O futuro do país poderá ser decidido não apenas por um embate entre direita e esquerda, bolsonaristas e lulistas, Norte e Sul, ou algo do gênero, mas por uma luta frequentemente ignorada por todos: a inteligência contra a estupidez. Essa ideia está numa obra de Carlo Cipolla (1922-2000), economista e historiador italiano que se tornou professor em Berkeley, nos EUA. Em 1976, ele escreveu um pequeno e delicioso livro chamado As Leis Básicas da Estupidez Humana, inicialmente distribuído apenas entre seus amigos.
A genialidade de Cipolla começa com sua definição cirúrgica de uma pessoa estúpida: “é aquela que consegue gerar dano ou desperdiçar o tempo de outra pessoa sem resultar em vantagem para ninguém, nem mesmo para ela própria”. Além disso, ele fez uma análise cartesiana entre os principais comportamentos básicos do ser humano: o inteligente, o bandido, o ingênuo e o estúpido.
O inteligente consegue ter uma ação que resulta em vantagem para si e para os outros. O bandido tira vantagem para si com prejuízo de terceiros. O ingênuo não gera vantagem nem prejuízo para si nem para os outros. Já o estúpido tem uma ação que resulta em prejuízo para os outros e, frequentemente, para si mesmo.
As cinco leis de Carlo Cipolla definem a estupidez como uma força poderosa e organizada que molda a história humana muito mais do que imaginamos. A Primeira Lei afirma que todos subestimam o número de indivíduos estúpidos em circulação. Não importa quantos você imagine, o número real é sempre maior.
A Segunda Lei estabelece que a probabilidade de uma determinada pessoa ser estúpida não depende de nenhuma outra característica dessa pessoa. A estupidez é um comportamento distribuído por todas as classes sociais, níveis de escolaridade e profissões.
A Terceira Lei (A Lei de Ouro) define que uma pessoa estúpida é aquela que causa prejuízos a outra pessoa ou a um grupo de pessoas sem obter qualquer ganho para si mesma ou até mesmo sofrendo prejuízos.
Cipolla disse que uma sociedade pode até sobreviver e crescer apesar de seus bandidos e ingênuos. No entanto, uma sociedade entra em colapso quando sua população de estúpidos se torna excessivamente ativa, pois eles destroem consistentemente a riqueza e o bem-estar
A Quarta Lei diz que pessoas não estúpidas sempre subestimam o poder destrutivo dos indivíduos estúpidos. Pessoas sensatas esquecem constantemente que lidar ou se associar a indivíduos estúpidos sempre acaba sendo um erro custoso. A Quinta Lei conclui que uma pessoa estúpida é o tipo mais perigoso de pessoa. Consequentemente, uma pessoa estúpida é mais perigosa do que um bandido.
A obra alcançou o status de clássico cult graças à sua combinação de análise econômica séria com um humor espirituoso e satírico. Mas o que tudo isso tem a ver com a nossa realidade em um ano de eleição? Tudo.
Segundo Cipolla, a estupidez coletiva tem sido mais prejudicial na história da humanidade do que a bandidagem individual de ditadores e políticos corruptos.
Não sei quantos políticos corruptos e mal-intencionados há no Brasil. Mas sei que, neste momento, o nível de confiança nos políticos e partidos políticos por parte da população brasileira é historicamente baixo. Há uma minoria de políticos sérios que representa nossa inteligência e merece confiança. Mas pesquisas recentes da AtlasIntel, Datafolha, Latinobarómetro, Quaest/CNN e Real Time Big Data indicam que há pelo menos 65% de desconfiança em relação aos partidos políticos e ao Congresso Nacional.
Se há 65% de desconfiança, isso quer dizer que 35% confiam nos políticos? Claro que não. Apesar de ser minoria, isso representa 54 milhões de pessoas, um número considerável. É uma situação absurda: por um lado, 65% da população sabe que não pode confiar em políticos. Por outro, vemos que muitos políticos carreiristas continuam se elegendo indefinidamente, apesar de extensas acusações e provas de corrupção. Por que isso acontece? Porque, mesmo sabendo que muitos políticos não prestam, um grande grupo de eleitores se beneficia deles. Há, pelo menos, três categorias assim:
Os cúmplices: políticos, seus amigos e parentes, juízes, desembargadores, procuradores, promotores, auditores fiscais, funcionários públicos que recebem penduricalhos muito acima do teto, donos de cartórios, servidores com polpudos cargos em comissão, milionários que sempre estão bem, banqueiros e empresários amigos de políticos, websites, influencers e publicitários que receberam dinheiro do Estado, gente rica que se acha moralmente correta e pensa que vai promover “justiça social” votando na esquerda (socialismo champagne). Cipolla veria em muitos dos bandidos ou estúpidos.
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Os ideológicos: gente pobre e de classe média que também acha que vai melhorar de vida ou promover “justiça social” votando na esquerda, por analfabetismo político ou cegueira ideológica. Não enxergam que, depois de décadas, governos de esquerda não melhoraram a vida do pobre. Segundo Cipolla, muitos desses ideológicos são ingênuos ou estúpidos.
Os egoístas: a ciência política oferece várias teorias para explicar eleitores que trocam integridade política por benefícios materiais. O clientelismo, o populismo e a Teoria da Escolha Racional mostram que muitos eleitores trocam a ética por vantagens pessoais, como uma dentadura ou pagamentos mensais, como o Bolsa Família e outros “benefícios sociais” que não incentivam o trabalho. Segundo Cipolla, muitos desses são ingênuos, bandidos ou estúpidos.
Entendam: não estou criticando intenções, mas resultados. Critico os governos que não incentivam o trabalho e a produção. Funcionários públicos foram transformados em elite econômica, e a massa de trabalhadores, em um exército de eleitores gratos por receber uma esmola mensal. Indicadores socioeconômicos mostram que o Brasil não vai bem.
Acredito que boa parte desses 54 milhões de brasileiros que ainda prefere apoiar políticos nocivos ao país faz parte do grupo dos estúpidos, mas suspeito que o número seja bem maior. Segundo Cipolla, as pessoas estúpidas criam um cenário de perda para todos. Elas causam danos a outras pessoas sem obter qualquer vantagem, muitas vezes prejudicando a si mesmas no processo.
Há, no Brasil, considerável impunidade para bandidos. Por outro lado, há a máxima bíblica que atravessa os séculos: o que ganha um homem que conquista o mundo, mas perde a sua alma? Por exemplo, penso que o ex-banqueiro Vorcaro, os abutres do INSS e muitos outros trocariam agora parte de sua fortuna por um pouco de paz. Mas também penso nas milhares de pessoas de boa-fé lesadas por eles. Espero que a justiça prevaleça. Como dizia minha avó: aqui se faz, aqui se paga.
O assunto é muito sério. Em outubro, cerca de 154 milhões de eleitores vão decidir se o Brasil continuará a descer ladeira abaixo ou se haverá uma mudança de rumo na política nacional. Sei que boa parte daqueles que Cipolla chamaria de estúpidos vai discordar de mim. E vai tentar impedir qualquer mudança. Mas espero que a inteligência vença.
Cipolla disse que uma sociedade pode até sobreviver e crescer apesar de seus bandidos e ingênuos. No entanto, uma sociedade entra em colapso quando sua população de estúpidos se torna excessivamente ativa, pois eles destroem consistentemente a riqueza e o bem-estar, sem criar nada de novo. Parece um país que a gente conhece?
Jonas Rabinovitch é arquiteto urbanista com 30 anos de experiência como conselheiro sênior em Inovação, Gestão Pública e Desenvolvimento Urbano da ONU em Nova York.


