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Passividade, críticas e choque de interesses do governo Lula contribuíram para o tarifaço

Falhas na condução da política externa do governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) contribuíram para a sucessão de novas tarifas anunciadas pelos Estados Unidos contra produtos brasileiros. Segundo analistas ouvidos pela Gazeta do Povo, os argumentos técnicos apresentados por Washington pesaram menos que os aspectos políticos.

Três fatores explicam o agravamento da relação bilateral: o desgaste político entre Lula e o presidente Donald Trump, o choque de interesses estratégicos entre Brasília e Washington e a falta de uma estratégia comercial brasileira de longo prazo para reduzir a dependência de mercados tradicionais.

Após a sobretaxa de 25% anunciada por Washington na quarta-feira (22), o governo Donald Trump aplicou na quinta-feira (23) uma onda de tarifas para 41 países que atingiu os produtos brasileiros com mais 12,5% de tributos. Dessa vez a justificativa foi a falta de ações de combate ao uso de trabalho forçado no desenvolvimento de mercadorias.

“Brasília respondeu com passividade técnica e retórica inflamada para consumo interno. O Planalto preferiu a inércia para explorar o desgaste eleitoralmente”, avalia Márcio Coimbra, cientista político e mestre em Ação Política, CEO da Casa Política e presidente-executivo do Instituto Monitor da Democracia.   

O governo brasileiro, no entanto, afirma que buscou negociar com os Estados Unidos e atribui as tarifas a uma decisão de natureza predominantemente política. 

As tarifas foram aplicadas após uma investigação de um ano do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) conduzida com base na Seção 301 da Lei de Comércio americana. Elas apontam principalmente práticas brasileiras que são consideradas concorrência desleal com empresas americanas, onde produtores brasileiros são beneficiados direta ou indiretamente por ações do governo.

Alguns exemplos disso são o Brasil exportar madeira e produtos agrícolas de áreas desmatadas ou regiões com “padrões ambientais baixos”, não combater a pirataria e criar um meio de pagamento (PIX) que, por ser controlado pelo Estado, concorre de forma alegadamente desleal com empresas privadas americanas.

Embora analistas ressaltem que as decisões comerciais dos Estados Unidos decorrem principalmente de avaliações econômicas e estratégicas, o histórico de embates públicos é citado como um fator que dificulta a interlocução política em momentos de crise.

O advogado e consultor Antonio Fernando Pinheiro Pedro acrescenta que o ambiente institucional brasileiro também passou a influenciar a percepção de Washington. 

“Há ainda um tempero tóxico na salada diplomática: o descontrole institucional do judiciário brasileiro, que levou à perseguição completamente ilegal a empresas americanas, sob puro pretexto político e esquerdismo ideológico”, aponta o consultor.

A referência diz respeito às críticas formuladas por integrantes do governo americano e por empresas de tecnologia a decisões do Supremo Tribunal Federal (STF) relacionadas à moderação de conteúdo e ao cumprimento de ordens judiciais por plataformas digitais. O tema, inclusive, aparece entre os pontos abordados pelo USTR em sua investigação comercial. 

“Todas essas questões poderiam ter sido tratadas com diplomacia técnica e negociação profissional – além de impulsionar a volta à normalidade democrática no estado brasileiro. Porém não foram”, avalia Pinheiro Pedro.

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Críticas entre Lula e Trump acirram desgaste da relação bilateral 

A deterioração do ambiente político entre os dois governos é um dos elementos apontados como relevantes no contexto das tarifas. Levantamento do Poder360 mostra que Lula fez ao menos 62 críticas públicas a Trump desde o início de seu terceiro mandato, em 2023. No mesmo período, Trump mencionou o presidente brasileiro menos de 20 vezes, em sua maioria em declarações de tom positivo. 

Embora esse histórico não estabeleça, por si só, uma relação de causa e efeito com a decisão americana, o ambiente político influencia a capacidade de interlocução entre governos em negociações de alta sensibilidade. 

A avaliação de que a condução da política externa contribuiu para o agravamento da crise também foi manifestada pela Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).  

Em nota divulgada após a confirmação do tarifaço de 25%, a entidade afirmou que “a opção do governo brasileiro por ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington acabou por minar vínculos construídos ao longo de mais de 200 anos de cooperação bilateral”.  

A federação acrescentou que a retaliação comercial “poderia ter sido evitada com uma condução técnica e pragmática”, posição que, segundo a entidade, foi defendida durante audiências realizadas nos Estados Unidos ao longo do último ano.

O anúncio de uma nova tarifa depois da entrada em vigor da primeira sobretaxa reforçou a percepção, entre representantes do setor produtivo, de que a crise comercial ainda está longe de ser encerrada e tende a ampliar a insegurança para exportadores brasileiros.

