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Chega de lições de moral e teses sociológicas sobre a derrota do Brasil         

Torcedores no Rio de Janeiro depois da derrota do Brasil para a Noruega, na Copa do Mundo. (Foto: André Coelho/EFE)

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Que coisa impertinente a chuva de posts e textos sugerindo que devemos tirar lições da derrota do Brasil na Copa. É claro que um acontecimento assim pode trazer ensinamentos sobre gestão de pessoas, filosofia de trabalho, cultura organizacional ou algum outro campo da convivência. Ou sobre a natureza do brasileiro, nosso modo de ser ou as diferenças geracionais entre os mais velhos e os mais jovens. E quem sabe se possa aprender sobre os efeitos das redes sociais e a ética de “influencer” sobre os jogadores. Talvez até se possa derivar algo de muito valoroso na derrota. Contudo, é muito desagradável ter de tirar profundos aprendizados de algo que deveria justamente ser uma válvula de escape para os cansados brasileiros.

O futebol é, antes de tudo, paixão e entretenimento. É um espaço e um tempo que temos para justamente tirar a cabeça das mazelas e dificuldades da vida. Ali, com a bola rolando, só importa isso: o jogo. E até a derrota deve ser única e exclusivamente a derrota no jogo. Se não for assim, o futebol não serve para ocupar o espaço dos nossos sofrimentos diários; ele termina se somando a eles e os multiplicando.

O dia a dia já é cheio de derrotas coletivas nesse nosso Brasil. Perdemos quando a Lava Jato foi arquivada, esfarelada. Perdemos quando o teto de gastos foi para as cucuias. Perdemos quando as redes sociais foram regulamentadas sem lei. Perdemos quando fomos tarifados por outros governos, sim, e perdemos muito mais quando fomos taxados por nosso próprio governo. Perdemos quando a Constituição é driblada.

Do futebol, quero apenas alegria na vitória. E quero o sofrimento na derrota – assim, puro, despido de elocubrações. Dói perder, e alegra ganhar. E ponto

Perdemos quando as escolas formam analfabetos funcionais. Quando a produtividade e a renda não alcançam o custo de vida… perdemos, perdemos e perdemos. Você já entendeu.

Por que assistir ao futebol, então? Para não pensar nisso tudo. Para desfrutar de uma pausa, de uma espécie de folga mental onde nada disso importa. Lá, no reino encantado da camisa verde-amarela, somos os melhores, ou podemos ser. No gramado, tudo pode acontecer. As causas e efeitos são imediatas, as emoções são plenas e inequívocas. Se fazemos o gol, a alegria é instantânea. Não tem “mas” nem “talvez”. Se sofremos o gol, não há dúvidas, nem divergências. É ruim, e ruim pra todo mundo.

Por isso é tão desagradável ler teses sociológicas a partir da eliminação para a Noruega. Sabemos que a Noruega é um país muito mais desenvolvido, educado, rico, seguro. Mais civilizado, até. Mas ali no campo, não interessa. Contra o Haiti ou a Noruega, nosso sentimento é o mesmo. Queremos a vitória, e poderíamos tê-la alcançado.

Na torcida estamos juntos. Amanhã ou depois voltamos às teses, às divisões, às divergências. Daqui a pouco pensaremos na eleição e na derrota ou vitória das urnas – essas, sim, sempre ensinam e ensejam tratados e artigos.

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Do futebol, quero apenas alegria na vitória. E quero o sofrimento na derrota – assim, puro, despido de elocubrações. Dói perder, e alegra ganhar. E ponto. Vida de torcedor não é fácil, mas é relativamente simples – e ajuda a escapar da complexa vida de cidadão.

É por tudo isso que é imperdoável o que a Fifa e a CBF fizeram com o futebol. Estão tomando uma de nossas poucas câmaras de descompressão, e a estão mergulhando no mar de lama que já banha o resto de nossa vida em sociedade. Corrupção, política, a cor da camisa, o contrato de patrocínio, as bets, o ministro que nomeia dirigentes, tudo ao redor do futebol não nos deixa mais simplesmente desligar a cabeça e curtir o jogo.

Perdemos a partida, perdemos a Copa. Infelizmente, estamos perdendo nosso esporte, nosso lazer. E se o futebol brasileiro não for logo recuperado pelos que o amam como esporte, e não só como negócio, ele não será nunca mais um  entretenimento, uma diversão. O futebol já não poderá ser o que nos une. Ele será apenas mais um de nossos problemas.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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