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Ucrânia enfrenta crise política após demissão de criador da guerra de drones moderna

Manifestantes em Kyiv e em outras cidades ucranianas pedem a volta de Mykhailo Fedorov ao Ministério da Defesa e a demissão do comandante das Forças Armadas, Oleksandr Syrskyi (Foto: EFE/EPA/SERGEY DOLZHENKO)

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A Ucrânia atravessa um dos momentos mais delicados de sua governabilidade interna desde o início da invasão russa, em 2022. A crise foi deflagrada com a demissão do criador da atual estratégia de guerra de drones, o então ministro da Defesa Mykhailo Fedorov, na semana passada, e culminou nesta terça-feira (21) com o desligamento do comandante do Exército ucraniano, Oleksandr Syrskyi, que será substituído pelo general Mykhailo Drapatyi, que dirigia as Forças Conjuntas das Forças Armadas.

Kyiv havia retomado a iniciativa na guerra neste ano e libertou mais de 240 quilômetros quadrados invadidos pela Rússia em Oleksandriovka, na frente leste de batalha – um avanço que não era visto desde 2023. Em paralelo, a Ucrânia realizou ataques em profundidade contra refinarias, navios e portos russos, o que gerou uma crise de abastecimento de combustível na Rússia. O ditador Vladimir Putin reconheceu publicamente o problema.

Tudo isso vinha sendo possível por uma série de reformas promovidas por Fedorov nas Forças Armadas. A principal delas foi criar uma estratégia de guerra de drones de média e longa distância que a Rússia não está conseguindo conter.

O ex-ministro da Defesa conseguiu até convencer o bilionário Elon Musk a cortar o acesso das tropas russas à rede de satélites Starlink, usada para comandar drones, e manter esse benefício apenas para a Ucrânia – fato que desequilibrou a guerra e fez o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, rever seu apoio a Putin.

Mas Fedorov foi demitido na semana passada. Seu desligamento foi atribuído à sua popularidade e a uma resistência do comandante do Exército, Syrskyi, em colaborar com a nova estratégia de drones. Multidões tomaram as ruas das principais cidades ucranianas em uma onda de protestos contra a demissão.

Syrskyi também é considerado um herói por ter liderado a grande contraofensiva ucraniana de 2022, que retomou quase metade dos territórios que haviam sido invadidos pela Rússia em fevereiro. Mas a população via sua estratégia militar mais tradicional, baseada em movimentos de tropas, blindados e canhões, como ultrapassada.

Fedorov, por sua vez, defendia que os drones deveriam substituir cada vez mais os soldados na linha de frente – um discurso muito popular para um país que sofre com a falta de militares. O presidente Volodymir Zelensky decidiu então substituir os dois líderes para controlar a crise.

A Gazeta do Povo questionou o porta-voz da chancelaria ucraniana, Heorhii Tykhyi, sobre a crise durante uma entrevista coletiva para jornalistas da América Latina nesta terça-feira.

“Às vezes, as emoções tomam conta e surgem conflitos que se tornam públicos, mas isso faz parte da vida democrática e sairemos disso mais fortes. Posso garantir que a inovação tecnológica da Ucrânia continuará, independentemente de quaisquer desenvolvimentos, porque é uma questão de sobrevivência. Não nos tornamos tecnologicamente avançados apenas por causa de um ministro reformista, mas porque nosso povo precisava sobreviver e não tinha outra opção”, disse Tykhyi.

Ele falou a partir de Kyiv, por meio de videoconferência – que chegou a ser interrompida por alguns minutos devido à aproximação de um drone russo.

“A Ucrânia está passando por uma reforma profunda do exército e abordagens obsoletas estão sendo mudadas abertamente. Diferentemente dos russos, não escondemos nossos problemas debaixo do tapete”, disse Tykhyi.

Como Fedorov transformou a guerra na Ucrânia

Uma das reformas promovidas por Fedorov foi um sistema de distribuição de munições, mantimentos e reforços baseado na meritocracia de cada unidade militar e não em sua lealdade ao governo. O ex-ministro da Defesa criou um sistema em que os militares ganhavam pontos por cada ataque bem-sucedido contra forças russas (os ataques tinham que ser filmados por drones). Os pontos eram então trocados por mais drones, armas e recursos.

Ele também criou um sistema de comunicação de manobras militares que dificultava para comandantes esconder perdas de território. Além disso, suas reformas criaram o ambiente para o programa Sky Fortress, que está revolucionando a defesa aérea contra drones. Baseado em um conceito da Segunda Guerra, ele espalha pelo país milhares de sensores de ruídos que conseguem distinguir o som dos motores de drones inimigos e determinar sua localização e trajetória por inteligência artificial, sem depender de radares caros e tecnologia avançada de origem americana.

A resposta do governo ucraniano à crise política é a promessa de que as mudanças nas lideranças serão feitas de forma transparente, característica de países democráticos. A lei marcial em vigor no país estendeu o mandato de Zelensky, mas ele está fazendo reformas profundas em seu gabinete.

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