Logo após a formalização do tarifaço, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, atribuiu diretamente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva a responsabilidade pelo fracasso das negociações. Segundo Rubio, o governo brasileiro “não negociou com os EUA de boa-fé” e o petista “colocou seu próprio ego à frente de fechar um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro”, razão pela qual as tarifas seriam “o preço por isso”.  

A declaração reforçou a interpretação de analistas de que o conflito extrapolou o campo comercial e passou a refletir o desgaste político entre Brasília e Washington. 

Governo Lula não atuou para conter choque de interesses entre Brasil e EUA 

O governo Lula adotou prioridades distintas das esperadas por Washington. Desde o início do mandato, o presidente reforçou a aproximação com os BRICS (bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul,

O resultado foi um choque de interesses entre as prioridades estratégicas de Brasília e as da Casa Branca. Outros parceiros comerciais dos Estados Unidos procuraram enfatizar a cooperação bilateral durante as negociações comerciais, enquanto o governo brasileiro privilegiou um discurso de autonomia estratégica e defesa da multipolaridade para gerar benefícios eleitorais internos.

O consultor estratégico Antonio Fernando Pinheiro Pedro afirma que o comércio internacional deixou de ser apenas um instrumento econômico para se tornar um mecanismo de projeção de poder das grandes potências. Segundo ele, países que conseguem demonstrar alinhamento estratégico ou relevância para cadeias produtivas críticas tendem a preservar melhores condições de negociação. 

“A política brasileira permanece presa a disputas internas, reagindo com atraso e baixa capacidade estratégica diante de um ambiente internacional cada vez mais competitivo”, avalia Pinheiro Pedro. 

Para o cientista político Márcio Coimbra, ex-diretor da Apex-Brasil, o tarifaço deve ser interpretado dentro de uma transformação mais ampla da política comercial americana.  

Ele sustenta que Washington passou a integrar comércio, segurança nacional e política externa em uma mesma estratégia, conhecida como linkage diplomacy (termo em inglês que corresponde a diplomacia de barganha ou de vinculação).

Trata-se de uma estratégia de negociação internacional em que um país condiciona o progresso de uma área específica (como acordos comerciais ou nucleares) à cooperação do outro Estado em uma questão totalmente diferente (como direitos humanos ou contenção de conflitos regionais).

Na avaliação de Coimbra, o Brasil chegou a esse novo cenário sem uma articulação diplomática compatível com a crescente complexidade das negociações. 

Brasil demonstrou falta de estratégia comercial diante de tarifaço

Outro ponto levantado pelos analistas diz respeito à estratégia comercial do governo. 

Após a confirmação do tarifaço de 25%, integrantes do governo destacaram que o Brasil continua ampliando mercados para seus produtos e ressaltaram a abertura de novos destinos para as exportações do agronegócio. A avaliação oficial é que essa diversificação reduz a dependência de parceiros específicos e demonstra a competitividade dos produtos brasileiros. 

A abertura de mercados, no entanto, é uma política permanente de Estado e não uma resposta emergencial a crises comerciais. Apresentar a expansão de mercados como principal argumento diante do tarifaço evidencia uma visão de curto prazo da política comercial, quando o desafio central seria ampliar a presença brasileira em cadeias globais de valor e reduzir vulnerabilidades antes que conflitos comerciais ocorram. 

Márcio Coimbra também sustenta que a reação brasileira privilegiou declarações políticas e ameaças de retaliação, como a eventual utilização da Lei da Reciprocidade Econômica, em vez de uma articulação técnica mais intensa junto às autoridades americanas e ao setor privado dos Estados Unidos.

Até o momento, o governo divulgou notas prometendo taxar produtos americanos da mesma maneira, o que resultaria em uma punição direta não aos Estados Unidos, mas ao consumidor brasileiro, que passaria a pagar mais caro por produtos como telefones celulares e eletrônicos e ao empresariado, que terá mais custos para importar maquinário e meios de produção.

O governo Lula também adotou como resposta usar o dinheiro do contribuinte para socorrer empresas brasileiras prejudicadas pelas tarifas americanas.

Articulação privada pesou na concessão de exceções ao tarifaço

Outro argumento apresentado por Coimbra é que parte das exceções concedidas pelos Estados Unidos a alguns produtos brasileiros decorreu da atuação de entidades empresariais e representantes de setores produtivos. Essa atuação demonstrou às autoridades americanas os impactos das tarifas sobre empresas dos próprios EUA.

A lista de exceções preservou produtos considerados relevantes para cadeias produtivas americanas, como aeronaves, café e carnes, enquanto manteve a sobretaxa para segmentos em que Washington avaliou haver maior possibilidade de substituição por fornecedores de outros países.  

Segundo essa interpretação, o episódio reforça que, na atual configuração da economia internacional, a influência de um país depende não apenas de sua diplomacia política, mas também de sua capacidade de mobilizar atores econômicos e demonstrar sua importância estratégica para parceiros comerciais. 

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