VILLA NEWS

Do “sabor gasolina” ao “sabor democracia”

Gasolina virou metáfora do Brasil: tudo mantém o mesmo nome, mas o conteúdo muda aos poucos até quase ninguém notar. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)

Ouça este conteúdo

Houve um tempo em que gasolina tinha gosto de gasolina. Quem já tentou tirar combustível do tanque com um sifão improvisado sabe exatamente do que estou falando. Bastava uma gota na boca para identificar o produto sem margem para erro. Não sei se o gosto mudou, mas hoje a gasolina não é mais a mesma. De certo modo, ela virou uma metáfora do Brasil.

O noticiário da semana informa que a gasolina brasileira ganhará mais etanol na mistura: vai passar de 30% para 32% – e já se cogita chegar a 35%. A justificativa é técnica, econômica, ambiental, estratégica. Tudo muito razoável. Os carros mais modernos quase não sentirão diferença; alguns modelos antigos talvez reclamem. E daí? O combustível sabor gasolina continuará sendo chamado de gasolina, embora contenha cada vez menos gasolina.

É a consagração de um velho costume nacional: chamar pelo mesmo nome coisas que discretamente vão mudando por dentro.

A democracia também está com sabor diferente. A embalagem continua a mesma: há eleições, partidos, três Poderes, Constituição. Tudo parece estar no lugar. Mas estamos consumindo algo bem diferente daquilo que prometeram nos entregar.

Por exemplo, ainda chamamos de liberdade de expressão um direito cercado por uma quantidade crescente de condicionantes. Chamamos de separação de Poderes um sistema no qual o Judiciário humilha o Legislativo. Chamamos de casa do povo um Congresso que parece mais focado em negociar verbas e sobrevivência política do que em representar a vontade do eleitor.

O processo acontece sem ruptura, por meio da técnica da mistura progressiva. Primeiro acrescenta-se um pouco de etanol à democracia. Depois, mais um pouco. Aí surge um especialista garantindo que a nova composição é melhor que a antiga. E quem sente saudade da fórmula original é tratado como ignorante ou extremista.

O fenômeno já contaminou praticamente todas as prateleiras da vida nacional. Há o “sabor inflação baixa”: os preços não param de subir, mas os aumentos são invisíveis à metodologia de medição adotada. Por delicadeza estatística, espera-se que o supermercado colabore. Se o carrinho de compras volta para casa mais vazio, deve ser culpa do consumidor, que teima em acreditar na nota fiscal em vez do comunicado oficial.

É preciso perguntar continuamente quanto existe de original dentro de cada palavra. No caso da gasolina, já sabemos: 68%

Existe também o “sabor Justiça”. As cortes superiores continuam se apresentando como árbitros acima das paixões políticas, como guardiãs serenas da Constituição. A embalagem da liturgia inspira respeito: togas, votos longos, linguagem solene. O país inteiro enxerga magistrados se comportando como comentaristas políticos, influenciadores ou líderes de torcida, mas o rótulo garante: imparcialidade premium.

Não poderia faltar o tradicional “sabor melhor futebol do mundo”. Durante décadas, bastava ver a camisa amarela para que as seleções do resto do planeta tremessem. Hoje comemoramos classificações sofridas e, há décadas, assistimos às finais da Copa como espectadores. Mas continuamos repetindo, quase por reflexo, que somos o país do futebol. Só o Brasil tem o penta!

Por falar em futebol, fazendo uma tabelinha com o “sabor Justiça”, temos o “sabor jornalismo” adotado pela grande mídia. Este está cada vez mais difícil de engolir, tamanha a diluição dos valores e princípios que costumavam definir a profissão. O compromisso de informar cede espaço ao impulso de persuadir; a curiosidade é substituída pela certeza moral; a investigação dá lugar à seleção criteriosa dos fatos que confirmem a narrativa que interessa. O leitor continua comprando algo vendido como jornalismo, mas leva para casa algo mais parecido com ativismo político ou marketing institucional.

A virtude costumava ser discreta: ela se manifestava mais naquilo que alguém fazia do que naquilo que anunciava fazer. Honestidade, tolerância, prudência e generosidade dispensavam plateia. Hoje a virtude é um espetáculo permanente, medido em demonstrações públicas de indignação e na disposição para censurar e perseguir. Não basta defender uma causa; é preciso exibir a própria superioridade moral. Não basta discordar do adversário; espera-se que ele seja exposto, silenciado e banido. É o “sabor virtude”.

Poderíamos continuar a lista indefinidamente. Sabor Educação. Sabor responsabilidade fiscal. Sabor Saúde. Sabor transparência. Sabor combate à corrupção. Etc. Ficamos tão acostumados às versões “sabor alguma coisa” que quase já não lembramos como era o gosto do produto original. Porque, quando uma sociedade perde a memória do sabor verdadeiro das coisas, qualquer mistura parece natural.

Por isso é preciso perguntar continuamente quanto existe de original dentro de cada palavra. No caso da gasolina, já sabemos: 68%. Mas quanto ainda há de liberdade na liberdade? Quanto ainda resta de república na república? E quanto ainda sobra de democracia na democracia?

VEJA TAMBÉM:

Encontrou algo errado na matéria?

Comunique erros

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *