Universidades brasileiras acumulam nos últimos anos episódios de cancelamento de eventos, agressão e expulsão de alunos, professores e convidados por divergência política ou ideológica, em especial contra pessoas associadas à direita e ao conservadorismo. No entanto, os principais presidenciáveis da oposição ainda não incorporaram o tema às suas agendas públicas de campanha.
Recentemente, a liberdade acadêmica virou assunto de uma disputa de manifestos entre professores universitários. Os pré-candidatos da direita já chegaram a tratar o ensino superior sob outros ângulos, como sua importância para a produtividade do país, mas nenhum abordou em postagens nas redes sociais, discursos ou entrevistas a crise do pluralismo e a onda de ideologização nas universidades.
O problema ganhou maior evidência em maio deste ano, quando professores e pesquisadores de universidades públicas lançaram o “Manifesto pelo Pluralismo e pela Liberdade Acadêmica”, cobrando medidas concretas para proteger o debate de ideias nas instituições de ensino superior.
O documento surgiu em meio a episódios de repressão a opiniões divergentes que, como destacam os autores, têm se tornado frequentes entre docentes e estudantes. “Quando professores selecionam e apresentam uma única visão de mundo, eles privam os estudantes da oportunidade de desenvolver fluência nas ideias acadêmicas que efetivamente dividem a sociedade”, dizem os signatários.
De outro lado, professores de esquerda escreveram um contramanifesto poucos dias depois negando a existência de censura crescente, e acusando o primeiro grupo de ressentimento diante da entrada de novos segmentos sociais na universidade. Os autores do contramanifesto, intitulado “Em Defesa do Pluralismo Encarnado”, querem que o conceito de pluralismo seja entendido de forma diferente: “um pluralismo que sustente a igualdade democrática e, ao defender o bem comum e a liberdade, o faça a partir da história de seu tempo, encarnada na igualdade e na democracia constitucional das lutas sociais”.
O tema é forte nas universidades, mas ainda não virou assunto entre o presidenciáveis em 2026. Em 2018, quando Jair Bolsonaro foi eleito presidente, seu programa afirmava que “um dos maiores males atuais é a forte doutrinação” e que “as universidades precisam gerar avanços técnicos para o Brasil, buscando formas de elevar a produtividade, a riqueza e o bem-estar da população”. Ele prometia “fomentar o empreendedorismo para que o jovem saia da faculdade pensando em abrir uma empresa”.
A reportagem questionou as principais pré-candidaturas da oposição sobre se reconhecem a existência de um problema de intolerância à divergência nas universidades, por que o assunto não tem sido tratado como prioridade e quais medidas propõem para proteger a liberdade acadêmica e o pluralismo nos campi.
A pré-candidatura de Ronaldo Caiado (PSD-GO) respondeu que “o plano de governo está em estruturação” e que “estão sendo ouvidos especialistas em diversas áreas”.
Caso as outras campanhas se manifestem, este texto será atualizado.
Sucessão de episódios envolvendo perseguição, agressão e expulsão revela gravidade da intolerância nas universidades
Desde 2024, a Gazeta do Povo tem registrado episódios que indicam o avanço da intolerância política, ideológica e religiosa dentro de universidades brasileiras. Os casos envolvem instituições públicas e privadas em temas sensíveis como costumes, cristianismo, Israel, Palestina, Supremo Tribunal Federal e a política brasileira.
Em março de 2024, o ativista de direita Kleber Ribeiro, atual vereador de Guarulhos, foi agredido na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) após exibir uma bandeira de Israel durante um evento pró-Palestina. Ele foi empurrado, agredido, ameaçado e expulso do local por estudantes. A universidade afirmou que ele era externo à comunidade acadêmica e estaria “prejudicando o andamento de uma atividade acadêmica”.
