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O fiasco da seleção instagramável

Seleção brasileira reunida para foto oficial na Copa do Mundo FIFA 2026. (Foto: Sebastião Moreira/EFE)

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O Brasil foi desclassificado nas oitavas de final da Copa pela Noruega, mas não perdeu o brilho. Logo após o jogo, brilhavam nas entrevistas os brincos reluzentes dos nossos craques. Eles estavam impecáveis em seus penteados vistosos, prontos para voltar para casa — isto é, para a Europa.

Como já havia declarado um deles, em desabafo sobre o calendário estafante, são trabalhadores que precisam ter suas férias respeitadas. Nesse sentido, pode-se dizer que a Noruega deu uma bela contribuição trabalhista para a seleção canarinho — ou “canary”, como ensinou uma funcionária do patrocinador, brasileira que também não mora no Brasil. Aqui, pelo visto, só ficaram os que sofrem sonhando com o hexa.

Mas nada de caça às bruxas. Os jogadores da seleção brasileira estão na deles — que não é a seleção brasileira. A deles é a vida abastada dos clubes europeus que os contrataram com salários polpudos. A seleção é uma espécie de passarela, uma aventura instagramável. Até meio exótica, comparada ao dia a dia dos campeonatos europeus — ali, sim, o lugar da labuta brava, onde os resultados condicionam diretamente o ganha-pão (e bota pão nisso).

Com o tempo, a seleção brasileira foi perdendo a alma. Mas não dá para culpar os jogadores atuais por isso. A maioria deles já nasceu com esse processo em andamento

A primeira tentativa de conquistar o hexa foi em 2006, na Alemanha. Já ali havia uma escalada de afetação na atmosfera da seleção, com os heróis do penta preocupados em cultivar seu status e territórios cativos. Tudo isso era perceptível e se refletiu em campo, numa eliminação contra a França que não pode ser considerada surpreendente.

Não é dizer que os jogadores brasileiros de 2006 ou de 2026 não tenham se dedicado. A questão é que, mesmo com todo o profissionalismo, a defesa da seleção continha um espírito diferente, quase amador. Fora o fato de que o sucesso na seleção influenciava decisivamente a carreira dos jogadores. Hoje é o contrário: os jogadores são convocados para a seleção porque fizeram sucesso em clubes europeus — e já estão, portanto, com a carreira bem encaminhada.

Ninguém pode ser considerado um analfabeto em futebol se tiver ouvido falar pela primeira vez de alguns jogadores da seleção só na Copa. São carreiras que não chegaram a ter destaque no futebol brasileiro, com a captura precoce pelos olheiros europeus. E que deram certo na Europa sem tanto destaque. O público sempre é receptivo aos seus representantes de chuteiras, mas é normal que não tenha tanta identificação com quem mal conhece.

O fato é que a liga entre povo, seleção e jogadores tem hoje alguns intermediários decisivos — que estão mais na esfera de objetivos pessoais movidos a notoriedade digital e inserção estrangeira. Montar um time com jogadores que voltem a sentir como realização máxima a conquista de uma Copa do Mundo para o seu país talvez não seja mais viável hoje no Brasil.

O último a conseguir reconstituir esse espírito já em tempos de “europeização” foi Luís Felipe Scolari em 2002. A chamada “Família Scolari” era um colosso de vibração e entrega. Depois, o próprio Felipão foi vencido pelo espírito “seleção-passarela” em 2014, redundando no chocante 7 x 1 para a Alemanha em pleno Brasil.

Talvez os jogadores de hoje desejem retomar o espírito mágico da seleção mais vencedora do mundo, mas não saibam como. Normal. Pelé e Garrincha não tinham sobrenome — muito menos cabeleireiro. E, como diria João Saldanha, iam na bola como quem vai num prato de comida. Outros tempos.

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