Quem tem acompanhado o estado da indústria cultural nos últimos anos já sabe: nem as obras clássicas estão a salvo da militância progressista.
A controvérsia da vez envolve a nova produção A Odisseia.
A atriz Lupita Nyong’o, que interpretará Helena de Tróia, o arquétipo da beleza grega, fez declarações que acentuaram o receio de quem já suspeitava do filme.
Segundo a atriz, a obra original de Homero, considerada um dos pilares da cultura ocidental, é masculina demais. Em entrevista ao canal DC Film Girl, a atriz disse que a adaptação de Christopher Nolan irá reconsiderar a história sob a perspectiva feminina: “Quando você lê a Ilíada e a Odisseia, muito pouco tempo é dedicado à perspectiva das mulheres. A história é contada sob um ponto de vista muito masculino. Mas este filme dedica tempo para realmente considerar as coisas sob a perspectiva feminina. Assim, vemos em Helena e Clitemnestra como essa guerra afetou ambas”, disse.
Em outra entrevista para o programa Jake’s Takes, do jornalista Jake Hamilton, o entrevistador propôs ao elenco uma hipótese: “Se vocês estivessem sentados em um cinema ao lado de Homero e pudessem fazer uma pergunta a ele sobre a atuação de vocês, o que perguntariam?”
Lupita Nyong’o respondeu: “Então, Homero, o que você acha do tempo de tela dado a essas mulheres, considerando quão pouco tempo você dedicou a elas?”.
Representação autêntica para uns; liberdade criativa para outros
Além da representação feminina, a atriz comentou recentemente a representação racial no filme. Ao tratar de A Odisseia, afirmou que “nosso elenco é representativo do mundo”. A declaração chamou atenção porque, durante a divulgação de Pantera Negra, Lupita defendeu a importância de representações precisas e autênticas da cultura africana no cinema. A comparação levou parte do público a apontar uma aparente contradição.
Nolan também revelou à revista Time que o rapper Travis Scott interpretará um aedo (poeta e cantor da tradição oral da Grécia Antiga). O diretor defendeu a escolha do rapper como uma forma de homenagear a tradição poética. “Escalei Travis porque queria fazer uma referência à ideia de que essa história foi transmitida por meio da poesia oral, algo que considero análogo ao rap”, afirmou Nolan à Time.
As escolhas da produção não pararam por aí. Nas imagens divulgadas até agora, os personagens utilizam expressões do inglês americano moderno, como “Let’s go” e “Daddy”. Um jornalista do The Hollywood Reporter resumiu sua impressão sobre o trailer em uma frase que rapidamente repercutiu nas redes sociais: “Todo mundo parece ser de Ohio.”
A fidelidade à obra original cede lugar ao ativismo cultural
O filme de Nolan não pretende ser fiel à obra de Homero. Como observou a jornalista grega Chris Cotonou, em artigo publicado no The Guardian: “O elenco de A Odisseia foi escolhido para representar o mundo. Tudo bem, exceto pelo fato de que um país específico parece ter sido completamente esquecido.” A crítica resume a percepção de boa parte dos gregos de que a adaptação demonstra pouca preocupação com a autenticidade cultural da obra.
Nas escolas gregas, crianças aprendem a recitar trechos dos poemas homéricos em grego antigo e expressões presentes na Ilíada e na Odisseia ainda fazem parte do cotidiano. Mais do que clássicos da literatura universal, essas obras milenares ocupam um lugar central na identidade nacional grega e moldaram profundamente a cultura ocidental como a conhecemos.
A quebra de expectativa não agradou aos gregos e nem aos troianos. O trailer de A Odisseia tornou-se nos últimos dias o segundo mais rejeitado da história no YouTube.
As críticas também vão além da nacionalidade do elenco. A escolha de apenas atores gregos nunca foi uma expectativa realista. Ainda assim, escalar ao menos um ator ou atriz grego para um papel de destaque seria visto por muitos como um gesto de respeito ao país que deu origem à obra.
Há, porém, uma crítica mais profunda. Homero descreve os diferentes povos que aparecem em seus poemas distinguindo-os não apenas por sua origem, mas também por suas características físicas. Os gregos possuem um padrão físico relativamente bem definido ao longo da narrativa, assim como os povos da Ásia e da África. Quando a adaptação opta por ignorar essas descrições, transmite a percepção de que a fidelidade à obra original deixou de ser uma prioridade.
O limite entre adaptar e reescrever
Considerado um dos pioneiros das grandes adaptações literárias em Hollywood, Lewis Milestone (1895–1980) foi um dos mais respeitados cineastas da Era de Ouro do cinema e vencedor de dois Oscars de Melhor Diretor. Sua filmografia reúne clássicos como Nada de Novo no Front (1930), Os Miseráveis (1952) e Onze Homens e um Segredo (1960), obras que marcaram a história do cinema e, em diferentes momentos, deram origem a novas adaptações.
Para Milestone, adaptar uma obra significava traduzi-la para a linguagem cinematográfica sem substituir a visão concebida por seu autor. Ele sintetizou: “Ao longo de toda a minha carreira, procurei não tanto expressar uma filosofia própria, mas traduzir para a linguagem cinematográfica aquilo que o autor da obra que escolhi está tentando dizer.” A frase resume um princípio fundamental da adaptação cinematográfica: servir à obra original, e não reescrevê-la segundo a visão do diretor.
Uma viagem a uma Grécia sem gregos
A pergunta que fica é se a obra de Nolan ainda pode ser chamada de adaptação. Em que momento uma adaptação deixa de adaptar e passa apenas a se inspirar na obra original? O quanto um filme pode alterar personagens, contexto, linguagem e mensagem antes de deixar de ser reconhecido como a obra que afirma representar?
A Odisseia estreia nos cinemas brasileiros em 16 de julho de 2026. Antes mesmo do lançamento, a produção já entrou para a história como o primeiro longa inteiramente filmado em IMAX 70 mm, utilizando uma nova geração de câmeras desenvolvidas especialmente para o projeto e apostando em locações reais e efeitos práticos.
Resta saber se a ousadia ficará restrita aos avanços técnicos e à escolha do elenco, ou se também alcançará o roteiro. Christopher Nolan deve entregar um grande espetáculo visual. A dúvida é se ainda estará entregando a Odisseia de Homero.


