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Qual o futuro dos medicamentos contra a obesidade como o Mounjaro

O primeiro trimestre de 2026 consolidou os números que vinham sendo desenhados ao longo de 2025: a hegemonia da liderança do Mounjaro (tirzepatida), da Eli Lilly, entre os medicamentos para emagrecer. No ano passado, o produto já havia entregue mais de US$ 11 bilhões em vendas adicionais, um feito raro para uma indústria acostumada a blockbusters, mas desacostumada a tal velocidade. No primeiro trimestre de 2026, a Lilly reportou US$ 8,662 bilhões em vendas globais de Mounjaro, um crescimento de 125%, atingindo a marca de quase US$ 5 bilhões adicionais em vendas em relação ao mesmo período do ano passado.

Não estamos diante apenas de um medicamento de sucesso, o Mounjaro; estamos diante de uma molécula que, em poucos trimestres, passou a gerar receita superior à de muitas corporações inteiras do setor. Quando um ativo atinge essa escala e se desdobra em indicações que vão da obesidade à apneia do sono e às doenças cardiovasculares, ele deixa de ser apenas um produto. Torna-se plataforma.

A Novo Nordisk mostra o outro lado dessa transformação. Seu balanço do primeiro trimestre apresentou uma fotografia mais complexa. As vendas reportadas cresceram 32% em câmbio constante, mas foram positivamente impactadas por uma reversão não recorrente de provisão relacionada ao programa 340B, nos Estados Unidos – mecanismo pelo qual determinados hospitais e clínicas que atendem populações vulneráveis podem comprar medicamentos com descontos obrigatórios.

O grande recado de 2026 é que o mercado dos GLP-1 ainda tem muito a explorar, tanto na aceleração da adoção e do acesso quanto na melhoria da adesão e da preferência do paciente

Excluído esse efeito contábil, as vendas ajustadas caíram 4% em câmbio constante, pressionadas por preços realizados menores, apesar do crescimento de volume dos GLP-1 em várias geografias.

A resposta da Novo à competição com o Mounjaro é a conveniência. O lançamento do Wegovy Pill nos EUA, em janeiro de 2026, registrou um volume histórico: mais de 2 milhões de prescrições desde o lançamento, com semanas superando as 200 mil prescrições. Esse dado prova que a competição não será apenas entre moléculas, mas entre vias de administração e experiência do paciente.

Contudo, o sucesso comercial da versão oral enfrenta um desafio – e uma oportunidade: a adesão ao tratamento. Dados de “mundo real” indicam que mais de 45% dos pacientes que iniciam o uso de formulações subcutâneas acabam descontinuando o tratamento dentro do primeiro ano. Essa “fuga” terapêutica é impulsionada não apenas por barreiras de acesso e custo, mas também por eventos adversos e pelo comportamento do paciente. Vamos observar, nos próximos meses, como se comportará o paciente e quais serão suas preferências.

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Outra tendência é o uso da medicina de precisão para identificar qual perfil de paciente pode mais se beneficiar dessa classe de medicamento. O sucesso do “Go Big” (escala) agora abre caminho para o “Go Precise”. Um estudo publicado na Nature, com quase 28 mil pacientes, identificou que variantes genéticas no receptor GLP1R estão associadas a uma maior eficácia de perda de peso (estimada em adicionais -0,76 kg por cópia do alelo de efeito). A hipótese ainda é preliminar, mas abre caminho para mais estudos nessa área.

Um segundo dado, agora da Hepta, startup americana de biotecnologia que trabalha com biópsia líquida para doenças crônicas, começando por MASH – sigla em inglês para esteato-hepatite associada à disfunção metabólica, uma forma progressiva de doença hepática gordurosa ligada à obesidade, diabetes e risco cardiometabólico –, apresentou recentemente resultados que mostram que a tecnologia poderia prever a resposta ao tratamento com semaglutida nessa patologia antes mesmo da primeira dose, identificando padrões biológicos que distinguem respondedores de não respondedores.

O grande recado de 2026 é que o mercado dos GLP-1, do Mounjaro, do Wegovy Pill e tantos outros, ainda tem muito a explorar, tanto na aceleração da adoção e do acesso quanto na melhoria da adesão e da preferência do paciente, assim como na ampliação da precisão: o tratamento correto para o paciente certo.

Antonio Carlos Matos da Silva é mestre em Farmácia, mestrando em Gestão e Políticas Públicas pela FGV-EAESP e especialista em acesso à inovação em saúde. Possui MBA em HealthTech pela FIAP e mais de duas décadas de experiência em alta gestão no setor de saúde. Conselheiro independente associado ao IBGC.

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