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Cultura woke está não morreu e segue bem viva nos EUA

É tentador acreditar que os excessos do movimento woke não apenas atingiram seu ápice, mas já pertencem ao passado – um delírio passageiro de uma era peculiar, mas também enganoso. (Foto: Imagem criada utilizando Open AI/Gazeta do Povo)

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Há poucos anos, usar um sombrero no Halloween podia resultar no banimento da sociedade educada pelo crime social da “apropriação cultural”. Especialistas em nutrição argumentavam que a prevenção da obesidade era uma forma de “gordofobia” racializada, enquanto nomes científicos de pássaros canoros foram expurgados em uma campanha moral presumivelmente voltada contra a supremacia branca. Ao mesmo tempo, uma série de estudos, artigos e trabalhos argumentava que pontualidade, excelência e outras formas de profissionalismo constituem “a centralização sistêmica e institucionalizada da branquitude”.

Hoje, enquanto as universidades desmantelam suas burocracias de DEI (Diversidade, Equidade e Inclusão), as empresas reduzem os treinamentos antirracistas e os avisos de conteúdo sensível, e os compromissos de diversidade no meio acadêmico se tornaram motivo de piada, em vez de instrumentos de defesa, é tentador acreditar que os excessos do movimento woke não apenas atingiram seu ápice, mas já pertencem ao passado – um delírio passageiro de uma era peculiar.

Essa linha de pensamento, no entanto, subestima o poder e a persistência do movimento woke, que nunca foi um surto espontâneo de retidão moral surgido dos confinamentos da Covid-19 e da indignação com a morte de George Floyd, mas, sim, uma filosofia e uma visão de mundo que levaram décadas para ser construídas.

O sucesso de candidatos apoiados pelos Socialistas Democráticos da América nas recentes primárias para o Congresso em Nova York e nas eleições para prefeito em Los Angeles e no Distrito de Columbia ressalta o apelo duradouro de uma estrutura moral de esquerda que retrata a sociedade americana como uma luta maquiavélica entre opressores e oprimidos.

Embora a ascensão dos Socialistas Democráticos da América na política do Partido Democrata seja um fenômeno relativamente recente, a análise sobre questões de grande repercussão que definiram o movimento nos últimos anos – desde reparações pela escravidão e poliamor até a defesa dos direitos transgênero e o anticolonialismo – revela que esse dogma ainda permeia a cultura, com novos surtos quase todas as semanas. Essas correntes mais profundas indicam que os Socialistas Democráticos da América não são uma força motriz, mas um reflexo do movimento woke – uma visão de mundo que continua avançando e obtendo sucesso nas urnas.

A condenação oficial da Major League Baseball aos jogadores do San Francisco Giants que usaram bonés com citações bíblicas na Noite do Orgulho LGBTQIA+ é um exemplo da imposição de conformidade ideológica que remonta ao Grande Despertar de 2020. Uma manchete recente de jornal – “Prefeitura de Minneapolis entra no Mês do Orgulho com um show de drag queens” – é mais uma prova da força persistente do movimento woke.

A premissa filosófica central do movimento woke é a de que as estruturas sociais e as normas culturais privilegiam alguns grupos e prejudicam ou oprimem outros, criando assimetrias de poder e resultados desiguais

De certa forma, os ativistas da justiça social e os políticos que transformaram a diversidade, a equidade e a inclusão em pilares da sociedade americana passaram a flertar com o imperativo moral dos “pequenos saques”, a glorificar Luigi Mangione pelo assassinato de um executivo de uma empresa de saúde e a celebrar o assassinato de Charlie Kirk.

Independentemente de como se entenda o conceito de woke, ele não se resume a uma mera mistura de slogans e manifestações esporádicas no Twitter. Trata-se, na verdade, de um paradigma cultural compartilhado por milhões de pessoas no Ocidente que defendem a supremacia moral inerente aos oprimidos e questionam a legitimidade moral de suas próprias sociedades. Essas ideias foram amplamente estudadas em trabalhos acadêmicos e apoiadas por financiamento de organizações sem fins lucrativos ao longo do último meio século, sendo cada vez mais incorporadas às leis e às políticas públicas.

“As pessoas têm a ideia de que é uma moda passageira. Elas não entendem os antecedentes e as raízes”, disse Jason Hill, professor de Filosofia da Universidade DePaul, especializado em filosofia política e psicologia moral. “A gramática moral dos movimentos que chamamos de woke surge do liberalismo político”, disse Hill. “O liberalismo é, em última análise, um projeto perfeccionista e utópico. É um projeto sem fim.”

