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A fraude da maconha inofensiva

A legalização da maconha promete saúde, segurança e arrecadação, mas a experiência internacional mostra efeitos que seus defensores omitem. (Foto: David Cardinez/Pixabay)

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O lobby da legalização aprendeu a vender a maconha como uma política capaz de resolver quase todos os problemas ao mesmo tempo. Para os pacientes, promete tratamento medicinal. Para a polícia, o fim do tráfico. Para os governos, impostos, empregos e novas receitas.

A combinação parece irresistível porque reúne compaixão, segurança pública e arrecadação no mesmo discurso. O que seus defensores raramente admitem é que essas três promessas pertencem a debates diferentes e não se realizam automaticamente quando o Estado autoriza a venda de uma droga recreativa.

O argumento medicinal é o mais eficiente porque transforma qualquer crítica à liberação em aparente insensibilidade diante do sofrimento de pacientes. Mas fumar maconha não equivale a administrar um medicamento. A fumaça não converte a planta em remédio. Ela expõe o usuário ao THC psicoativo, a concentrações variáveis de outros compostos e aos produtos tóxicos da combustão.

O próprio governo canadense reconhece que fumar é a forma mais nociva de consumir canabis e que sua fumaça contém muitas das mesmas substâncias prejudiciais e cancerígenas presentes na fumaça do tabaco. Maconha fumada é nada mais, nada menos que o velho conhecido baseado.

O uso terapêutico sério exige outra lógica: identificação do composto ativo, extração ou síntese, purificação, dosagem controlada, indicação clínica, acompanhamento médico e fiscalização farmacêutica. O CBD, que não produz a intoxicação típica do THC, pode ser isolado e comercializado em formulações específicas. Existem também medicamentos que utilizam THC sintético ou substâncias semelhantes, mas em doses determinadas e para indicações delimitadas.

Nos Estados Unidos, a FDA não aprovou a maconha fumada como tratamento para nenhuma doença. A agência aprovou um medicamento derivado da canabis, à base de CBD purificado, e alguns produtos sintéticos relacionados aos canabinoides. Isso demonstra que reconhecer aplicações médicas de determinadas moléculas não obriga um país a transformar a maconha em produto de consumo cotidiano.

A mesma confusão aparece quando se promete o fim do tráfico e o aumento da arrecadação. Impostos só existem quando o consumidor compra no mercado formal. Quanto mais o Estado tributa, restringe ou encarece o produto legal, maior o espaço para vendedores clandestinos. Quanto mais facilita o acesso para derrotar o mercado ilegal, mais expande o consumo e normaliza a droga.

O resultado não é necessariamente a substituição do narcotráfico, mas a convivência entre uma indústria legal, um mercado cinzento e organizações criminosas que continuam produzindo sem impostos, sem limites de potência e sem controle sanitário.

No Brasil, o melhor dos exemplos é o do cigarro. Mais de metade do mercado nacional é preenchido por contrabando e falsificações. Mercado no qual operam as mesmas facções que inundam o Brasil com cocaína e maconha.

Ah… Mas deu certo em vários lugares desenvolvidos. Será?

Quando o Canadá legalizou a maconha recreativa, em outubro de 2018, a decisão foi apresentada como um salto civilizatório. O Estado substituiria o traficante, controlaria a qualidade, protegeria os jovens e transformaria um problema criminal em questão de saúde pública. Oito anos depois, o experimento não autoriza nenhum slogan de seus defensores.

Em 2023, 38,4% dos canadenses entre 18 e 24 anos disseram ter consumido canabis no ano anterior. Entre 25 e 44 anos, foram 34,5%. Cerca de um em cada dez adultos dessas faixas usava a droga diariamente ou quase todos os dias. A taxa de hospitalizações atribuíveis à canabis aumentou 120%. As visitas às emergências cresceram 113% até 2019. Em 2020, estimaram-se 5.318 internações e 37.341 atendimentos relacionados à droga, com destaque para transtornos psicóticos.

O sinal mais grave veio de Ontário.

Um estudo com 13,6 milhões de pessoas mostrou que a parcela de novos casos de esquizofrenia associada ao transtorno por uso de canabis passou de 3,7% antes da liberalização para 10,3% depois da legalização

Entre homens de 14 a 24 anos, a estimativa chegou a 18%. Isso não significa que todo usuário desenvolverá esquizofrenia, nem que a canabis seja a causa única de cada diagnóstico. Significa que uso intenso, dependência, início precoce e vulnerabilidade individual formam uma combinação que nenhuma política responsável pode ignorar. O Centro de Controle de Doenças (CDC), dos Estados Unidos, afirma que a associação da maconha com psicose e esquizofrenia se fortalece quanto mais cedo começa o consumo e quanto maior sua frequência.

O caso canadense nos ensina muito mais. A maconha atual também não é a mesma de décadas atrás, que muitos defendem como inofensiva. O THC, responsável pelos efeitos psicoativos, tornou-se o centro de uma corrida comercial por potência.

A Agência Antidrogas dos Estados Unidos (DEA) afirma que organizações criminosas chinesas dominam parte relevante do cultivo, produzindo plantas com teor médio de THC entre 25% e 30%. A legalização não eliminou o crime. Em vários lugares, criou um ambiente no qual operações legais, cinzentas e clandestinas coexistem.

O aumento da produção no Canadá e, inclusive, nos Estados Unidos transformou os dois países em ponto de origem de tráfico de drogas. A “maconha superpotente” produzida nos dois países tem sido traficada para fora da América, para a Europa e, inclusive, para o Brasil.

Ao lado do setor formal, cresceram cultivos clandestinos que exploram justamente os estados legalizados. E o excedente já cruza fronteiras. A Agência de Drogas da União Europeia registrou remessas dos Estados Unidos e do Canadá para a Europa por correio e aviação comercial. Em 2024, autoridades irlandesas apreenderam 64 quilos em bagagens de passageiros vindos dos Estados Unidos.

O Relatório Mundial sobre Drogas de 2026 identificou a América do Norte como origem de apreensões de canabis em 57 países ou territórios fora da região entre 2015 e 2024, contra 11 na década anterior. A legalização não extinguiu o tráfico. Alterou sua geografia e suas margens. Antes de copiar modelos estrangeiros, o Brasil deveria olhar para aquilo que seus defensores preferem não mostrar.

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