56 anos depois. (Foto: Acervo familiar/Paulo Briguet)
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1. No princípio foi a queda. Desembarquei em São Paulo às 5 da manhã, no Terminal da Barra Funda, levando duas malas. Resolvi ir a pé e rezando até a casa da minha tia, a dois quarteirões. No entanto, a garoa da madrugada tinha deixado as calçadas úmidas. Escorreguei e levei um baita tombo, caindo de joelhos e cotovelos no chão frio da Pauliceia. Foi uma queda em câmera lenta; tive tempo suficiente para pensar “Cristo está comigo” e achar graça da cena. Uma moça que passava na outra calçada e perguntou:
— Você está bem, moço?
— Obrigado pelo “moço”. Sim, estou bem. Só ralei o joelho.
Sorri e lhe mostrei o terço. Ela também sorriu.
2. Nasci em São Paulo, em 1970, poucos dias depois da final da Copa. Mas, como vivo há quase 40 anos em Londrina, sinto-me um caipira completo na metrópole. Quando passei pela Faria Lima, senti-me igual ao matuto da piada que contempla os arranha-céus e diz:
— É difícil!
3. Nesta minha visita a São Paulo, peregrinei por igrejas antigas, verdadeiras ilhas de beleza e paz na cidade tão barulhenta e caótica: Santa Generosa (no Paraíso), Imaculada Conceição (na Bela Vista), Santuário de Schoenstatt (na Vila Clementino), Santa Teresinha (em Higienópolis) e Imaculado Coração (na Vila Buarque). Em todas encontrei a presença silenciosa de Deus. Também percorri os lugares que me fizeram lembrar meus tempos de militante ateu e hedonista: as ladeiras das Perdizes e do Sumaré com suas repúblicas estudantis, o o Edifício Diderot, onde morei no 22º Andar, o Sujinho da Consolação, as cercanias da Paulista e do Belas Artes, os bares e padarias de esquina. No Instituto Moreira Sales, parei para ir ao banheiro e descobri que lá não há mais distinção entre W.C. masculino e feminino.
4. Duas ruas me trouxeram lembranças afetivas fortíssimas: a Brigadeiro Galvão e a Barão de Limeira. Na Barão, lembrei-me daquela fria manhã de 17 de julho em que meus pais entraram em casa com uma menininha embrulhada no manto e um robô astronauta japonês. Eram minha irmã e o presente que ela me trouxe ao nascer. Na Brigadeiro Galvão, passei pela frente da antiga casa da Vó Maria, em que nos reuníamos no Natal: hoje a casa não existe mais, mas fiz uma foto exatamente no mesmo local em que minha mãe posou comigo bebê, há 56 anos.
5. Peguei o Uber. O primeiro motorista se chamava Leon. Disse a ele:
— Sabe que você tem o mesmo nome do meu escritor preferido?
— É mesmo? E quem é ele?
— Leon Tolstói. Um dia, se puder, leia um conto chamado “A Nevasca”.
O segundo motorista se chamava Oleksandr.
— De onde você é, Oleksandr?
— Da Ucrânia.
Falei sobre alguns episódios da história ucraniana, especialmente o período soviético e o Holodomor. Ele me disse que jamais havia encontrado um brasileiro tão interessado em seu país. Ao fim da corrida, perguntei:
— Qual é o seu patronímico, Oleksandr?
— Jakobvitch.
— Até logo, filho de Jakob!
E ele sorriu.
6. No consulado espanhol, fui atendido por uma funcionária simpaticíssima, mas um colega seu foi extremamente grosseiro, para não dizer estúpido, com um senhor idoso que veio pedir informações. Arrependi-me de não ter saído em defesa do velhinho. Pequei por omissão e confesso-o aqui.
7. Por fim, conversei com minha querida tia. Ela me contou sobre a amiga que, muitos anos atrás, a havia ajudado comprando um tapete persa de sua casa. Eis que, muito tempo depois, essa amiga apareceu carregando um embrulho. Era o tapete persa.
— Vim devolver pra você, minha amiga.
Sim, ainda existe espaço para a bondade e a generosidade na metrópole. No princípio foi a queda. Mas, no fim, há a redenção.
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