O senador baiano pelo PT Jacques Wagner dançou. O pré-candidato ao governo da Bahia ACM Neto (União) também dançou. Renan Santos (Missão), pré-candidato à Presidência, dançou ao lado de seus colegas de partido Kim Kataguiri e Arthur do Val. Até o senador e pré-candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez sua dancinha. E não estranhe se nos próximos meses o presidente e pré-candidato à reeleição Lula (PT) resolver aderir à dança também.
A tendência, que começou nas eleições municipais de 2022 e vem ganhando força na pré-campanha de 2026, é que os candidatos apareçam cada vez mais fazendo dancinhas e coreografias das mais diversas nas redes sociais. Se em 2018 as eleições foram fortemente influenciadas pelo Facebook, e em 2022 pelo Twitter, em 2026 os eleitores irão vivenciar as “eleições do TikTok”.
A crescente influência do marketing digital nas campanhas políticas vem levando os estrategistas a apostarem em conteúdos que em outros tempos soariam no mínimo estranhos. Se antes o que se valorizava mais eram as propostas e o debate político, agora vale mais construir uma imagem carismática para vencer a barreira da rejeição.
Hoje, o percentual de votos que pode decidir uma eleição gira entre 3 e 5 pontos percentuais. A polarização entre esquerda e direita faz com que cada lado tenha uma base sólida de apoiadores e daqueles que rejeitam o outro lado, independente de quem seja o candidato adversário.
Restam então os chamados “swing voters”, uma adaptação brasileira do termo “swing states” utilizada nas eleições americanas. São os indecisos, que não possuem uma ideologia fixa e podem mudar de voto a qualquer momento. Para ganhar esses eleitores, o importante é atrair a atenção, a qualquer custo.
Tendência das dancinhas aparece na direita e na esquerda
É por isso que o senador Jacques Wagner quase caiu do palco ao tentar descer até o chão em uma dancinha ao lado do governador baiano Jerônimo Rodrigues (PT), pré-candidato à reeleição, em um evento em Feira de Santana.
Seu principal adversário na disputa, ACM Neto, tratou de arriscar uns passos mais fáceis no vídeo em que lançou seu jingle, em uma estética característica do axé com direito a dançarinos com pouca roupa e cantores de qualidade vocal questionável.
Em um seminário de comunicação do PL, o influenciador Pulga Chora Boy apareceu fazendo o “passinho do Pulga” com uma camiseta onde estava escrito “Fora Lula”. Mais tarde, Flávio Bolsonaro postou um vídeo em suas redes sociais, que foi repostado pelo perfil oficial do partido, onde aparece tentando aprender os movimentos da dancinha.
A estratégia gerou comentários dos mais variados. Entre os críticos, Renan Santos gravou um vídeo alertando para o que ele chamou de despolitização das eleições. Para o pré-candidato, as dancinhas são um sinal de que os “eleitores serão tratados como idiotas”.
Só que o mesmo Renan Santos, durante a campanha municipal de 2024, estrelou um vídeo da então candidata a vereadora em São Paulo pelo União Brasil Amanda Vettorazzo. A sátira se passa em uma laje simulada, onde um churrasquinho está sendo preparado por Kim Kataguiri e Arthur do Val aparece deitado em uma cadeira de praia.
Santos chega como entregador de gás e liga o som, uma paródia de várias músicas do grupo de axé É o Tchan. Amanda entra em cena com roupas que lembram as de dançarinas do ritmo e o vídeo segue em tom de piada, com momentos impagáveis de Kataguiri ao lado da churrasqueira. Mesmo sendo uma piada, foi uma dancinha até bem elaborada para conquistar votos.
Dancinhas são atualização de fenômeno antigo
À Gazeta do Povo, o professor de Marketing Político na FGV João Ricardo Matta avalia o uso das danças e coreografias nas campanhas políticas como uma evolução de algo que existe há décadas. Não é de hoje que há essa preocupação, por vezes exagerada, em parecer jovial e esbanjar vitalidade.
Foi assim com o democrata John Kennedy, que sendo mais jovem, bonito e carismático que seu oponente, o republicano Richard Nixon, venceu as eleições para a Casa Branca em 1960. O debate entre eles foi o primeiro a ser televisionado nos EUA, e na telinha o democrata parecia mais confiante, ao contrário de Nixon, que estava pálido e suado. Foi o suficiente para conquistar os indecisos.
No Brasil, o professor lembrou das eleições de Collor, em 1989, e de Lula em 2002. No primeiro exemplo, o vencedor era jovem e aparecia mais bem arrumado que o petista, ainda ostentando um estilo sindicalista que lhe rendeu o apelido de “sapo barbudo”. A primeira vitória de Lula só veio, lembrou Matta, quando o candidato mudou o visual e adotou a postura “Lulinha paz e amor”.
“Eu não duvido que o Lula esteja fazendo alguma dancinha, daqui a um mês, ou até menos. Ele precisa mostrar essa vitalidade, algo que para ele é um calcanhar de Aquiles. O Flávio, pelo contrário, é jovem e tem essa leveza. Ele parece meio travado na dança, e se isso for autêntico é até bom para a imagem dele”, considerou o professor.
Estratégia é feita de modo consciente para conquistar indecisos
Matta lembra que há uma parcela do eleitorado que tem seu voto imutável. Não importa a foto que viralize, o vídeo que seja divulgado, as mensagens até então secretas que venham à tona, a opção não muda. Há ainda aqueles que rejeitam tanto o adversário que concordam em “tapar o nariz”, nas palavras do professor, para votar em Lula só porque não concorda com a família Bolsonaro. E vice-versa.
“Para esses o voto não muda. Mas há esses indecisos que geralmente são os que dizem ‘não estou nem aí para a política’. Essas pessoas não são alcançadas por propostas ou discussões sobre economia, saúde ou educação. Então entram as dancinhas, nessa estética TikTok, para tentar ganhar a simpatia e fazer o candidato parecer ‘gente boa’”, explicou.
E para aqueles que apontam essa nova tendência das danças como um passo adiante na “idiotização” da política, Matta alerta: a estratégia pode ter vindo para ficar. A se manter o caráter plebiscitário das eleições, em um tom de “nós contra eles”, tende a vencer quem tiver menos rejeição. E quanto mais simpático um candidato parecer, menos rejeitado ele tende a ser.
“As pessoas estão votando contra aqueles de quem elas gostam menos, tanto na direita quanto na esquerda. E muita gente pode dizer que um candidato fazendo essas dancinhas é algo ridículo. Não é, ele está tentando chamar a atenção de um público que não dá bola para política. Já tivemos estadistas em campanha, hoje não é mais assim. O nome do jogo é ‘chamar a atenção’, e para isso não tem certo nem errado. É algo consciente, feito para angariar a simpatia de um público que decide as eleições”, completou Matta.
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