Os Emirados Árabes Unidos estão em negociação para a construção de um novo porto e terminal multifuncional para concorrer com o Estreito de Ormuz, uma das rotas mais importantes do comércio energético global.
Um dos objetivos centrais do projeto, de acordo com a empresa idealizadora DP World, é evitar ameaças futuras do Irã de bloquear a via logística estratégica e gerar um novo caos econômico. Segundo o jornal britânico Financial Times, as instalações poderão entrar em operação em aproximadamente um ano e meio.
Localizada no emirado de Fujairah, a nova infraestrutura logística permitirá que as cargas contornem o Estreito de Ormuz, reduzindo a dependência do porto de Jebel Ali, localizado no Golfo Pérsico, cujo acesso exige a travessia pelo estreito.

Na visão de Márcio Coimbra, CEO da Casa Política, ex-diretor da Apex-Brasil e do Senado Federal, o audacioso plano de Dubai é plenamente viável e possui um potencial transformador para a segurança internacional, uma vez que ataca diretamente a dependência global de um único e volátil ponto de estrangulamento.
“Ao redirecionar os fluxos de exportação para fora do Estreito de Ormuz, essa iniciativa esvazia o poder de coerção de regimes que utilizam a constante ameaça a embarcações comerciais como ferramenta de barganha política, minando a sua capacidade de desestabilização regional”, diz o analista à Gazeta do Povo.
O novo empreendimento permitirá que as cargas entrem e saiam dos Emirados Árabes Unidos sem cruzar o estreito e, depois, sejam transportadas por via terrestre, com o auxílio de caminhões, até Dubai, Abu Dhabi e países vizinhos do Golfo.
Eduardo Galvão, especialista em risco político e professor do Ibmec Brasília, pontua que o projeto dos Emirados Árabes Unidos representa uma mudança estratégica importante, mas não elimina o peso geopolítico do Estreito de Ormuz. O objetivo da infraestrutura, como ele destaca, não é substituir completamente a rota, e sim reduzir a dependência dela.
“Hoje, Ormuz continua sendo o principal gargalo energético do mundo, responsável pelo escoamento de cerca de um quinto do petróleo e do gás natural liquefeito consumidos globalmente. Nenhuma infraestrutura alternativa possui capacidade suficiente para absorver todo esse fluxo”, afirma o analista.
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Uma guerra ampla do Irã contra países do Oriente Médio teria um efeito duplo, na avaliação de Coimbra: ao mesmo tempo em que provocaria um choque imediato e severo na logística global de petróleo e gás, funcionaria como o catalisador definitivo para uma reorganização estrutural do mercado energético rumo à estabilidade.
A interrupção temporária das vias tradicionais forçaria o redirecionamento acelerado dos fluxos para corredores estratégicos e fornecedores alternativos, acelerando a independência global em relação a zonas de alta instabilidade política.
“A longo prazo, essa crise consolidaria uma nova arquitetura logística mundial, fundamentada na segurança jurídica e na cooperação entre nações alinhadas aos princípios de mercado, isolando em definitivo os atores que tentam subjugar a ordem econômica internacional”.
Já Galvão destaca que a guerra em curso levará empresas e governos a diversificar fornecedores, ampliar estoques estratégicos e investir em corredores alternativos para reduzir a exposição a gargalos como Ormuz. O resultado, em sua visão, será uma logística menos eficiente, porém mais resiliente, com maior redundância e menor concentração de risco.
“Essa transformação também redistribui investimentos em infraestrutura. Portos como Fujairah, corredores terrestres, oleodutos e terminais fora do Golfo Pérsico ganham importância estratégica. Ao mesmo tempo, aumenta o custo estrutural do comércio internacional de energia, seja pelo alongamento das rotas, pelo aumento dos seguros marítimos ou pelos investimentos necessários para criar alternativas aos gargalos tradicionais”.


