No dia seguinte à imposição da sobretaxa de 25% pelo governo dos Estados Unidos contra produtos brasileiros, atores econômicos demonstram preocupação com a competitividade da indústria nacional. A avaliação é de que a decisão americana gere efeitos imediatos em uma economia já impactada pelo início da discussão da tarifa.
O presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, apontou para a redução das exportações aos Estados Unidos já no primeiro semestre, situação que tende a piorar agora. O especialista em comércio exterior Jackson Campos projeta um impacto imediato, mas desigual, atingindo sobretudo setores industriais de maior valor agregado.
“O impacto não será igual para todos, mas para os setores atingidos significa vender com menor margem e enfrentar concorrentes que não pagam a mesma tarifa”, completa.
Apesar disso, analistas de fundos de investimento ressaltam que não há surpresa. A aplicação já era precificada, o que antecipou os impactos, inclusive o benefício a setores específicos, como o agronegócio. O que se projeta, agora, é uma valorização do dólar frente ao real e um cenário de cautela nos investimentos.
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Marco Rubio atribui a Lula responsabilidade por medida
O governo brasileiro emitiu uma nota em que alega que a imposição da taxa é o resultado de um “enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro” e ataca: “São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros”.
“Não se pode amar o Brasil apenas quando vencemos eleições. Proteger a nossa soberania é uma obrigação que está acima de todos os partidos e todas as tendências. O governo brasileiro não vacilará em seu dever de preservá-la”, conclui a nota.
A tentativa de responsabilização da família Bolsonaro, no entanto, contou com uma revelação em sentido oposto do secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio:
“Hoje, o Presidente Trump determinou que o USTR imponha uma tarifa de 25% sobre a maioria das importações brasileiras. Não haja confusão sobre o motivo: o Presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa-fé. Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. No último ano, Lula colocou seu próprio ego à frente de fazer um acordo pelo bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço por isso”.
A oposição passou a utilizar a manifestação de Rubio na guerra de narrativas nas redes sociais. Flávio chamou o petista de “Biden brasileiro”, a quem classificou como “ranzinza”, “inconsequente” e “um perigo para a nossa nação”.
“Quem olha pro Lula não enxerga futuro. Enxerga passado, atraso, incerteza, desconfiança, corrupção, incompetência, vingança”, afirmou.
A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) concorda com essa visão. Em sua nota, a entidade atribui à gestão petista uma deterioração na tradição diplomática com os Estados Unidos em prol de objetivos eleitorais. Para seu presidente, Paulo Skaf, o cenário é ainda mais delicado diante de questões como a taxa de juros e a alta carga tributária
“Em um momento de extrema sensibilidade econômica mundial, a opção do governo brasileiro por ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington acabou por minar vinculos construídos ao longo de mais de 200 anos de cooperação bilateral”, opina o texto assinado por Skaf.
Já a Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (FIEMG) adotou um tom mais cauteloso e defendeu que haja maior clareza sobre o real impacto da sobretaxa, incluindo o detalhamento das classificações e regras para cargas em trânsito ou já negociadas.
“Entre as possíveis consequências estão a substituição de fornecedores brasileiros, a pressão pela redução de preços e margens e a renegociação de contratos, prazos e condições comerciais”, avalia.
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“Nota à imprensa sobre a imposição de tarifas unilaterais contra o Brasil pelos Estados Unidos
O dia 15 de julho de 2026 passará para a história das relações entre Brasil e EUA como um marco lastimável.
O governo brasileiro repudia a decisão anunciada hoje pelo governo dos EUA relativa à imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros, com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974.
Não há justificativa para medidas unilaterais contra o nosso país. Segundo estatísticas do próprio governo norte-americano, os EUA acumularam nos últimos 15 anos US$ 424,5 bilhões em superávit de bens e serviços com o Brasil.
Em 2025, 76% das importações originárias dos EUA entraram no país sem pagar imposto de importação, e a alíquota média efetivamente aplicada sobre produtos norte-americanos foi de apenas 3,1%.
O Brasil não reconhece a legitimidade de investigações sem amparo nas regras multilaterais de comércio. Apesar disso, nunca deixamos a mesa de negociação para defender os interesses nacionais.
Ao longo do último ano, o governo brasileiro atuou ininterruptamente junto ao Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) pelo encerramento das investigações baseadas na Seção 301, apresentando evidências que refutam cada uma das alegações sobre supostas práticas desleais de comércio adotadas pelo Brasil.
Demonstramos que são descabidas as alegações contra o PIX e a regulação de plataformas digitais, bem como são absurdas as acusações sobre desmatamento. O PIX é um patrimônio do nosso povo e referência internacional de infraestrutura pública digital. No Brasil, não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas. A liberdade de expressão não é carta branca para a criminalidade. O mundo inteiro sabe que, a partir de 2023, combatemos de forma incisiva os ilícitos ambientais e reduzimos drasticamente o desmatamento em todos os biomas brasileiros.
Nas audiências públicas promovidas pelo USTR na semana passada, 63 das 78 intervenções feitas por representantes do setor privado brasileiro e norte-americano foram contrárias ao tarifaço.
O governo do Brasil seguirá adotando medidas para reduzir os danos causados à economia e à renda dos brasileiros. Continuaremos a diversificar parcerias comerciais e a abrir novos mercados para nossos produtos, como fizemos ao firmar acordos do MERCOSUL com a União Europeia, a Associação Europeia de Livre Comércio e Singapura.
Por meio do Plano Brasil Soberano, manteremos medidas de proteção aos setores afetados por tarifas ilegais e arbitrariamente impostas pelo governo dos EUA, preservando empregos e a capacidade produtiva nacional.
O Brasil iniciará imediatamente os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada por unanimidade pelo Congresso Nacional, e retomará o tema no âmbito do mecanismo de solução de controvérsias da OMC.
É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros.
Não se pode amar o Brasil apenas quando vencemos eleições. Proteger a nossa soberania é uma obrigação que está acima de todos os partidos e todas as tendências. O governo brasileiro não vacilará em seu dever de preservá-la.”


