A preocupação do Ocidente e dos seus aliados com as capacidades nucleares da China aumentou na semana passada, quando Pequim testou um míssil balístico no Oceano Pacífico Sul, lançando-o de um submarino de propulsão nuclear.
Tal teste demonstrou a capacidade de tríade nuclear da China, ou seja, possuir sistemas nucleares terrestres, marítimos e aéreos.
“Quando um míssil balístico intercontinental é lançado a partir de um submarino nuclear, estamos falando de um teste ligado diretamente à capacidade de segunda resposta nuclear e, no caso da China, isso é especialmente significativo”, afirmou o coronel da reserva do Exército brasileiro Marco Antonio de Freitas Coutinho, especialista em relações internacionais e mestre em ciência política internacional, em entrevista à Gazeta do Povo.
O especialista explicou que a capacidade de segunda resposta é um conceito da doutrina nuclear e significa a habilidade de um país responder a um ataque nuclear mesmo depois de ter sido atingido primeiro.
“Tem tudo a ver com o conceito da Destruição Mutuamente Assegurada [MAD, na sigla em inglês]. Em outras palavras, é a garantia de que, mesmo sob um ataque surpresa, o país ainda consegue lançar um contra‑ataque devastador. Isso cria dissuasão, porque impede que o adversário acredite que pode ‘vencer’ destruindo tudo no primeiro golpe”, disse Coutinho.
O analista afirmou que hoje somente EUA e Rússia têm essa capacidade plena; o Reino Unido e a França a possuem de forma muito limitada. “A China contar com essa capacidade não é algo trivial”, ressaltou.
Em um momento em que a China aumenta as ameaças de anexar Taiwan, que considera uma província rebelde a ser reincorporada, e emite alertas aos Estados Unidos por apoiar a ilha, o país aumenta seu poderio nuclear.
Um relatório do think tank americano Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS) destacou que em um desfile militar em 3 de setembro do ano passado, em comemoração pelos 80 anos da vitória sobre o Japão na Segunda Guerra Mundial, o regime chinês revelou capacidades nucleares que podem atingir todo o território continental dos Estados Unidos, ao apresentar mísseis que podem ser disparados por terra, mar e ar.
O documento apontou que a China aumentou seu número de armas nucleares de 300 para 600 entre 2020 e 2025. O Departamento da Guerra dos EUA estima que os chineses terão mais de mil armas nucleares até 2030.
“A revelação de diversas capacidades nucleares capazes de atingir os Estados Unidos envia um sinal claro ao país de que o arsenal nuclear da China não é mais apenas uma força pequena e resiliente, mas sim uma capacidade de dissuasão robusta e diversificada, capaz de colocar em risco o território continental dos EUA”, alertou o CSIS.
Coutinho disse à Gazeta que “a base da segunda resposta está na existência de uma frota de submarinos nucleares com essa capacidade”.
“A base da frota chinesa era de submarinos de origem e tecnologia russa. Hoje, a China já avança para capacidades próprias. Avalio que a China deve ter obtido conhecimentos restritos russos nesse campo para avançar em seu programa, numa troca pelo apoio chinês que a Rússia vem obtendo”, afirmou o especialista.
EUA cobram que China discuta controle de armas
Na semana passada, após o lançamento do míssil a partir do submarino nuclear, o Departamento de Estado americano declarou por meio de um porta-voz que “o rápido e opaco aumento do arsenal nuclear de Pequim é motivo de grande preocupação para a região e para o mundo”.
A pasta instou Pequim “a participar de discussões significativas sobre o controle de armas”.
Países da região, como Austrália, Nova Zelândia e Japão, afirmaram que não receberam aviso prévio suficiente sobre o teste e que ele foi realizado sem “transparência”.
Além disso, o míssil caiu na Zona Livre de Armas Nucleares do Pacífico Sul, estabelecida pelo Acordo de Rarotonga de 1986, ratificado pela China em 1987 e que proíbe armas nucleares na região.
Por ora, porém, o teste não gerou reações mais incisivas. Coutinho disse que a pressão dos Estados Unidos e aliados sobre a China a respeito do programa de armas nucleares chinês pode aumentar, mas projetou que “será inócua”. “Mesmo sanções, a China tem muitas cartas na mão para respondê-las”, afirmou.
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