Documentos obtidos com exclusividade pela reportagem da Gazeta do Povo revelam que o brasileiro Sergio Roberto de Carvalho, ex-major da Polícia Militar, comandou uma rede independente de tráfico de cocaína entre 2017 e 2020. Ele teria sido o “cabeça” de um esquema responsável pelo envio de ao menos 67 toneladas da droga para o continente europeu — o maior negócio do tipo já registrado na chamada Rota do Atlântico.
Preso em 2022 após anos como fugitivo com identidades falsas, ele é apontado pela Interpol e pela Polícia Federal (PF) como um dos maiores narcotraficantes do mundo e agora enfrenta julgamento. Com essas credenciais, Sergio Roberto de Carvalho ganhou a caracterização como “Pablo Escobar brasileiro”.
Ele começou a ser julgado no último mês de maio na Bélgica, onde a Justiça emitiu uma sentença interlocutória sobre o caso. A sentença interlocutória é uma decisão tomada no meio do processo, antes da sentença final. O tribunal respondeu a pedidos preliminares das defesas dos réus, discutidos nas audiências realizadas em março e abril.
A decisão final só deve ser anunciada após a conclusão do julgamento, que será retomado em 7 de setembro. A reportagem da Gazeta do Povo procurou advogados do major no Brasil, mas não conseguiu contato. À Justiça belga, seus defensores afirmam que ele é inocente.
“Pablo Escobar brasileiro” foi preso na Hungria
Quando o major da PM de Mato Grosso foi preso na Hungria em junho de 2022, a operação Enterprise deflagrada pela Polícia Federal já havia revelado que ele era um dos maiores narcotraficantes independentes que atuava na exportação de cocaína do Brasil para Europa. O que ainda não se sabia naquele momento era o real tamanho da atuação do “Pablo Escobar brasileiro”, como ficou conhecido o policial.
Documentos obtidos com exclusividade pela reportagem da Gazeta do Povo revelam que, à época, Sérgio Roberto de Carvalho comandava uma megarrede de tráfico internacional de cocaína dentro da Europa. Desvinculado de facções como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho, cartéis ou máfias internacionais, ele estava à frente de uma operação com sócios na Bélgica, Espanha, Portugal, Holanda, Alemanha, Inglaterra, República Checa e Emirados Árabes Unidos, além de países do Caribe e da África.
A investigação se baseia em dados descriptografados do EncroChat – o “aplicativo do crime”, que oferecia um serviço de comunicação segura para criminosos, e que foi invadido pela polícia da França. As informações estão presentes em documentos de uma colaboração internacional sigilosa entre a Polícia Federal do Brasil e a Polícia Federal do Flandres Ocidental da Bélgica, junto com outros países da Europol.
As investigações continuam em sigilo no Brasil e na Europa. Segundo a PF e a Europol, o esquema do major continua ativo dos dois lados do Oceano Atlântico.
Ex-major da PM que enfrenta Justiça da Bélgica é considerado “fantasma” do tráfico internacional
Aos 67 anos e com vários passaportes falsos, o major demonstrou grande surpresa ao ser pego enquanto tomava café da manhã em um hotel de luxo em Budapeste. Carvalho nunca ficava mais que alguns dias em uma mesma cidade da Europa, por onde se deslocava em um jato particular Citation Latitude, da Cessna, avaliado em US$ 20 milhões, e em outros mais simples, quando precisava chamar menos a atenção.
Assim, como aconteceu diversas vezes desde 2018, quando alguma polícia descobria onde o major estava e com qual identidade, ele já havia ido embora. Foi assim na operação Enterprise, em Lisboa, um ano e meio antes. Quando a polícia portuguesa e agentes da PF brasileira invadiram o apartamento de luxo, o major não estava mais lá.
No dia anterior, havia voado para a Espanha, depois para a Itália e, de lá, à Romênia. Quando o major chegou na Ucrânia, dois dias depois, a PF perdeu o rastro dele. Na garagem do prédio em Portugal, uma van com 12 milhões de euros foi confiscada, além do imóvel avaliado em 2 milhões de euros.
Carvalho era uma espécie de fantasma do crime organizado internacional. Com imóveis, veículos, passaportes e dinheiro espalhados por vários países, estava em todo e nenhum lugar ao mesmo tempo. Inclusive no Brasil.
