Samuel Johnson certa vez escreveu que “quando um homem se cansa de Londres, está cansado da vida”. Hoje, porém, parece haver um grupo que está realmente cansado de viver em Londres: os milionários.
Na última semana de junho de 2026, uma das mais famosas feiras de antiguidades do mundo, a Treasure House Fair, aconteceu em Londres, atraindo colecionadores e comerciantes de todo o mundo. Mas, neste ano, o que chamou atenção não foram apenas as antiguidades; foi a queda no fluxo de visitantes. Na ocasião, o The New York Times informou que “muitos comerciantes estão enfrentando uma queda significativa no movimento, ou já não conseguem sequer manter um showroom”.
A falta de clientes para itens de alto padrão indica uma mudança — o Reino Unido recentemente superou a China como líder mundial na emigração de milionários. Em 2025, cerca de 16.500 milionários deixaram o país. A China ficou em segundo lugar, com menos da metade desse número. Mas Samuel Johnson deveria observar que esses milionários não estão cansados da vida; estão cansados de um governo orientado por missões.
Quando o governo trabalhista chegou ao poder em 2024, tinha uma visão clara do modelo de governança que queria adotar: um governo orientado por missões. Seguindo os conselhos de Mariana Mazzucato (professora de Economia da Inovação e Valor Público na University College London), o governo abraçou a ideia de que o Estado deveria se tornar mais empreendedor, deixar de ver o gasto público apenas como despesa e subsidiar setores-chave em busca de uma economia dirigida por missões.
Após quase dois anos, uma lição ficou clara: nada é pior para os empreendedores do que um Estado empreendedor.
Um fato simples sobre a governança orientada por missões é que ela exige mais dinheiro — e esse dinheiro precisa vir de algum lugar. Desde que assumiu o poder, o governo introduziu £40 bilhões (aproximadamente R$ 273,6 bilhões) em aumentos de impostos em seu primeiro orçamento e acrescentou £186 bilhões (R$ 1,27 trilhão) à dívida nacional, que agora está próxima do PIB anual do Reino Unido.
O erro do Partido Trabalhista começou desde o início. Ele partiu da suposição de que o problema fundamental da Grã-Bretanha era simplesmente o fato de o governo não gastar o suficiente. A chanceler Rachel Reeves argumentou que “a única maneira de impulsionar o crescimento econômico é investir, investir, investir. Não há atalhos”. Mas a missão em que o governo de Reeves acredita não é necessariamente a mesma missão em que as empresas britânicas acreditam.
O modelo orientado por missões de Mariana Mazzucato tem atraído apoiadores de todo o espectro político — desde a direita nacionalista, que deseja revitalizar a indústria americana, até a esquerda, que busca atingir emissões líquidas zero ou reduzir a desigualdade. Mas o problema central permanece: qual missão devemos escolher?
A própria Mazzucato poderia priorizar metas como neutralidade de carbono, emprego inclusivo ou redução da desigualdade. Mas alcançar qualquer missão exige que o governo direcione os resultados econômicos. Como Friedrich Hayek alertou, “ser controlado em nossas atividades econômicas significa ser controlado em tudo”. Toda missão governamental exige direção estatal. No entanto, os governos não possuem o conhecimento necessário para determinar qual direção uma economia deve seguir, como a experiência do governo trabalhista já ilustra. Se os políticos realmente soubessem quais indústrias representam o futuro, provavelmente não estariam no governo. Como perguntou Deirdre McCloskey aos engenheiros sociais: se vocês são tão inteligentes a ponto de saber para onde a economia deve ir, por que não são ricos?
A consequência dessa abordagem orientada por missões tem sido uma busca cada vez maior por novas fontes de receita tributária. Como um ministro do gabinete teria reclamado em uma mensagem vazada de WhatsApp: “Toda reunião que tenho é sobre quem podemos taxar para pagar benefícios a outros”.
Essa mentalidade ajudou a expulsar milionários do Reino Unido, mas não se limita ao Partido Trabalhista. Em março de 2024, o governo conservador anterior aboliu o antigo regime tributário de “non-domicile”, encerrando isenções fiscais sobre rendimentos e ganhos no exterior. Em seguida vieram novos aumentos no imposto sobre ganhos de capital, imposto sobre herança e imposto corporativo. Alguém precisa pagar pela missão, suponho.
O cenário também parece cada vez mais incerto. O primeiro-ministro Sir Keir Starmer renunciou, e Andy Burnham, ex-prefeito de Manchester, é amplamente esperado como o próximo primeiro-ministro após retornar à Câmara dos Comuns ao vencer a eleição suplementar em Makerfield. O jornalista Andrew Neil certa vez comentou que toda vez que Burnham “abre a boca, ele aumenta o gasto público”.
Os mercados já não parecem confiar na direção fiscal do governo. Os rendimentos dos títulos públicos britânicos são agora os mais altos do G7, e os custos de financiamento que forçaram Liz Truss a deixar o cargo após menos de dois meses se tornaram o novo normal.
Mas o que o governo trabalhista precisa não é de mais gasto público. Precisa de uma teoria de crescimento. O crescimento não exige um Estado empreendedor. Exige um governo disposto a sair do caminho. O governo do Reino Unido quer ser empreendedor e ao mesmo tempo redistributivo, aumentar impostos e ainda assim permanecer amigável aos negócios. O provável próximo primeiro-ministro descreveu sua ideologia, de forma reveladora, como “socialismo pró-negócios”.
O crescimento econômico não surge dos escritórios de Whitehall. Ele nasce nas garagens, oficinas e startups dos empreendedores. O crescimento tem fundamentos microeconômicos: as empresas assumem riscos porque esperam desfrutar das recompensas do sucesso, não vê-las redistribuídas para outros.
O governo não precisa empurrar os empreendedores, atribuir-lhes missões ou direcionar seus investimentos. O que a professora Mazzucato e o governo trabalhista não conseguem perceber é que a grande força do livre mercado é justamente não ter uma única missão ou plano mestre. Em vez disso, ele é guiado por milhões de indivíduos perseguindo diferentes planos, cada um testado pela concorrência. A Grã-Bretanha deveria, mais uma vez, abraçar a autonomia individual na vida econômica e rejeitar políticos que acreditam saber melhor do que todos os outros qual direção a economia deve tomar.
Mani Basharzad é pesquisador do Institute of Economic Affairs, um instituto britânico voltado a estudos de economia e políticas públicas, e também integra o programa Asia Freedom da London School of Economics.
©2026 Foundation for Economic Education. Publicado com permissão. Original em inglês: Why Are Millionaires Leaving the UK?


