“Ai, vou torcer para a Argentina”, diz o sujeito. E aí você pergunta por quê. Se bem que… por que você pergunta por quê? Não basta que o cara torça para a Argentina, vista a camisa da Argentina e saia por aí exaltando o futebol da Argentina? Você quer mesmo saber o motivo? Tem certeza? Então tá. Siga por sua própria conta e risco. “Por quê?”, você pergunta hesitantemente, arrependendo-se no íntimo, e ele responde que é por causa do Milei. Ou então que Buenos Aires tem não sei quantas livrarias e a Argentina tem não sei quantos Prêmios Nobel de Literatura.
O vinho, a empanada, o alfajor. Bariloche e Patagônia. Tango, Falklands, Mafalda. O brasileiro, subtipo torcedor-da-Argentina, vai usar todos os lugares-comuns possíveis para convencê-lo. Ou para se justificar. Mas atenção. Porque se você falar em cachaça, acarajé, brigadeiro, Ouro Preto, Lençóis Maranhenses e samba ele vai chamá-lo de Pacheco (pronuncia-se “Patchéco”). Vai acusá-lo de brasileirice aguda. Talvez chame até o país de Bostil e faça referência ao mítico QI 85. Triste, triste, triste. Profundamente triste é o brasileiro que torce para a Argentina porque odeia o país onde vive. Pior do que isso, só mesmo torcer para a França. Se bem que aí já é caso para camisa-de-força.
Auto-ódio
Torcer para a Argentina, e se vangloriar disso, é algo que alguns vêm fazendo há algum tempo. Um pouco por despeito. Outro tanto por trauma do 7×1. Pelo menos é o que ele diz no divã. E sabia que Buenos Aires é a capital com mais psicanalistas per capita do planeta? Tanto psicanalistas e nenhum para dizer que um brasileiro torcer para a Argentina é um mecanismo de defesa para lá de manjado. E imaturo. Essa coisa de ser do contra. De rebeldia. Contra suas raízes, suas origens, sua identidade nacional. Fingir felicidade para se proteger da decepção com tudo o que está errado e a gente não pode mudar. Isso e um bom tanto de auto-ódio.
Ora, torcer para a Argentina! Que conceito. Dizer que Messi é melhor do que Pelé. Celebrar a raça dos hermanos. Dar de ombros para os roubos da arbitragem. Ignorar a tradição de rivalidade. Passar a vergonha de celebrar um gol deles. Mesmo que seja de mão. Vestindo a camisa deles, ainda por cima. E o pior de tudo: saber que o sujeito se submete a isso por causa de política. Da ideologia que o sujeito nem percebeu, mas substituiu no coração dele algo extremamente valioso: a sensação de pertencer a um lugar comum, com uma cultura comum. Um lugar e uma cultura pelos quais vale lutar. ¡Qué tristeza!


