A menos de 100 dias das eleições, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta um impasse político que ameaça duas das principais vitrines da futura campanha à reeleição petista. Apesar de acelerar a liberação de R$ 23,9 bilhões em emendas parlamentares e substituir Jaques Wagner (PT-BA) por Teresa Leitão (PT-PE) na liderança do governo no Senado, o Palácio do Planalto ainda não conseguiu reconstruir a relação com o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), de quem dependem o avanço das PECs da Segurança Pública e do fim da escala 6×1.
Integrantes do PT apostam na aprovação das duas propostas antes da eleição de outubro para que Lula explore os temas na campanha. A PEC da Segurança, por exemplo, é tratada como uma resposta às cobranças por ações de combate ao crime. O segmento é responsável pela pior avaliação do governo, segundo pesquisa Nexus do mês de junho.
De acordo com o levantamento, 29% dos entrevistados ressaltam a segurança pública, a violência e a criminalidade como os principais problemas da gestão petista. A saúde pública vem na sequência, com 26%, mesmo índice da preocupação com a corrupção.
- Metodologia: A Nexus ouviu 2.009 pessoas em todo o país entre os dias 26 e 28 de junho. A margem de erro é de dois pontos percentuais, para mais ou para menos, com nível de confiança de 95%. A pesquisa foi registrada na Justiça Eleitoral sob o número BR-05821/2026.
Cenário pressiona nova líder do governo no Senado
Apesar dos planos do Planalto, as duas propostas continuam paradas na mesa de Alcolumbre e nem foram despachadas para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), primeira etapa da tramitação no Senado. Com o recesso parlamentar previsto para começar no fim da próxima semana e o calendário eleitoral reduzindo o ritmo das votações, integrantes do governo já admitem que dificilmente os textos serão aprovados antes das eleições.
O cenário aumenta a pressão sobre a nova líder do governo no Senado, Teresa Leitão, que assumiu o cargo com a missão de reconstruir a interlocução entre o Palácio do Planalto e Davi Alcolumbre. Embora os dois tenham se reunido duas vezes na última semana e sinalizado disposição para retomar o diálogo, interlocutores do governo e líderes do Senado avaliam que a reaproximação institucional ainda não foi suficiente para destravar as propostas consideradas prioritárias por Lula.
Leitão trabalha com a hipótese de que a PEC que acaba com a escala 6×1 seja votada entre o fim do recesso parlamentar e o início oficial da campanha eleitoral. Ou seja, além de tramitar pelas comissões da Casa, a PEC teria que ser aprovada pelos senadores entre os dias 3 e 14 de agosto para ter efeito nos próximos meses, o que é considerado um trunfo eleitoral por Lula.
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Emendas bilionárias não reabrem caminho para PECs no Senado
Em meio às tratativas da nova líder, o governo acelerou a liberação de emendas parlamentares diante da proximidade do período eleitoral, que restringe novos repasses. Até a última sexta-feira (3), os ministérios haviam pago R$ 23,9 bilhões, o equivalente a 48% dos R$ 49,9 bilhões previstos no orçamento deste ano.
O volume é superior ao registrado no mesmo período de 2025, quando os pagamentos não chegaram a R$ 500 milhões. Conforme apuração da Gazeta do Povo, um dos objetivos do pagamento recorde foi cumprir a Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO), que determina o pagamento de 65% das emendas individuais e de bancada destinadas a áreas como saúde e assistência social até o fim de junho.
O segundo objetivo foi antecipar os repasses antes do início do chamado defeso eleitoral, que restringe a emissão de ordens de pagamento para novos contratos a partir de três meses antes da eleição. Apesar do esforço para fortalecer a relação com o Congresso, a estratégia não foi suficiente para destravar a pauta prioritária do governo no Senado.
Para a cientista política Letícia Mendes, especialista em Legislativo da BMJ Consultores Associados, propostas como a PEC da Segurança Pública e o fim da escala 6×1 ganham ainda mais importância no ano eleitoral justamente porque demonstram resultados concretos aos eleitores.
“O Congresso tende a direcionar seus trabalhos para pautas que o eleitor consiga observar no dia a dia. São propostas que permitem ao parlamentar mostrar que participou da articulação ou da aprovação de uma medida com impacto concreto na vida da população”, afirma.
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Rompimento entre Lula e Alcolumbre esvazia articulação do governo
O desgaste na relação entre Lula e Alcolumbre começou após a rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), no fim de abril. Desde então, integrantes do Planalto e do Senado avaliam que a interlocução política perdeu força e que as principais decisões sobre a pauta passaram a depender diretamente de uma reaproximação entre o petista e o presidente da Casa.
Alcolumbre já avisou ao Palácio do Planalto que aceita um encontro com Lula, mas o presidente da República deve tomar a iniciativa de convidá-lo para uma reunião. Assessores do Planalto, no entanto, admitem que, no momento, não há interesse do petista em se encontrar com o senador.
Em meio ao embate, a senadora Teresa Leitão foi escolhida por Lula para substituir Jaques Wagner (PT-BA) na liderança do governo no Senado, após o senador baiano deixar o cargo em meio à operação Compliance Zero. A investigação da Polícia Federal apura supostas ligações do parlamentar com o empresário Augusto Lima, ex-sócio do Banco Master.
Leitão se reuniu duas vezes com Alcolumbre para tentar reconstruir a interlocução entre o Palácio do Planalto e o comando do Senado. Durante sessão no plenário, o presidente da Casa elogiou a capacidade de articulação da nova líder e afirmou que ela terá uma “missão muito importante” na interlocução entre os Poderes.
“Reconheço a sua capacidade de articulação. Tenho convicção absoluta de que compreendeu o papel do chefe de Poder e presidente do Congresso Nacional”, disse.
Ao agradecer a reunião, Teresa afirmou que pretende exercer a liderança tendo o diálogo como “método permanente” e que buscará “construir pontes” com todas as bancadas. A senadora também defendeu uma “relação de cooperação institucional, respeito recíproco e busca permanente de entendimentos” com Alcolumbre.
Apesar dos gestos de distensão, o presidente do Senado não assumiu compromisso com um calendário para analisar as PECs da Segurança Pública e do fim da escala 6×1, prioridades do governo. “O calendário da PEC não é eleitoral, mas é um calendário parlamentar, do Congresso. Com toda boa vontade, com toda consciência da importância desta PEC, porque nada é melhor do que o diálogo, do que ouvir as pessoas, do que analisar a conjuntura para obtermos esta vitória”, minimizou a líder do governo.
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