Segundo Hill, o liberalismo assumiu sua forma moderna na década de 1960, quando os liberais abandonaram o ideal dos direitos individuais em favor dos direitos coletivos, em resposta à persistente discriminação da era Jim Crow. Essa mudança levou a um compromisso com o “igualitarismo radical”, no qual a discriminação e a injustiça são medidas não pelo preconceito individual, mas pelos resultados desiguais entre grupos, e “o Estado tem a responsabilidade de corrigir essas disparidades”. Os defensores se referem a esse compromisso de diversas maneiras: igualdade de oportunidades, discriminação positiva ou desmantelamento das estruturas de opressão.

A crítica ao racismo, na verdade, intensificou-se depois que a sociedade americana se comprometeu a combatê-lo. Estudiosos progressistas passaram a descrever o problema como “racismo sistêmico” e “racismo sem racistas”, expandindo essa crítica para um ataque mais amplo a outras instituições e normas sociais, como o daltonismo racial, o binarismo de gênero, o colonialismo, o capitalismo e outros supostos legados da cultura europeia.

John McWhorter, linguista da Universidade Columbia e comentarista social de longa data sobre questões raciais, afirmou, em um podcast, que “a era de um tipo particularmente abusivo de politicagem” – em que opiniões e discursos eram policiados pelo “excomungador” e pelo “defensor” – atingiu seu ápice na academia e nas artes. McWhorter disse que essa militância agora é “aplicada a diferentes assuntos”, como o debate entre Israel e Palestina e a defesa dos direitos transgênero. “É óbvio que os líderes do movimento trans, especialmente desde 2020, adotaram essa postura acusatória e antirracional”, disse McWhorter. “E lamento dizer que muitos deles ainda a praticam, baseando-se no que esperavam que funcionasse em 2020 e 2021.”

A onda contínua de conscientização sobre justiça social soará familiar para qualquer pessoa que tenha acompanhado o assunto. Governos estaduais administrados por democratas permanecem comprometidos com a criação de programas de reparação pela escravidão. A cidade de Nova York publicou um plano de equidade de 375 páginas que parece ter sido escrito em 2020 por Ibram X. Kendi – autor best-seller que argumentou que “o único remédio para a discriminação do passado é a discriminação do presente”. E conferências acadêmicas de grupos como a Modern Language Association e a American Academy of Religion continuam a se dedicar à propaganda política, apresentando temas como “Desvendando a Dominação Branca” e “Violência Estrutural e Resistência de Gênero”.

No âmbito das políticas de gênero, a normalização do poliamor está ganhando terreno em governos municipais e igrejas progressistas nos EUA. O estado de Nova York substituiu recentemente as palavras “mãe” e “pai” na lei estadual da família por “gestante” e “não gestante”. Homens biológicos que se identificam como mulheres continuam ganhando troféus em esportes escolares femininos. E um tribunal federal decidiu recentemente que um homem biológico, com genitália masculina intacta, que se identifica como mulher deve ter acesso a um spa nudista exclusivo para mulheres.

Até mesmo as Filhas da Revolução Americana foram afetadas pelas rápidas mudanças sociais. O grupo patriótico, que preza por seu legado, votou a favor de continuar concedendo filiação a mulheres transgênero.

A persistência e a força desse ativismo woke são ressaltadas pelo fato de que ele ocorre enquanto o governo Trump, estados controlados por republicanos e advogados conservadores fazem todo o possível para impedir a disseminação dessas ideias. O presidente Donald Trump ameaçou reter bilhões de dólares em verbas federais de instituições que não cumprirem suas exigências de remover a Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), o antissemitismo e outros temas de ativismo em justiça social dos currículos. O Departamento de Justiça dos Estados Unidos está investigando as principais faculdades de medicina do país por supostamente darem preferência a candidatos negros em detrimento de brancos e asiáticos. Estados conservadores e diversas universidades privadas retomaram o uso de testes padronizados nos processos seletivos. Alabama e Texas, na prática, colocaram os sistemas universitários estaduais sob intervenção, em uma tentativa de impedir que professores ministrem aulas de Teoria Crítica da Raça e Teoria Queer para alunos de graduação.

Mas nem tudo é o que parece. Algumas faculdades que utilizam testes padronizados adotam critérios de seleção diferentes para asiáticos, brancos e afro-americanos, com base em indicadores indiretos, como o distrito escolar ou outros critérios “holísticos”. Universidades reduziram drasticamente seus programas de Diversidade, Equidade e Inclusão (DEI), mas, posteriormente, várias delas foram obrigadas a demitir responsáveis pela diversidade flagrados em vídeo vangloriando-se de que seus campi permaneciam totalmente comprometidos com a DEI. Em diversos casos, os dirigentes universitários apenas reformularam – e não eliminaram – os programas.

