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Inteligência Artificial do Google atua como ‘segundo cérebro’ no SUS para desvendar tumores raros no interior do Paraná

IA atuou de forma integrada às reuniões multidisciplinares da equipe médica (Tumor Board), cruzando dados moleculares complexos em tempo recorde (Foto: Magnific/Reprodução)

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O diagnóstico de um Carcinoma de Sítio Primário Oculto (CUP) representa um dos tabus mais complexos da oncologia moderna. Identificar tumores metastáticos espalhados pelo corpo sem que os exames tradicionais consigam rastrear onde a doença começou é um desafio que, historicamente, exige tempo, um ativo escasso para pacientes com câncer. No centro-sul do Paraná, contudo, a tecnologia de ponta global e a articulação pública transformaram essa realidade dentro do Sistema Único de Saúde (SUS).

Aos 49 anos, Cleverson Ramos de Col enfrentava exatamente esse diagnóstico desafiador, com metástases detectadas nos linfonodos, ossos e pleura. A resposta para o direcionamento assertivo do seu tratamento não veio de uma capital médica tradicional, mas sim do Hospital São Vicente, localizado no ecossistema de saúde da Cidade dos Lagos, em Guarapuava (PR). O diferencial foi a aplicação prática do Projeto Capricórnio, uma plataforma de Inteligência Artificial desenvolvida pelo Google e trazida de forma pioneira ao hospital através de uma iniciativa estratégica do Governo do Estado do Paraná.

O “Segundo Cérebro” no Tumor Board

Na prática, a IA atuou de forma integrada às reuniões multidisciplinares da equipe médica (Tumor Board), cruzando dados moleculares complexos em tempo recorde. O tumor de Cleverson exibia uma assinatura imunohistoquímica raríssima e atípica (CDX2 positivo com CK7 e CK20 negativos). A IA mapeou a literatura científica mundial para correlacionar o perfil, validando a quimioterapia direcionada ao trato gastrointestinal superior.

A ferramenta também alertou os especialistas para uma correlação frequente deste padrão atípico com a instabilidade genômica (dMMR/MSI-H), permitindo a solicitação imediata de um painel genético focado que pode viabilizar o uso de imunoterapia no futuro do paciente.

“A plataforma do projeto Capricórnio foi fundamental para a nossa tomada de decisão”, explica o oncologista Nelson Morozini. “A IA funcionou como um ‘segundo cérebro’ no nosso Tumor Board. Ela não substitui o médico, mas acelera o acesso a dados científicos complexos, garantindo que um paciente com um tumor raríssimo no SUS receba uma conduta altamente personalizada, comparável aos melhores centros privados do mundo”, ressalta Morozini.

Além do diagnóstico molecular, a tecnologia otimizou o suporte de custos e a tomada de decisões logísticas dentro do sistema público. Diante de uma progressão recente no tórax e de uma fratura de costela do paciente, a plataforma auxiliou os médicos a traçar uma estratégia custo-efetiva imediata: organizou evidências para a troca segura do esquema quimioterápico (migrando para Carboplatin + Paclitaxel), combinou a introdução de um reconstrutor ósseo (Ácido Zoledrônico) para evitar novas fraturas e indicou o procedimento definitivo para o líquido no pulmão (pleurodese).

Descentralização tecnológica e inovação em saúde

O Hospital São Vicente na Cidade dos Lagos, que opera com 80% de sua capacidade voltada aos pacientes do SUS, consolida-se como um hub de tecnologia em saúde graças à infraestrutura oferecida pelo bairro planejado. O complexo, integrado a institutos de pesquisas genômicas e universidades, atrai parcerias que validam o impacto do ecossistema inteligente de Guarapuava.

“O Capricórnio é um exemplo claro de como a Inteligência Artificial (IA) pode transformar a relação do médico com a evidência científica. O que estabelecemos no Paraná é um modelo eficaz e que pode ser facilmente replicado em outras práticas clínicas, como neurologia e saúde da mulher”,  explica Priscila Cruzatti, especialista em inovação e saúde digital para o Brasil no Google Cloud. “Queremos garantir que profissionais de saúde em qualquer especialidade tenham acesso rápido e preciso ao conhecimento científico global para tomar decisões baseadas em dados”, reforça Priscila. 

Como funciona

O Capricórnio permite acessar de forma ágil todas as informações disponíveis no PubMed, o qual tem os seus dados armazenados em formato vetorial no BigQuery, plataforma de armazenamento e gerenciamento de dados do Google Cloud. O Gemini, então, atua como a camada conversacional que possibilita ao médico realizar buscas precisas em português e em linguagem natural para discussões de casos clínicos,  usando como fonte apenas os dados do PubMed, armazenados no BigQuery. 

O PubMed é um banco de dados global mantido pela Biblioteca Nacional de Medicina do National Institutes of Health, principal agência do governo dos EUA responsável por pesquisas biomédicas e de saúde pública – que contém mais de 35 milhões de artigos biomédicos e cresce de 1,5 milhão a 1,7 milhão de novos artigos biomédicos publicados por ano, o que significa que o volume total de conhecimento biomédico dobra a cada 73 dias.  

As buscas vetoriais no PubMed possibilitam aos médicos realizar pesquisas de maneira semântica, indo além do cruzamento de palavras-chave exatas. Isso tem um impacto relevante no tratamento, pois, com as buscas tradicionais, os pesquisadores podem perder um estudo de caso relacionado pelo simples fato de terem usado termos ligeiramente diferentes para descrever a mesma condição. 

Desenvolvido em parceria com médicos do Princess Máxima Center Oncologia Pediátrica de Utrecht, na Holanda, o projeto Capricórnio iniciou em abril deste ano nos hospitais do Paraná e tem sido usado para tratamento de todos os tipos de câncer, com a expectativa de estender sua aplicação para outras especialidades clínicas. 

Paraná na vanguarda

O projeto integra o programa Transforma IA, que abriga uma série de soluções de inteligência artificial que o Governo tem implementado para modernizar a gestão pública e melhorar os serviços oferecidos à população. A iniciativa prevê investimentos em projetos voltados a áreas como segurança pública, habitação, agricultura e educação.

Conforme o secretário da Inovação e Inteligência Artificial, Marcos Stamm, a ideia é expandir a tecnologia para outras unidades hospitalares do Paraná. “Estamos falando de combate ao câncer e a IA está nos dando esse instrumento. O projeto foi incubado e naturalmente os resultados começaram a sair. Junto com a Secretaria da Saúde, vamos estabelecer os critérios para ampliar a usabilidade da plataforma”, detalhou. 

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