dizia que as virtudes são feitas da mesma matéria que os vícios. Ora, as virtudes não competem entre si; elas se completam.
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Essa percepção talvez seja especialmente necessária em nosso tempo (marcado na face pela tendência de simplificar questões complexas). Vivemos cercados por discursos que oferecem uma única chave para explicar todos os problemas: basta ser autêntico; basta ser eficiente; basta ser livre; basta ser inclusivo; basta ser resiliente (sim; falei do assunto recentemente, mas ele é apenas um elemento em jogo, e não a solução para todos os problemas).
Estamos carentes de uma visão mais ampla da formação humana. O desafio consiste justamente em resistir à tentação das modas intelectuais. Isso não significa rejeitar tudo o que é novo. Ao contrário, significa avaliar cada novidade pelo seu conteúdo, e não apenas pelo entusiasmo que desperta. Há avanços que merecem ser acolhidos; outros apenas repetem velhos erros com linguagem moderna. Em vez de perguntar quais são as “virtudes da moda”, talvez devêssemos perguntar quais virtudes continuam indispensáveis, independentemente da moda. Honestidade, justiça, coragem, humildade, prudência, generosidade e fortaleza nunca deixaram de ser necessárias. Mudam as circunstâncias em que são exercidas; não muda a sua importância.
É justamente por isso que a verdadeira educação moral não acompanha simplesmente o espírito do tempo. Ela procura formar pessoas capazes de dialogar com sua época sem se tornarem reféns dela. Quem vive apenas seguindo a corrente dificilmente consegue perceber para onde ela está levando… Por isso, viver apenas de acordo com o espírito do tempo é abrir mão de um dos maiores atributos humanos: a capacidade de julgar por si mesmo. Não no sentido de julgar tudo conforme ao seu próprio gosto, ignorando a tradição e o bom conselho. Não; levando em conta a orientação e a sabedoria do passado, mas assumindo-a no presente ainda que contra a opinião dominante. Esse gesto é seriíssimo, e de uma autonomia radical. Em vez de simplesmente seguir a corrente, somos chamados a confrontar as tendências do presente com princípios mais permanentes, capazes de sobreviver às mudanças de moda, de linguagem e de costumes.
Em vez de perguntar quais são as “virtudes da moda”, talvez devêssemos perguntar quais virtudes continuam indispensáveis, independentemente da moda
Ora, essa tendência a imaginar que as virtudes também mudam conforme a época, como se determinadas qualidades fossem indispensáveis em um século, mas dispensáveis no seguinte, nasce, em parte, da confusão entre as virtudes propriamente ditas e características de personalidade ou com qualidades úteis em determinados contextos. Eficiência, liderança, disciplina, capacidade de organização, criatividade: todas são qualidades importantes. Mas nem sempre pertencem ao mesmo plano da honestidade, da justiça, da humildade ou da fidelidade. Há competências que variam conforme a profissão, a cultura ou o momento histórico; já as virtudes morais respondem a exigências muito mais permanentes.
Talvez seja justamente essa confusão uma das marcas do nosso tempo. Admiramos pessoas extremamente competentes e passamos a atribuir-lhes automaticamente uma superioridade moral. O sucesso, a produtividade ou a influência acabam ocupando o lugar do caráter. Abundam as biografias dos CEOs bem-sucedidos, dos empresários que dominaram o mercado, dos que criaram novas tecnologias, dos que venderam mais best-sellers. O problema é que nem competência nem sucesso são sinônimos de virtude.
Uma sociedade pode valorizar intensamente a eficiência e, ao mesmo tempo, descuidar da honestidade. Pode celebrar a ousadia enquanto negligencia a prudência. Pode exaltar a autenticidade e esquecer a responsabilidade. Quando isso acontece, certas qualidades deixam de ocupar o lugar que lhes corresponde e passam a substituir aquilo que deveria orientar toda a vida moral. As virtudes autênticas, porém, não funcionam como peças intercambiáveis. Não escolhemos uma ou outra conforme nossa preferência pessoal. Não faz sentido alguém dizer: “procuro ser justo, mas a sinceridade não é meu forte”, ou “sou leal, mas a humildade não faz o meu tipo”. O ideal ético não consiste em “especializar-se” numa única virtude, mas em permitir que todas cresçam harmonicamente. Pela natureza do nosso temperamento, temos mais facilidade ou dificuldade para uma ou outra coisa, mas a formação do caráter é justamente a busca do equilíbrio do quadro.
