Alheio ao abalo sísmico que o apoio do PL à sua pré-candidatura ao governo do Ceará causou em âmbito nacional, tanto no partido quanto na organização da oposição ao governo Lula como um todo, Ciro Gomes (PSDB) tem reforçado dobradinha com figuras políticas conservadoras conhecidas na região Nordeste em torno de temas caros à direita.
Ele reorganiza a oposição contra seu ex-aliado PT no estado — indicando que, pelo menos da parte de seu grupo político, a aliança com o PL é algo consumado para tentar impedir a reeleição do governador Elmano de Freitas (PT). A estratégia caminha paralelamente à sinalização de Ciro de eventual apoio a Ronaldo Caiado (PSD) ou Renan Santos (Missão) à Presidência da República.
Nas redes sociais, Ciro faz diversas publicações diárias bem produzidas, em ritmo de campanha eleitoral. Nem uma única palavra ou vídeo sobre a polêmica envolvendo a ruptura entre a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o pré-candidato à Presidência da República pelo PL, senador Flávio Bolsonaro.
Uma peça-chave nas divergências entre Michelle e Flávio envolve justamente o Ciro: foi causada pela recusa da esposa do ex-presidente em aceitar a aliança regional com o até então adversário político. A aliança foi fechada com a benção de Flávio, de acordo com o que a própria Michelle afirma em vídeo publicado por ela no dia 24 de junho.
Questionado por jornalistas no dia seguinte, ao sair de um evento de pré-campanha em Fortaleza, Ciro afirmou: “Não vi o vídeo e nem vou ver. É uma questão do PL nacional e envolve coisas muito mais complexas do que a nossa paróquia aqui. Eu sigo aqui tranquilo. O eixo do nosso entendimento aqui é um projeto de emancipação do Ceará que nós consideramos que está sendo muito mal tratado”, disse.
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Em contrapartida, não faltam críticas de Ciro ao “calcanhar de Aquiles” do governo petista no Ceará, a segurança pública. Esse tem sido o foco do tucano até aqui, com um discurso linha-dura bem alinhado com a direita.
O estado é o terceiro mais violento do Brasil considerada a taxa de homicídios, com três cidades entre as dez com os piores índices do país, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública mais recente, de 2025.
“É uma denúncia gravíssima, cheia de provas, e o mais grave fica a pergunta: de onde veio a ordem para interromper o ótimo trabalho da Polícia Civil do Ceará. (…) Vale lembrar que o chefe da Polícia Civil e da Polícia Militar do Ceará é o governador do estado”, ataca Ciro em um vídeo publicado no último dia 30.
Com uma trilha policial ao fundo, foi assim que o pré-candidato a governador do Ceará reagiu a um vídeo-denúncia do deputado federal André Fernandes (PL), em uma dobradinha que viralizou nas redes com milhões de visualizações nos dois perfis. Contexto: a Polícia Civil encontrou um acampamento e plantação com cerca de 290 mil pés de maconha em Acopiara, no interior do Ceará, no fim de junho.
A apreensão foi descrita como uma das maiores já realizadas no estado do Ceará, de acordo com o governo de Elmano de Freitas. A Polícia Civil chegou a divulgar um vídeo da plantação de maconha sendo derrubada por tratores e incinerada no próprio local. Ninguém foi preso.
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Dois dias após a operação, André Fernandes publicou uma denúncia afirmando que a área da operação havia sido deixada sem custódia, isto é, sem vigia, sem isolamento e sem proteção, com a droga e outras provas “abandonadas”. O parlamentar visitou o local e mostrou que a maior parte da plantação seguia no local, bem como parte da droga já colhida.
Na residência do sítio foram deixados materiais como celular e cadernos de anotações, que deveriam ter sido recolhidos como provas. “Governador Elmano, eu vim fazer uma pergunta sincera: esqueceram de levar isso aqui?”, questionou Fernandes, segurando um saco pesado repleto de maconha, encontrado em uma das barracas utilizadas pelos criminosos.
Em resposta, o governador foi ao local e também gravou um vídeo, dizendo que tratar-se de uma falha inaceitável e que mandou apurar responsabilidades no caso. O caso da maconha e das provas esquecidas na operação policial tem dado o que falar e mobilizou o Ceará, abafando na região repercussões da cisão no PL e da saída de Michelle Bolsonaro do PL Mulher — assim como o papel de Ciro Gomes na contenda.