Crenças fundamentais

A premissa filosófica central do movimento woke é a de que as estruturas sociais e as normas culturais privilegiam alguns grupos e prejudicam ou oprimem outros, criando assimetrias de poder e resultados desiguais. Especificamente nos Estados Unidos e na Europa, homens, heterossexuais, brancos e cristãos continuariam a concentrar poder, privilégios e recursos, beneficiando-se de vantagens consideradas injustas.

A forma de combater essa dominância, segundo essa visão woke, seria por meio da redistribuição – mediante ações afirmativas, programas de diversidade, linguagem inclusiva e educação que enfatize o funcionamento, muitas vezes imperceptível, do privilégio e do poder –, com o objetivo de igualar os resultados entre os diferentes grupos.

Os critérios para definir o que é considerado dano e opressão expandem-se ao longo do tempo, de modo que até mesmo desafiar crenças progressistas/wokes ou questionar a “experiência vivida” de pessoas negras e LGBTQIA+ passa a ser visto como uma ofensa à ordem moral. Enquanto isso, o número de grupos identitários considerados vítimas se multiplica, criando uma expansão contínua de objetivos que, inevitavelmente, leva a guerras culturais e conflitos políticos.

As reparações para afro-americanos e descendentes de escravos constituem um dos compromissos originais do movimento woke em matéria de justiça social. Durante décadas, essa pauta foi um objetivo distante para ativistas negros, mas, nos últimos anos, passou a ser levada a sério por legisladores.

Pelo menos cinco estados e mais de uma dúzia de cidades criaram grupos de trabalho ou comissões para estudar reparações pela escravidão, segundo a Associated Press, e houve mais de 460 iniciativas de reparação nos Estados Unidos, desde comemorações até restituições. Neste ano, Maryland tornou-se o estado mais recente a aprovar o estudo de reparações para afro-americanos, criando uma comissão de 23 membros encarregada de formular um pedido de desculpas oficial, avaliar a responsabilidade coletiva e calcular eventuais compensações financeiras. No outono passado, a Califórnia tornou-se o primeiro estado a criar um Escritório de Descendentes de Escravos para certificar os beneficiários negros que receberão reparações em “reconhecimento e reparação pela selvageria da escravidão humana forçada nos Estados Unidos”. No âmbito internacional, a Assembleia Geral das Nações Unidas aprovou recentemente uma resolução sobre reparações, classificando a escravização de africanos pelos europeus como “o crime mais grave contra a humanidade”.

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Defensores da igualdade racial estão mantendo um perfil discreto para evitar a atenção indesejada do governo Trump. Pode-se presumir que esses ativistas não abandonaram seus objetivos, mas apenas aguardam um momento mais favorável. Ainda assim, eles não desapareceram completamente de cena, como demonstra o ambicioso plano de igualdade divulgado pelo Gabinete de Equidade e Justiça Racial do prefeito de Nova York, Zohran Mamdani.

Entre as afirmações do documento estão: “A história de Nova York tem sido marcada pela colonização, exploração e opressão racial”. O plano, com 375 páginas, elogia o movimento Black Lives Matter, homenageia George Floyd, celebra a “interseccionalidade” e descreve o racismo como uma “crise de saúde pública”. Citando “graves injustiças”, “atrocidades” e “outras formas de violência” cometidas contra “pessoas negras, indígenas, latinas, asiáticas, das ilhas do Pacífico, do Oriente Médio e outras pessoas de cor, mulheres, minorias religiosas, imigrantes, pessoas LGBTQIA+ e pessoas com deficiência” ao longo dos séculos, o documento conclui: “Como o racismo é um sistema que explicita a raça, o antirracismo exige estratégias que também abordem a raça”.

Reconhecimento de terras

Outra frente da estratégia woke e progressista é o reconhecimento de reparações às tribos indígenas deslocadas pelos colonizadores europeus. A lista de reivindicações desse movimento abrange desde a recitação de “reconhecimentos territoriais” em eventos públicos até a defesa da soberania sobre terras ancestrais, como propõe o movimento Land Back.

O espírito desse movimento está presente na revista científica Nature, publicação outrora prestigiada e hoje fortemente politizada, editada desde 1869, que publicou, no verão passado, um artigo escrito por oito acadêmicos indígenas defendendo uma “agenda indígena na ciência” baseada na “experiência vivida” dos povos indígenas.

“Os acadêmicos brancos devem reconhecer, ler e citar os estudos indígenas”, afirma o ensaio. “Mas também devem se engajar com eles de maneira profunda e relacional, estando abertos a compreender plenamente suas mensagens, mesmo que isso os deixe desconfortáveis – especialmente, argumentamos, se os deixar desconfortáveis”, diz o artigo.