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É verdade que algumas delas parecem difíceis de conciliar. Como unir firmeza e mansidão? Como ser ao mesmo tempo humilde e corajoso? Como exercer autoridade sem autoritarismo? No entanto, as grandes personalidades da história mostram justamente que essas aparentes tensões podem ser integradas. A verdadeira maturidade não elimina um polo para preservar o outro; aprende a equilibrá-los. As modas passam. As virtudes permanecem. E é justamente por isso que vale a pena voltar continuamente a elas: não como relíquias de um passado distante, mas como referências capazes de orientar qualquer época – inclusive a nossa.
As virtudes morais dizem respeito ao modo como usamos nossa liberdade. Justiça, honestidade, fidelidade, generosidade, coragem, humildade: nenhuma delas é um simples traço de personalidade ou uma habilidade técnica. São escolhas reiteradas, pelas quais nos tornamos responsáveis. Talvez por isso elas despertem um tipo de reação que nenhuma outra qualidade produz. Quando alguém revela grande inteligência, admiramos seu talento. Quando alguém pratica uma injustiça, porém, sentimos que aconteceu algo muito mais profundo. Há uma gravidade especial nas questões morais, porque elas atingem aquilo que a pessoa escolheu ser.
É por isso que ninguém sente culpa por não ter nascido um grande músico ou um excelente atleta! Podemos até ficar tristes, desejando ser essas coisas, mas é mais fácil bradarmos contra o Céu ou contra o destino do que nos sentirmos, nós, culpados disso. Entretanto, sentimos culpa quando percebemos que fomos injustos, covardes ou desleais. Existe uma diferença intuitiva entre fracassar por falta de capacidade e fracassar por falta de caráter.
Quando deixamos de distinguir competência de virtude, começamos a admirar pessoas bem-sucedidas sem perguntar se elas também são boas
Também é um erro imaginar que os princípios morais – que são as balizas ou o gabarito das virtudes, com relação aos quais as julgamos – mudam conforme as épocas. Não: o que muda é nossa sensibilidade para percebê-los. É que cada geração ou mesmo cada civilização, por causa de fatores vários, tende a enxergar alguns aspectos da realidade com mais clareza do que outras. Hoje, por exemplo, valorizamos muito mais a dignidade de cada pessoa do que sociedades antigas, que frequentemente aceitavam formas de discriminação ou violência hoje consideradas intoleráveis. Em compensação, talvez estejamos perdendo a percepção de outras virtudes igualmente essenciais, como a reverência, o autocontrole, a responsabilidade ou a disposição para o sacrifício. Os pontos cegos mudam; a verdade moral, o “gabarito” das virtudes, não.
E hoje, não apenas deixamos de praticar certas virtudes, mas começamos a desconfiar da própria ideia de virtude. Toda linguagem moral passa a soar excessivamente rígida, como se falar em certo e errado fosse sempre uma forma de intolerância. E é compreensível que isso aconteça quando a moral é reduzida a moralismo, legalismo ou julgamento permanente dos outros. Mas rejeitar esses desvios não exige abandonar a própria ética. Pelo contrário: exige recuperá-la em sua forma mais autêntica. Por isso me parece que, nessa discussão, hoje em dia, seja urgente esclarecer que a moral antiga – a saber, a moral cristã, mais especificamente a tradição moral católica, que está na constituição da nossa civilização, queira-se ou não – não é, de modo algum, a moral burguesa, essa caricatura de moral religiosa que cresceu como um parasita na nossa cultura, nos últimos dois séculos. Ela é falsa, é a religião ou a moral do Tartufo. Autores como Léon Bloy merecem ainda ser lidos porque tratavam de maneira furiosa essa cultura burguesa, que tentava adaptar a religião aos gostos e modas sociais. A vida moral não consiste apenas em cumprir deveres, mas numa transformação interior. Virtudes como a humildade, a capacidade de reconhecer os próprios erros, o perdão e o amor ao próximo não anulam a justiça nem a verdade; antes, dão-lhes uma profundidade que dificilmente seria alcançada apenas pela força da razão ou pelo cumprimento de regras.
Tenhamos claro o que nos ensina a história: Uma sociedade pode sobreviver por algum tempo com menos eficiência, menos riqueza ou menos tecnologia. O que ela dificilmente suporta é a erosão silenciosa do caráter. Quando deixamos de distinguir competência de virtude, começamos a admirar pessoas bem-sucedidas sem perguntar se elas também são boas. A crise contemporânea das virtudes não decorre apenas da dificuldade em praticá-las. Antes, nasce de uma dificuldade ainda mais profunda: a de compreender o que elas realmente são. Toda geração é tentada a imaginar que seus valores são a medida definitiva da realidade. Talvez seja mais prudente inverter a pergunta. Em vez de exigir que as virtudes se justifiquem diante do espírito do tempo, vale perguntar qual será o veredito quando o espírito deste tempo for julgado à luz das virtudes permanentes.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos
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