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Ciro investe em pragmatismo eleitoral, aponta cientista político
O caso é exemplar da estratégia de Ciro e do PSDB no estado: enquanto ataca a insegurança pública, principal queixa dos eleitores, tenta distanciar-se de qualquer polêmica nacional envolvendo seu nome, como a cisão no PL, ou relacionada à eleição presidencial.
Para Wagner Gundim, cientista político e doutor em Direito Constitucional, ao se filiar ao PSDB em 2025 e firmar uma aliança com o PL e o União Brasil, Ciro pretende ocupar um vácuo na oposição ao PT no âmbito estadual, independentemente das diferenças ideológicas entre esses partidos. “Na Ciência Política, esse tipo de estratégia costuma ser interpretado como pragmatismo eleitoral ou adaptação estratégica, na medida em que prioriza a viabilidade eleitoral sobre a coerência programática”, afirma.
“Sob uma perspectiva de coerência político-ideológica, o alinhamento de Ciro Gomes ao PL e ao União Brasil pode ser interpretado como um distanciamento do discurso que vinha adotando nos últimos anos, especialmente de suas críticas ao sistema político-eleitoral vigente e às formas de articulação política que ele próprio classificava como fisiologismo”, pontua o cientista político.
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Composição para vice na chapa de Ciro segue aberta
O ex-ministro da Fazenda convidou o ex-prefeito de Fortaleza Roberto Cláudio (União) para compor a chapa como vice-governador, ampliando os gestos ao campo conservador, mas a aliança ainda não está fechada. Ciro deve ter o ex-deputado Capitão Wagner (União) como candidato ao Senado. A outra vaga está sendo negociada com o PL.
Com apoio de Flávio, o PL costura a candidatura do deputado estadual Alcides Fernandes, pai do presidente estadual do partido, André Fernandes, ao Senado. Já Michelle defendia Priscila Costa, vice-presidente do PL Mulher e uma de suas principais aliadas.
“A situação de Ciro Gomes no Ceará é um dos movimentos mais paradoxais da eleição”, avalia o cientista político Samuel Oliveira. “Ele pode começar bem a pré-campanha porque reorganiza a oposição ao PT, dá palanque a setores que estavam dispersos e se apresenta como nome experiente contra a máquina petista local. Mas o mesmo movimento que o fortalece no começo pode enfraquecê-lo no decorrer da campanha”, afirma.
“Ciro tenta fazer uma operação de guerra contra o PT. Para isso, está disposto a se aproximar de setores que passou anos criticando”, aponta o cientista político.
“O problema é que a política cobra coerência narrativa. Quando alguém que construiu parte da própria identidade atacando Bolsonaro e seu entorno passa a depender de seus aliados locais para derrotar o PT, ele ganha musculatura eleitoral, mas perde pureza discursiva.”
O economista e estrategista eleitoral Luis Carlos Burbano Zambrano avalia que o objetivo central passa a ser construir uma maioria capaz de derrotar o PT no Ceará, mesmo que isso exija alianças antes consideradas improváveis. “O conflito entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro sugere justamente a existência de uma disputa entre duas lógicas: a ética da convicção, mais preocupada com coerência e identidade política, e a ética da responsabilidade, mais orientada para resultados concretos”, relaciona.
“Seu objetivo central não parece ser preservar a pureza ideológica de antigas alianças, mas construir uma maioria política capaz de derrotar o PT no Ceará. O critério principal deixa de ser a identidade ideológica dos aliados e passa a ser a eficácia da coalizão construída”, diz o estrategista eleitoral. Ciro Gomes governou o Ceará entre 1991 e 1994, em sua primeira passagem pelo PSDB, sigla para a qual voltou no início deste ano.
Sondagem eleitoral divulgada no último dia 15 pelo instituto Real Time Big Data aponta que Elmano de Freitas (PT) lidera numericamente o cenário estimulado de primeiro turno com 4 pontos percentuais de vantagem para Ciro Gomes (PSDB), o que configura um empate no limite da margem de erro da pesquisa de 2 pontos percentuais para mais ou para menos.
Na simulação de segundo turno entre os dois, a diferença cai para 2 pontos percentuais, mantendo o empate técnico.
- Metodologia da pesquisa citada: 1.600 entrevistados pelo Real Time Big Data entre os dias 13 e 14 de julho de 2026. A pesquisa foi contratada pelo próprio instituto. Nível de confiança: 95%. Margem de erro: 2 pontos percentuais. Registro no TSE sob o nº CE-05682/2026.
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