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Crise global: dois caminhos para o futuro da civilização

“Declaration of Independence” (1819), de John Trumbull. (Foto: Capitólio dos Estados Unidos/Wikimedia Commons)

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A celebração do 250º aniversário da Declaração de Independência dos Estados Unidos, em 4 de julho, motivou-me a fazer uma breve incursão fora da temática de meio ambiente e energia à qual tenho dedicado esta coluna, assinalando algumas analogias entre aquele momento histórico e a atualidade da presente crise global.

A Declaração de Independência de 1776 foi um marco na luta dos cidadãos das Treze Colônias contra os abusos do sistema colonial do Império Britânico: a imposição serial de impostos destinados a cobrir o enorme rombo causado no tesouro imperial pelos gastos da Guerra dos Sete Anos contra a França e aliados (1756-1763), as restrições ao uso de moedas próprias nas colônias para preservar o monopólio do Banco da Inglaterra, a ausência de representantes coloniais no Parlamento em Londres e uma agressiva presença de tropas britânicas na América do Norte.

Pelo seu caráter universal, permanecem atuais os princípios de Direito Natural consagrados na Declaração de Independência, que serviram de fundamento moral e político para o surgimento da grandeza econômica da nação:

“Consideramos estas verdades evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais; que são dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis; que entre estes se encontram a Vida, a Liberdade e a busca da Felicidade; que, para assegurar esses direitos, são instituídos entre os homens governos que derivam seus justos poderes do consentimento dos governados; e que, sempre que qualquer forma de governo se torne destrutiva desses fins, cabe ao povo o direito de alterá-la ou aboli-la e instituir um novo governo, assentando seus fundamentos sobre tais princípios e organizando seus poderes da maneira que lhe pareça mais apta a proporcionar Segurança e Felicidade. (…) Mas, quando uma longa série de abusos e usurpações, perseguindo invariavelmente o mesmo objetivo, revela o desígnio de submetê-los ao despotismo absoluto, é seu direito e seu dever destituir tal governo e instituir novos guardiões para sua segurança futura (…).”

É evidente que esses princípios universais de validade perene precisam ser acompanhados de políticas econômicas capazes de garantir e assegurar tais direitos, o que a nascente república concretizou a partir das diretrizes implementadas pelo secretário do Tesouro, Alexander Hamilton (1789-1795), que viriam depois a ser conhecidas como Sistema Nacional ou Sistema Americano de Economia Política.

Inspirado nas experiências do dirigismo econômico de Jean-Baptiste Colbert, controlador-geral das Finanças do rei francês Luís XIV, e nos cameralistas austríacos e alemães dos séculos XVII e XVIII, o princípio fundamental do Sistema Americano consiste em colocar o Estado a serviço da ampliação e do aperfeiçoamento das capacidades produtivas da nação. Em síntese: proteção às indústrias nascentes; desenvolvimento da infraestrutura física; incentivo às novas tecnologias e à inovação; e geração e direcionamento de crédito, em grande medida público, para atividades produtivas e multiplicadoras de valor.

Ou seja, o oposto do “livre comércio” pregado pelo Império Britânico como receita para o progresso, no empenho de preservar para si as vantagens auferidas pela Revolução Industrial do século XVIII.

Com especificidades próprias, tais diretrizes foram seguidas por todos os países que ingressaram com êxito na Revolução Industrial a partir do século XIX e atingiram altos níveis de desenvolvimento no século XX.

É uma ironia histórica que, a partir da década de 1970, os próprios EUA tenham liderado o mundo para o pantanoso caminho da “globalização”

Por isso, é uma ironia histórica que, a partir da década de 1970, os próprios EUA tenham liderado o mundo para o pantanoso caminho da “globalização”, que impôs a supremacia das finanças sobre as atividades produtivas em geral e recolocou o “livre comércio” na ordem do dia. Em parte significativa, a guinada foi motivada pela necessidade de financiar a expansão do poderio militar estadunidense no auge da Guerra Fria, mas o resultado acabou sendo uma nefasta combinação de desindustrialização, aumento das desigualdades e endividamento público e privado, cujos efeitos atingem hoje um paroxismo que leva o país a um estado de guerra civil latente e estendem-se além de suas fronteiras.

Como adendo, vale registrar que o malthusianismo e sua variante ambientalista, que coloca um questionável conceito de proteção do meio ambiente no centro dos processos econômicos e sociais, constituem fatores-chave da ideologia “globalista”, que está no cerne da presente crise global.

Crise cujo aspecto mais relevante é uma crescente perda de representatividade da política como instrumento de promoção do Bem Comum e das aspirações das sociedades. Em grande parte do mundo, as classes políticas são vistas cada vez mais como representantes de seus próprios interesses, e não dos povos aos quais deveriam servir.

Em 28 países, 70% dos entrevistados pelo Edelman Trust Barometer 2026 afirmaram confiar pouco em pessoas com valores diferentes dos seus, evidenciando uma tendência de “insularidade” que isola cidadãos e governos. Nos EUA, apenas 33% manifestam confiança no governo. No Reino Unido, 45% declaram “quase nunca” confiar que o governo priorize as necessidades da nação. No Brasil, a proporção dos que confiam nas instituições pouco passa de 50%, com tendência acentuada de queda.

A crise global apresenta dois caminhos para o futuro. Um se baseia nos princípios de Direito Natural fundamentados na Revolução Americana e em suas diretrizes econômicas, devidamente ajustados aos requisitos do século XXI. O outro, um prolongamento dos princípios “globalistas”, pode resultar na anarquia e no terror dos piores momentos da Revolução Francesa. A melhor opção parece evidente.

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