A formação integral também produz efeitos no contexto familiar, uma vez que valoriza a educação emocional, o diálogo e o respeito às diferenças como elementos constitutivos do processo formativo. (Foto: Patricia Prudente/Unsplash )
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As imagens do pai que chutou a própria filha de apenas três anos, no Paraná, chocaram o país. Mas esse não é apenas um caso de polícia. É o retrato de uma cultura que, por muito tempo, confundiu autoridade com medo e educação com violência.
Ao assistir à cena, senti um nó no peito, tristeza e indignação. E uma pergunta não saiu da minha cabeça: como ainda há quem acredite que machucar uma criança ensina alguma coisa?
A ciência já comprovou que violência não ensina. A violência assusta, silencia, rompe vínculos e interfere no desenvolvimento do cérebro infantil. Durante anos, eu mesma reproduzi frases como “eu apanhei e não morri” e “tem que apanhar mesmo pra aprender”. Estudando comunicação não-violenta e educação respeitosa, entendi que sobreviver não significa crescer emocionalmente saudável.
Segundo Stephen Porges, criador da Teoria Polivagal, uma criança precisa da presença calma de um adulto para regular suas emoções. Quando esse adulto grita, ameaça ou agride, o cérebro infantil entra em estado de sobrevivência. Nesse momento, não existe aprendizado. Existe medo.
Jane Nelsen, autora da Disciplina Positiva, propõe uma mudança essencial: em vez de perguntar “como faço meu filho obedecer?”, devemos perguntar “o que ele precisa aprender para se tornar um adulto responsável?”. A resposta nunca será um tapa, um grito ou um chute. O caminho é ensinar e repetir a mesma coisa diversas vezes e ser exemplo.
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Enquanto muitos ainda defendem uma educação pautada no autoritarismo e nas “palmadas” e criticam a educação respeitosa, quero reforçar que uma educação que olha pra criança não é uma educação pautada na permissividade. Educação respeitosa é colocar limites com firmeza, sem humilhar. É corrigir sem ferir. É entender que uma criança de três anos chorando não está manipulando ninguém; ela apenas expressa emoções que ainda não sabe regular. Ela precisa de acolhimento, não de violência.
O Estatuto da Criança e do Adolescente, a Lei Menino Bernardo e a Lei Henry Borel reforçam um princípio básico: crianças não são propriedade dos pais. São sujeitos de direitos. Cada geração tem a oportunidade de interromper ciclos de violência. Hoje conhecemos os impactos do trauma e sabemos que vínculo gera cooperação, enquanto medo gera submissão.
Quem agride uma criança não demonstra força. Demonstra incapacidade de lidar com as próprias emoções diante de alguém indefeso. A verdadeira autoridade não está na mão que bate, mas na mão que acolhe. Porque toda criança merece crescer acreditando que o colo sempre será mais forte do que o chute.
Flavia Soares é jornalista e educadora parental.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos
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