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Por que gangues quebra-vidros atuam há décadas nas mesmas regiões de São Paulo

A Polícia Militar apreendeu quatro adolescentes suspeitos de pelo menos dois roubos de celular pelo método “quebra-vidros” na última terça-feira (7), na região da Lapa, zona oeste de São Paulo. Os quatro tentaram fugir da abordagem e foram levados ao 7º Distrito Policial, apreendidos por ato infracional análogo a roubo de interior de veículo e associação criminosa.

O caso repete um padrão observado nos mesmos corredores da maior capital do país: vias congestionadas, semáforos fechados, onde o trânsito lento cria a janela de oportunidade para o crime.

Com o tráfego lento de veículos, jovens — muitas vezes menores de idade — surgem correndo, estilhaçam o vidro dos carros com uma vela de ignição automotiva, se debruçam na janela para pegar o aparelho e fogem correndo na contramão.

O que sustenta esse ciclo, segundo especialistas, não é a falta de flagrantes já que a polícia prende com frequência, mas a dificuldade de alcançar quem compra, desbloqueia e revende os aparelhos após o crime.

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A cadeia do crime por trás do vidro quebrado

Para o delegado Andre Santos Pereira, ex-presidente da Associação dos Delegados de Polícia do Estado de São Paulo (Adpesp), o ponto central é a substituição rápida do autor do crime. Lideranças de organizações criminosas usam adolescentes como “linha de frente” sabendo que, se capturados, tendem a ser liberados rapidamente.

André Fini Terçarolli, advogado criminalista e mestre em Direito Processual Penal pela PUC-SP, concorda com o diagnóstico, mas discorda do enquadramento. Para ele, o problema não é a ausência de punição prevista em lei, mas a falta de efetividade na execução das medidas já existentes. Os dois convergem num ponto: o problema real está na cadeia de receptação, que segue intacta enquanto se prende apenas quem quebra o vidro.

Um caso concreto ilustra esse cenário. Há mais de um ano, um usuário do Google Maps identificou um prédio no bairro da Liberdade, região central de São Paulo, com o nome “Laboratório de celular roubado atenção polícia”, depois que o sistema de geolocalização de seu aparelho, acessado remotamente após o roubo, apontou o endereço.

Nesta semana (6), a publicação reunia oito comentários de outros usuários relatando ter passado pela mesma experiência. Willian Lopes escreveu que o celular dele e de sua esposa “estão aí e a polícia diz que não pode fazer nada”, em comentário postado há quatro meses.

Alan Franca relatou ter tido o celular roubado em Curitiba, com a localização apontando para o mesmo endereço, em comentário publicado há cerca de um ano.

Segundo William Pimentel, advogado especialista em organizações criminosas, o caso é típico: mesmo com o endereço apontado por múltiplas vítimas ao longo de mais de um ano, a inviolabilidade do domicílio (art. 5º, XI, da Constituição) impede ação policial sem mandado judicial fundamentado em provas mais robustas do que a localização aproximada de um aplicativo.

“A pergunta central não é apenas por que a polícia não entra. A pergunta correta é se o Estado está produzindo prova suficiente para obter uma busca válida, proporcional e eficaz”, questiona ele.

Especialistas questionam a efetividade das medidas

Um dos motivos apontados pelos especialistas para a sensação de “porta giratória” está na própria classificação penal do flagrante. De acordo com o delegado Andre Santos Pereira, adolescentes flagrados no “quebra-vidros” costumam ser enquadrados inicialmente como autores de furto qualificado por destruição de obstáculo, e não de roubo, que pressupõe violência contra a pessoa.

Na prática, isso resulta em medida socioeducativa mais branda e retorno mais rápido às ruas, mesmo quando o crime segue o mesmo padrão do episódio da Lapa. “A polícia prende e recupera, mas o sistema solta”, resume. Mesmo com avanços operacionais como a operação Mobile e o programa SP Mobile, “o nó na ponta final da linha continua solto”, afirma Pereira.

Para o delegado, a persistência do problema tem três causas concretas: o tratamento dado a adolescentes pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), que raramente resulta em internação para crimes patrimoniais sem morte; a aplicação da audiência de custódia, que prioriza medidas cautelares diversas da prisão mesmo em casos de impacto financeiro relevante para a vítima; e a pena branda para receptação, que mantém o crime “economicamente viável e altamente lucrativo” mesmo com o recente aumento de penas.

Procurado pela Gazeta do Povo, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) informou que o Banco Nacional de Medidas Penais e Prisões (BNMP 3.0) não possui dados gerais nem específicos sobre reincidência.

Já a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) informou que atua na proteção social de adolescentes em situação de vulnerabilidade e, quando já há medida socioeducativa determinada pela Justiça, no acompanhamento por meio do Serviço de Medidas Socioeducativas em Meio Aberto (MSE-MA).

O que está sendo feito: operações estaduais, municipais e mudanças na lei

Em nota, a Secretaria da Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) afirmou ter intensificado o enfrentamento aos roubos e furtos de celulares por meio de ações integradas de inteligência, investigação e policiamento ostensivo. Segundo a pasta, os roubos de celular na capital caíram 16% entre janeiro e maio deste ano em comparação com o mesmo período de 2025 — queda maior que a registrada nos roubos em geral (12,89%) e nos furtos (1,88%) no mesmo intervalo. A SSP-SP informou ainda que mais de 19 mil pessoas foram presas ou apreendidas na cidade de São Paulo no período, e 1.167 armas foram retiradas de circulação.

A pasta informou que o programa SP Mobile recuperou mais de 28,4 mil celulares em todo o estado desde junho de 2025, dos quais cerca de 33% foram devolvidos aos donos. Citou também a Operação Contrafeixe, deflagrada em junho pela 2ª Delegacia da Divisão de Investigações sobre Crimes contra o Patrimônio (Disccpat), do Departamento de Operações Policiais Estratégicos (Deic), que cumpriu 19 mandados de busca e apreensão na capital contra investigados por roubos e furtos de celulares, com o objetivo de identificar outros integrantes das organizações e desarticular a estrutura do grupo.

A Prefeitura de São Paulo também afirma ter reforçado a atuação. Em nota, a Secretaria Municipal de Segurança Urbana (SMSU) informou que a Guarda Civil Metropolitana (GCM) intensificou o patrulhamento ostensivo em pontos estratégicos da capital, com ações específicas contra o quebra-vidros concentradas em eixos viários da região central, e atua de forma integrada com a Polícia Militar.

De acordo com a pasta, o trabalho é apoiado pelo programa Smart Sampa, que soma 50 mil câmeras na cidade — mais de 12 mil apenas na região central, com expansão contínua da cobertura nas áreas de maior incidência —, e pela Ronda Ostensiva Municipal (ROMU), reativada com mais de 300 agentes e 30 viaturas.

A GCM também mantém operações permanentes, como a Madrugada Segura e a Saturação. Em casos envolvendo menores, a SMSU afirmou que o procedimento segue as diretrizes do ECA, com condução à autoridade policial competente.

No campo legislativo, duas leis recentes miram o problema. A Lei nº 15.397/2026, em vigor desde maio, elevou a pena mínima do roubo simples de quatro para seis anos e criou uma causa de aumento para roubos de celulares e outros dispositivos eletrônicos, elevando o piso a cerca de oito anos. A receptação, crime de quem compra e revende os aparelhos, passou de um a quatro anos para dois a seis anos de pena.

Já a Lei nº 15.272/2025, em vigor desde o ano passado, estabelece medidas complementares de fiscalização.

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