VILLA NEWS

“A Graça”: a quem pertencem nossos dias?

“A Graça”: é como se Godard tivesse sido contratado pela Record. (Foto: IMDB)

Ouça este conteúdo

No dia 22 de julho de 2026, o cronista Paulo Polzonoff Jr., da Gazeta do Povo, escreveu sobre o filme “A Graça”, de Paolo Sorrentino. Com pouca esperança de ser lido, como afirmou ele anos mais tarde. Escreveu porque sentia que era seu dever sugerir que o leitor, na época viciado em validação e em política rasteira, desse uma olhadinha no filme a fim de refletir sobre outras coisas. Como previsto, o texto foi um fracasso.

Intitulado “‘A Graça’: a quem pertencem nossos dias?”, o texto começava explicando que, em “A Graça”, o diretor e roteirista italiano faz uma pergunta muito difícil para aquela época. Para aquela época. Uma pergunta para a qual hoje temos uma resposta fácil (tão fácil que ela é ensinada para as crianças antes mesmo da alfabetização), mas que antigamente era bem difícil: a quem pertencem nossos dias? Nossa vida. A partir daí, Sorrentino aborda o perdão (a “graça” do título) e a eutanásia.

Didático

O autor faz duas observações razoavelmente interessantes sobre o filme. A primeira é sobre o conflito de tempos. Sorrentino ambienta a história do presidente Mariano De Santis num mundo em transição, onde os salões e os ritos do poder tentam se adaptar ao Mundo Moderno, que eram como os antigos se referiam ao nosso Agora. A música, por exemplo, é “insuportavelmente moderna”, nas palavras do Polzonoff, que em seguida se contradiz e afirma que gostou do contraste. Vai entender!

A outra observação do autor é esta: em “A Graça”, tudo é explícito. É mesmo. Falta sutileza. Tudo é m-i-n-u-c-i-o-s-a-m-e-n-t-e explicadinho, desde as referências intelectuais até as emocionais/morais. Polzonoff menciona a cena da lágrima no espaço, faz uma piada e explica que naquele tempo as pessoas não gostavam de nuances ou insinuações. E quem gosta? Tudo tinha que ser bem didático, termo que designa o que é próprio para ensinar ou instruir. E conclui dizendo que “A Graça” é um filme que o Godard faria se tivesse sido contratado pela Record, além de ser insuportavelmente relativista, validando tanto quem é contra quanto quem é a favor da eutanásia. “Filme besta”, encerra ele. Daquele jeitão.

Encontrou algo errado na matéria?

Comunique erros

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *