Jovens esperam que a Igreja os ajude na busca da santidade, segundo pesquisa apresentada à CNBB. (Foto: Imagem criada utilizando Google Flow/Gazeta do Povo)
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No último sábado, fui à missa na cidade onde moram meus pais (no domingo estaria na estrada), e a missa encerrou um encontro de jovens. Antes da bênção final, o padre os reuniu e disse um punhado de coisas bacanas para eles, e bateu muito na tecla de que eles não podem ser dependentes da validação dos outros, ainda mais quando destoam do grupinho por terem fé e darem importância a ela. Lembrei disso quando vi os resultados da Pesquisa Nacional Evangelização da Juventude, realizada em 2025 e apresentada ao Conselho Permanente da CNBB no mês passado – soube dos números apenas com um mês de atraso, graças a uma reportagem da ACI Digital.
Pouco mais de 11 mil adolescentes e jovens entre 12 e 29 anos responderam a um questionário disponível na plataforma Jovens Conectados. O perfil que saiu daí é de um jovem que já percebe os efeitos da dependência digital, que não se sente bem emocionalmente, mas que encontra na espiritualidade – inclusive na pertença a grupos de jovens dentro da Igreja – uma forma de encontrar força para lidar com os problemas do dia a dia. Um dado que achei notável no perfil dos entrevistados: dos 6,8 mil que responderam a questões sobre prática religiosa, 68,5% frequentam a missa semanalmente, e outros 25,1% são católicos de missa diária! Sei bem que (infelizmente) esses jovens não são um espelho fiel dos jovens brasileiros que se declaram católicos, mas esse recorte é importante para o que mais interessa.
Se, em vez de Jesus e do chamado à santidade, o jovem só encontrar na Igreja aquilo que ele já tem do lado de fora, que incentivo ele terá para entrar, ou para permanecer?
Dos 11 mil entrevistados, 5,7 mil responderam a questões sobre “o que atrai, o que afasta e o que os jovens querem aprender”. E cerca de metade deles reclamou de algo bastante frequente em nossas igrejas: 52,3% disseram que a “falta de zelo com liturgia e tradição” e 47,7% afirmaram que a “ênfase excessiva em questões sociopolíticas” são práticas que dificultam sua participação. Quanto os jovens foram perguntados sobre os temas que mais lhe interessam, “santidade e fé cristã” foi a resposta mais frequente, com 16,7% das citações. Como está destacado em uma frase da apresentação preparada pelos responsáveis pela pesquisa, “o problema não é a fé juvenil, é o que se oferece”.
A psicopedagoga Patrícia Espíndola de Lima Teixeira, da PUCRS, uma das coordenadoras da pesquisa, disse à ACI Digital que “temos uma geração que cresceu exposta a um volume enorme de conteúdos superficiais, e é justamente essa a hipótese para que muitos jovens demonstrem sede de relações mais profundas e encorajadoras de fé e de sentido de vida”. Apliquemos isso à liturgia. O senso comum a respeito “do que o jovem procura” manda levar para dentro da igreja aquilo que o jovem encontra e curte fora dela. E, então, dá-lhe missa show, missa rave, missa isso, missa aquilo. O senso comum, no entanto, está errado: não é que o jovem católico – ao menos esse entrevistado na pesquisa – não queira diversão, música ou coisa do tipo, mas que ele sabe o lugar certo para uma coisa e para outra. Aparentemente, esse jovem entende muito mais sobre o significado da missa que as pessoas encarregadas de preparar “missas para os jovens”. É inexplicável, para mim, que bispos e liturgistas nem se deem ao trabalho de perguntar, por exemplo, por que as missas tridentinas estão cheias de jovens, quando aquele mesmo senso comum diria que liturgia tradicional é apenas coisa de velho saudosista.
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A mesma coisa acontece com a militância política dentro da Igreja. O mesmo jovem consciente de que missa não é balada (ainda usam essa palavra?) pelo jeito também está consciente de que missa não é comício e igreja não é comitê partidário nem DCE. E, antes que digam que esse jovem não passa de um alienado, a coordenadora do Jovens Conectados, Layla Kamila, deixa bem claro que “isso não significa diminuir a dimensão social da missão da Igreja. Pelo contrário. O anúncio do Evangelho e o compromisso com a justiça, com os pobres, com a paz e com a dignidade humana caminham juntos”, como afirmou à ACI Digital.
Há muitos lugares onde os jovens podem encontrar diversão saudável; e hoje a política está em todo canto (até mais do que devia, já que politizaram absolutamente tudo). Mas há coisas que só a Igreja é capaz de oferecer: as coisas do alto. Se, em vez de Jesus e do chamado à santidade, o jovem só encontrar na Igreja aquilo que ele já tem do lado de fora, que incentivo ele terá para entrar, ou para permanecer? Onde é que ele vai saciar essa sede da alma? “Podemos caminhar o que quisermos, podemos edificar um monte de coisas, mas se não confessarmos Jesus Cristo, está errado. Tornar-nos-emos uma ONG sociocaritativa, mas não a Igreja, Esposa do Senhor”, disse o papa Francisco na sua primeira homilia depois de ser eleito pontífice. Infelizmente não falta gente empenhada em fazer justamente isso, transformar a Igreja em ONG piedosa – basta ver esse pessoal que escreve Análises de Conjuntura eclesiais. Mas os jovens querem outra coisa; os líderes da Igreja no Brasil serão capazes de escutar e atender?
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