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Carta de “católicos do PT” é pura enganação

No encontro de católicos petistas, a maior imagem presente ali não era da Virgem Maria, nem do Crucificado. (Foto: PT/Divulgação)

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No Brasil, ninguém faz tanto milagre entre junho e agosto dos anos pares quanto Santa Pilili. Políticos que passam um tempão afastados da Igreja subitamente se convertem, participam de procissão, festa do padroeiro, vão à missa e até comungam (entrar na fila da confissão acho que é demais até para os superpoderes sazonais da santa)! E aí aparecem as mensagens e cartas dirigidas aos cristãos, para convencê-los de que o candidato tal é o que encarna melhor os valores de evangélicos e católicos. Pouco importa que essas cartas tenham validade muito curta, como mostraram meus colegas colunistas Thiago Vieira e Jean Regina outro dia; o que importa é enganar. É o que está fazendo o PT com a sua “Carta das Católicas e dos Católicos do PT ao povo brasileiro” (coitados dos catoliques, foram excluídos), publicada após um encontro chapa-branca.

É uma mensagem escrita por católicos petistas, dizendo por que eles votarão em Lula e os outros católicos deveriam votar também. O conteúdo é óbvio: defesa dos programas sociais do governo e aquele monte de clichês sobre “soberania”, “respeito às instituições”, “compromisso com a democracia” etc. etc. Os católicos petistas também dizem: “denunciamos condutas parlamentares que transformam igrejas em palanques e que traem o mandato recebido do povo ao se colocarem contra direitos sociais, trabalhistas e democráticos”. É aquele papo típico de Análise de Conjuntura: quando a dir… extrema direita fala em religião e se dirige aos cristãos, é “manipulação da fé”; quando a extrem… esquerda democrática, popular, linda e maravilhosa fala em religião e se dirige aos cristãos, é a aplicação do que Pio XI fala sobre a política ser a “forma mais perfeita da caridade”.

Procurem aí na carta dos petistas qualquer referência à proteção do nascituro. Não tem, certo? E não tem porque o PT é comprometido com a legalização do aborto

Mas vamos comparar essa carta com um texto muito, mas muito superior: o discurso do papa Leão XIV aos parlamentares espanhóis, um mês atrás. Ali, o pontífice afirmou:

“Toda a sociedade autenticamente justa edifica-se sobre o reconhecimento da dignidade inviolável da pessoa humana. Tal dignidade precede qualquer concessão do Estado e não pode ficar subordinada a consensos sociais mutáveis ou à oscilação das maiorias de cada momento. Pertence a todo o ser humano pelo simples fato de existir. (…) se a vida deixar de ser reconhecida como um valor fundamental, que futuro podem ter as nossas sociedades? Pode chamar-se plenamente justa uma comunidade que deixa na sombra a criança ainda não nascida, o idoso, o doente, quem sofre em silêncio ou quem depende inteiramente do cuidado dos outros? A defesa da vida humana não é uma questão parcial nem um interesse confessional: é uma meta de civilização. Toda a vida humana deve ser reconhecida e guardada desde a sua concepção até ao seu ocaso natural, em cada circunstância da sua existência. Quando esta certeza se obscurece, os mais vulneráveis são as primeiras vítimas e a lei perde o seu significado mais profundo: servir e proteger cada pessoa. Por isso, a grandeza moral de uma nação manifesta-se, acima de tudo, na sua capacidade de acompanhar, proteger e amar aquelas vidas que atravessam maior fragilidade.”

Procurem aí na carta dos petistas qualquer referência à proteção do nascituro – essa mesma que o papa descreve como meta civilizacional, e que sem a qual uma sociedade não pode se chamar plenamente justa. (insira aqui o som de grilos) Não tem, certo? E não tem porque o PT é comprometido com a legalização do aborto; o direito à vida não está entre aqueles cuja negação “trai o mandato recebido do povo”. Em 2022, Lula publicou cartinha aos evangélicos dizendo: “Sou pessoalmente contra o aborto e lembro a todos e todas que este não é um tema a ser decidido pelo Presidente da República e sim pelo Congresso Nacional”. Era mentira: nesses quatro anos, o Poder Executivo fez tudo o que estava ao seu alcance para facilitar o aborto contornando o Congresso, de notas técnicas do Ministério da Saúde a cartilhas para gestantes com informações sobre aborto. Talvez até a mentira colasse de novo dessa vez, apesar dos fatos, mas os católicos petistas tiveram um pingo de decência e optaram por não arriscar.

Voltemos ao papa:

“(…) reveste particular importância a família, realidade humana primeira e fundamento natural da comunidade. No lar entrelaçam-se as gerações e transmite-se uma memória viva que dá continuidade interior à sociedade. Lá onde a família é apoiada, fortalece-se também a estabilidade espiritual e social das nações. A família será sempre a primeira escola de humanidade onde se aprende, antes de qualquer outro lugar, a gramática elementar da convivência: receber a vida, cuidar do outro, perdoar, servir e pertencer. Também as instituições educativas ocupam um lugar decisivo nesta tarefa. Nelas, as novas gerações podem aprender a buscar e a amar a verdade, a questionar-se sobre o sentido da vida e a dignidade de cada pessoa. Por isso, muitos pais desejosos de que os seus filhos aprendam a relacionar-se, a pensar com espírito crítico e a adquirir valores sólidos, depositam nelas, como valiosas aliadas na sua educação, grandes esperanças. Esta colaboração há de respeitar sempre o ‘direito fundamental e inalienável’ dos pais a ‘escolher o tipo de instrução e formação a transmitir aos filhos, em conformidade com as suas convicções morais, culturais e religiosas’.”

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Mas não é o identitarismo de esquerda o maior instrumento de desestruturação da família (família que o papa repetidamente define como “a singular comunidade de pessoas formada por um homem e uma mulher”)? Não é o identitarismo de esquerda o que mais persegue escolas confessionais que ensinam a seus alunos a sua doutrina sobre moral sexual e família? Não é a esquerda que mais persegue o ensino domiciliar? Pois é, o direito das famílias de dar a seus filhos uma educação “em conformidade com as suas convicções morais, culturais e religiosas” também faz parte dos tais “direitos sociais e democráticos”, mas esse não parece ser defendido com tanto entusiasmo pelos católicos petistas.

A carta dos católicos petistas engana menos pelo que publica que pelo que esconde. Diz que “o voto deve ser fruto de um olhar atento à trajetória pública das candidaturas, aos compromissos que assumem”, mas atrapalha o “olhar atento” do eleitor católico ao oferecer um quadro incompleto das plataformas do candidato apoiado pelos católicos petistas. Muito melhor que cair nesse conto do vigário petista é pegar o discurso do papa na Espanha e diversas outras orientações, como a carta do então cardeal Ratzinger aos bispos norte-americanos, ou a recente mensagem da CNBB (apesar de ela também ter se omitido na parte da defesa da vida), e formar sua consciência examinando com lupa todos os candidatos – suas plataformas, suas opiniões, suas declarações, sua biografia, os escândalos em que se meteu, com quem está aliado – antes de ir às urnas.

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