Crônica distópica alerta para o risco de um Estado ideológico que criminaliza a fé, censura ideias e invade a autonomia das famílias. (Foto: Imagem criada utilizando OpenAI/Gazeta do Povo)
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Eram sete horas na casa da família Dias. A mãe, o pai e os quatro filhos tomavam o café da manhã. No cadeirão, Alice, a mais novinha, brincava com a colher diante de um prato de mingau. José, o mais velho, de 10 anos, já havia terminado o seu pão com manteiga e, tendo diante de si um caderno de brochura, desenhava as gêmeas Ana e Zina, que riam. Todas as crianças, com exceção da menor, estavam com o uniforme do antigo colégio católico, que havia sido estatizado. A campainha tocou, e William levantou-se para atender.
Era uma dupla de funcionários públicos. Um deles parecia mulher, embora tivesse os cabelos raspados até a nuca, e o outro parecia homem, embora usasse batom. A provável mulher disse:
— O sr. é o cidadão William Dias, a pessoa que cuida do estudante José Dias?
— Sou eu mesmo.
— Somos agentes do Coletivo Educacional. Podemos entrar por um momento?
William conduziu-os até a sala de estar, que também era biblioteca. Ao passar pela porta da cozinha, fez um gesto para Silvia, dando a entender que a esposa ficasse com as crianças por lá.
A dupla aboletou-se nas duas extremidades do sofá da sala. O provável homem disse:
— Recebemos uma denúncia anônima e temos uma ordem de condução pedagógica do seu filho até o Núcleo Marielle.
— Mas o que aconteceu?
— Houve uma denúncia anônima de abuso religioso e comportamento antidemocrático nesta residência.
A funcionária continuou:
— Alguém nas redondezas (William pensou logo no vizinho da esquerda) relatou ter ouvido gritos bastante comprometedores durante uma reunião familiar. O sr. teria dito textualmente (leu no próprio celular): “Não existe comunista cristão”, “Filho meu não vai estudar macumba” e “Boneca não é brinquedo de menino”. O sr. reconhece ter pronunciado essas frases?
William gaguejou:
— Não me lembro bem.
William se lembrava perfeitamente bem das frases e do contexto em que as utilizara, mas não podia dizer isso, ou seria preso ali mesmo.
A provável mulher reformulou:
— O sr. se reconhece nessas frases?
William permaneceu em silêncio por longos 30 segundos e, quando abriu a boca, foi para dizer apenas:
— Isso não faz sentido.
A agente se levantou, andou até a estante e passou os dedos pelas lombadas dos livros.
— Discordo, Sr. Dias. Faz muito sentido. Padres da Igreja, hein? Vejo aqui que o sr. tem uma boa coleção de obras católicas. Eu não me espantaria se também tivesse obras do Monstro escondidas por aí.
Ela estava se referindo aos livros de Olavo de Carvalho, que haviam sido proibidos pelo Conselho Nacional de Leitura. Retirou da estante um volume de Hugo de S. Vítor. Estendeu o livro ao seu parceiro, o provável homem, e disse:
— Sunshine, você deixaria uma criança ler esse tipo de livro?
— Jamais, Trinca-Ferro. Jamais.
— E por quê? Por ser um livro católico?
— Por ser um livro eurocêntrico e intolerante. Isso aqui é uma máquina de produzir fascistas.
Depois de recolocar o livro na estante, Trinca-Ferro, a provável mulher, voltou-se mais uma vez para William:
— Poderíamos prender você só pela posse destes livros, mas hoje vamos ser benevolentes. Apenas levaremos o menino.
— E qual o motivo desta operação? Eles estão matriculados na escola, têm notas boas, não fazem nada de errado. Têm atestado de vacinação.
— Quanto ao atestado, basta um pente-fino para descobrir uma falsificação, tenho certeza disso. Quanto a fazer algo de errado, quem foi que ensinou o José a rezar o terço escondido no banheiro em horário escolar?
William se calou.
— Não precisa responder. Sunshine, pegue o garoto.
William partiu para cima de Trinca-Ferro, mas foi contido pelos braços firmes da agente. O provável homem se levantou, mas o menino já se antecipara e estava na porta da cozinha. Atrás dele, a mãe, em pânico, carregava Alice e tentava acalmar as duas gêmeas, que choravam. Nas mãos de José, havia um caderno aberto com o desenho da família rezando o terço na sala, com a Virgem de pé diante deles. O menino entregou o caderno a William:
— Não tem importância, pai. Se eles me levarem, eu já sei rezar o terço sozinho.
(Crônica dedicada à família de Jales.)
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