Os autores ecoam o pensamento de Ibram X. Kendi e dos teóricos críticos da raça, segundo os quais a neutralidade política é um mito e a relutância em apoiar essa causa equivale a endossar a supremacia branca. “Os cientistas também devem atentar para o seu próprio racismo”, afirmam os acadêmicos. “Não basta ser antirracista. Problemas estruturais e desigualdades existem na academia ocidental. Aqueles que evitam confrontar o racismo e o colonialismo em trabalhos e espaços científicos estão apenas perpetuando o status quo.”

A política transgênero agora eclipsou a igualdade racial como principal ponto de convergência para os progressistas woke. Os “direitos” trans constituem um compromisso central para os democratas pelo menos desde 2012, quando o então vice-presidente Joe Biden declarou, pela primeira vez, que os direitos trans eram “a questão de direitos civis do nosso tempo” – afirmação que repetiu ao longo dos anos e transformou em uma das principais bandeiras morais de sua presidência.

A lista de reivindicações do movimento é extensa. Inclui bloqueadores da puberdade com poucas restrições, hormônios para adolescentes e acesso a cirurgias de redesignação sexual. Os ativistas também defendem o direito constitucional de homens biológicos que se identificam como mulheres de utilizar instalações esportivas, vestiários e outros espaços destinados ao público feminino.

Centenas de escolas de ensino fundamental e médio proíbem o uso de pronomes considerados incorretos e ocultam dos pais as transições de gênero de alunos, quando estes assim solicitam. Essas posições se fundamentam em anos de estudos sobre teoria queer e teoria de gênero, que questionam a legitimidade moral e científica do gênero binário e do sexo biológico.

Entre os diversos conflitos envolvendo a pauta transgênero está o caso de freiras católicas de Nova York que administram uma instituição para pacientes terminais com câncer. As religiosas foram ameaçadas com multas pelas autoridades estaduais, que exigiram que pacientes transgênero fossem acomodados em quartos conforme a identidade de gênero declarada, e não segundo o sexo biológico, mesmo contra a vontade da pessoa que dividiria o quarto.

O estado também determinou que as freiras utilizem os pronomes preferidos dos pacientes, inclusive quando eles não estiverem presentes. As Irmãs Dominicanas de Hawthorne recorreram à Justiça Federal para obter uma isenção da política estadual.

Poliamor em ascensão

Intimamente ligado ao ativismo transgênero está o movimento pelo pleno reconhecimento jurídico da poliamoria. A não monogamia consensual é apresentada como parte central das identidades queer e da “experiência vivida” dessas pessoas, de modo que discriminar a poliamoria seria, segundo essa visão, uma forma indireta de discriminar pessoas LGBTQIA+.

A principal denominação presbiteriana dos Estados Unidos, a PCUSA, analisou neste verão uma proposta para discutir se seu clero deveria permanecer obrigado à monogamia ou se poderia manter relações extraconjugais consensuais ou relações não monogâmicas. Em vez de rejeitar a proposta, a denominação decidiu encaminhá-la para estudos adicionais.

O grupo pró-queer More Light Presbyterians divulgou uma declaração afirmando que impor a monogamia constitui discriminação e que uma eventual decisão da igreja em favor da monogamia “será inevitavelmente vivenciada e interpretada como um ataque à comunidade queer”.

A normalização do poliamor continua recebendo ampla cobertura favorável da grande imprensa, que contribui para legitimar e glamourizar esse modelo de relacionamento. Exemplos incluem a Scientific American (“Uma pesquisa detalhada de um antropólogo mostra que os poliamorosos se concentram na intimidade e na honestidade, não em fazer sexo com várias pessoas”), o Los Angeles Times (“Pessoas em relacionamentos poliamorosos lutam contra a ‘vergonha’ e exigem proteção legal”) e o The Guardian (“Americanos poliamorosos comemoram novas leis que reconhecem seu ‘valor e dignidade inerentes'”).

Nem todos no mundo das artes e das letras compartilham o otimismo em relação ao suposto declínio dessa ideologia woke. Como observou a romancista Lionel Shriver, usando um sombrero: “Esse dogma infectou todas as nossas instituições como um fungo. Não será fácil erradicá-lo. Já reparou como, depois de um tratamento completo, o pé de atleta volta rapidinho?”.

John Murawski é repórter da RealClearInvestigations

©2026 The Daily Signal. Publicado com permissão. Original em inglês: Alive and Kicking: News of Woke’s Death Is Greatly Exaggerated.

Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

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