Com uma ex-mulher e dois filhos adultos, já foragido da Justiça e procurado pela PF, o major costumava passar pelo país mesmo depois de ter se mudado definitivamente para a Europa em 2016, quando foi para a Espanha. ”Ele entrava e saía do Brasil a hora que queria, com os jatinhos e passaportes falsos dele, cada hora por um aeroporto diferente, muitas vezes sem nenhum registro”, afirma à reportagem o delegado Sérgio Stinglin, da Polícia Federal, que comandou a operação Enterprise do início até o final de 2022.
“Ele vinha pessoalmente resolver os problemas dele aqui. No geral, não é um cara violento. O major tem perfil de empresário, é um grande gestor”, caracteriza o delegado.
Quando foi descoberto pela PF em Portugal, ele vivia sob a identidade falsa de um empresário milionário, dono de uma frota de táxi aéreo sediada em Cascais e uma trading nos Emirados Árabes Unidos, que operavam legitimamente. Quando foi preso, o avião o esperava com o piloto no aeroporto internacional da capital da Hungria, de onde ia decolar na tarde da prisão com o dono para outro país do leste europeu – provavelmente a Ucrânia.
Carvalho estava acompanhado de seu inseparável segurança Arthur W., um ex-militar checheno naturalizado belga que era a sombra do ex-major onde quer que fosse pela Europa. O PM brasileiro não ofereceu resistência nem tentou fugir, como é possível ver em um vídeo do momento gravado pela polícia federal húngara.
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Alerta da polícia sobre possível tentativa de resgate ou morte dos réus fez com que o caso fosse adiado
O aparato policial utilizado pelos húngaros na prisão e na extradição do major cerca de um ano depois para a Bélgica dá a dimensão do seu tamanho no narcotráfico mundial. Considerado um dos maiores traficantes de cocaína do mundo, ele também era pedido por Brasil, Estados Unidos, Espanha, Reino Unido, Holanda, Alemanha, República Tcheca e Portugal.
A ação que culminou na prisão dele usou diversos veículos blindados com metralhadoras pesadas, soldados encapuzados com armas de guerra, helicópteros, interdição de ruas e espaço aéreo.
O julgamento de Sergio Roberto de Carvalho e o de mais 30 comparsas, incluindo o do principal sócio, o belga Flor “Corta Dedos” Bressers, de 39 anos, deveria ter começado no dia 16 de setembro de 2024 em Bruges, na Bélgica. Um alerta da polícia sobre a falta de segurança do fórum local e a possibilidade de tentativa de resgate ou assassinato dos réus, porém, fez com que o caso fosse adiado e transferido para o Palácio da Justiça, em Bruxelas.
Outro sócio do major, Rúben Oliveira, conhecido como Xuxas, foi preso em Portugal com outras 18 pessoas. No Brasil, pelo menos 152 pessoas foram indiciadas e processadas ou condenadas e outras grandes operações da PF foram deflagradas em decorrência destas investigações, com mais dezenas de presos.
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Como operava o homem que é considerado um dos maiores traficantes de cocaína o mundo
A investigação transnacional que surge com a junção de informações da operação Enterprise da Polícia Federal e das autoridades europeias revela que, de 2017 a 2020, sozinho, o major brasileiro comandou o envio para si mesmo distribuir com os sócios dentro da Europa de pelo menos 67 toneladas de cocaína, algo sem precedentes na história do tráfico internacional de drogas documentado pela polícia no Brasil e na Europa, mesmo quando se trata de facções criminosas e máfias hegemônicas.
É o maior esquema do tipo já descoberto até hoje na Rota do Atlântico. Em 2025, a Receita Federal divulgou um balanço inédito sobre todas as apreensões de cocaína que deixava o país por todos os meios nos últimos cinco anos.
De 2019 a 2023, foram apreendidas 87,7 toneladas da droga rumo a países da Europa e África, na maioria. Em 2023, foram apreendidas 15,98 toneladas de pó a caminho da exportação pela Receita e PF em todo o Brasil. O major sozinho enviava para a Europa uma média de pelo menos 16,75 toneladas de cocaína por ano, ou quase 1,5 tonelada por mês.
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