Em setembro do mesmo ano, a Universidade de Brasília (UnB) cancelou atividades que seriam ministradas pelo professor Jorge Gordin no Instituto de Ciência Política. O cancelamento ocorreu depois de pressão de alunos por postagens atribuídas a ele em defesa de Israel. Segundo a UnB, a decisão buscava garantir a segurança da comunidade universitária. O centro acadêmico comemorou a suspensão da participação do docente.
Um mês depois, em outubro de 2024, ativistas invadiram uma palestra sobre o conflito entre Israel e Palestina na Universidade Federal do Ceará (UFC), tomaram o microfone, usaram megafones e impediram a continuidade do evento. A mesa reunia pesquisadores com visões diferentes sobre o conflito.
Em 2025, o caso de Victor Henrique Ahlf Gomes, aluno de Direito da Universidade de São Paulo (USP), tornou-se um dos principais símbolos do debate sobre a liberdade acadêmica no Brasil. Com notas altas mas conhecido por suas posições de direita, ele foi expulso no fim do curso após um processo administrativo disciplinar (PAD) aberto a partir de uma desavença com uma ex-namorada, também aluna da faculdade. Segundo Victor e professores que tiveram acesso ao processo, o PAD extrapolou o episódio original e passou a investigar opiniões políticas, conversas privadas e supostas atitudes preconceituosas do estudante, com provas consideradas frágeis por docentes da própria USP. A punição o impediu de colar grau apesar de já ter concluído os créditos, ter média 9,1 e nota máxima no TCC.
Posteriormente, a Justiça anulou o PAD que resultou na expulsão. Em dezembro de 2025, o Tribunal de Justiça de São Paulo manteve a anulação do PAD e determinou que a USP concedesse o diploma ao aluno, apontando desproporcionalidade na punição. O caso motivou, em 2026, a apresentação na Assembleia Legislativa de São Paulo do PL 423/2026, chamado de Lei Victor Ahlf, que busca impedir o uso do poder disciplinar de universidades públicas como instrumento de perseguição ideológica.
Em março de 2025, a Universidade do Estado de Santa Catarina (Udesc) foi acusada de restringir a liberdade religiosa de estudantes evangélicos que relatavam dificuldades para realizar encontros de oração e estudo bíblico nas dependências da instituição. A universidade recebeu notificação extrajudicial da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (Anajure) após os relatos dos alunos.
Em maio de 2025, jovens de direita foram agredidos no campus do Gragoatá, da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói, após uma panfletagem. Segundo integrantes do grupo, militantes de esquerda os atacaram com pauladas, socos e chutes depois da distribuição de material com a frase “Na UFF, a direita se cria”.
Na UnB, o estudante Wilker Leão foi suspenso, condenado criminalmente e depois expulso após gravar aulas e denunciar doutrinação ideológica. Em junho, a universidade instaurou processo disciplinar, afastou o aluno por 180 dias e recomendou sua expulsão. Em setembro de 2025, a universidade determinou sua exclusão e o proibiu de realizar novas matrículas na instituição.
Também em setembro de 2025, o advogado Jeffrey Chiquini e o vereador de Curitiba Guilherme Kilter foram expulsos de um prédio da Universidade Federal do Paraná (UFPR), onde participariam de um evento sobre o Supremo Tribunal Federal. Estudantes contrários à participação dos dois impediram a palestra, houve empurrões, gritos de “recua, fascista”, e a Polícia Militar foi acionada. O evento acabou cancelado.
No mesmo mês, o professor Gabriel Cepaluni, da Unesp de Franca, foi cercado e hostilizado por estudantes ao chegar ao campus. Segundo relato do docente à Gazeta do Povo, ele foi chamado de “racista”, “fascista” e “assediador” e acabou agredido com empurrões e socos.
Em janeiro de 2026, o professor Tassos Lycurgo, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), denunciou perseguição ideológica após se tornar alvo de um abaixo-assinado organizado por estudantes e grupos militantes que pediam sua expulsão. Os organizadores o acusavam de racismo, transfobia e intolerância por conteúdos publicados em redes sociais.


