Jogadores da França posam para foto antes da partida da fase de grupos da Copa do Mundo FIFA 2026 entre França e Iraque, na Filadélfia, Pensilvânia, EUA, em 22 de junho de 2026. (Foto: Will Oliver/EFE/EPA)
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A seleção francesa escalada para 2026 é composta pelos goleiros Brice Samba, nascido no Congo, e Mike Maignan, nascido na Guiana Francesa. A mãe do zagueiro Malo Gusto veio de Martinica, no Caribe, tal como a mãe de Warren Zaïre-Emery. O pai de Dayot Upamecano veio da Guiné-Bissau, e sua mãe, do Senegal. Jules Koundé tem cidadania do Benim, enquanto o pai de William Saliba veio do Líbano, e sua mãe, de Camarões – tal como os pais de Aurélien Tchouaméni. Os irmãos Théo Hernandez e Lucas Hernandez, de família espanhola, parecem os mais naturalmente franceses na defesa.
Maxence Lacroix tem pais de Guadalupe, no Caribe (tal como Marcus Thuram), e de Madagascar. Manu Koné tem nacionalidade da Costa do Marfim, tal como Désiré Doué. Michael Olise nasceu em Londres, de pai nigeriano e mãe argelina, com o maior número de cidadanias da seleção (atua na seleção da França por ter jogado nas categorias de base francesas). N’Golo Kanté tem ascendência malinesa, e Maghnes Akliouche, argelina. Adrien Rabiot é francês com ascendência francesa e joga no Paris Saint-Germain – praticamente um estrangeiro no time.
Rayan Cherki também é estranhamente francês. Desses com cara de francês.
Ousmane Dembélé, muçulmano praticante, tem pai do Mali e mãe da Mauritânia, com origens também senegalesas. Dembélé, campeão de multas por indisciplina, foi visto, em julho de 2021, fazendo comentários racistas contra técnicos japoneses em um hotel. Enquanto os técnicos pareciam tentar consertar a televisão do quarto, Dembélé disparou: “Todas essas caras feias, só para você poder jogar PES; não têm vergonha?”. Ainda emendou com um “Que p… de língua é essa?”, antes de dar um zoom no rosto de um dos técnicos enquanto ria e perguntava: “Vocês são tecnologicamente avançados no seu país ou não?”.
Kylian Mbappé tem pai dos Camarões e mãe da Argélia. Bradley Barcola tem família togolesa. O outro atacante, Jean-Philippe Mateta, é filho de pai do Congo.
Para aumentar o número de franceses-franceses de 2 (ou 4) para 3 ou 5, podemos contar também com o terceiro goleiro reserva, Robin Risser.
Vá lá que a França é uma potência colonial – mas por que um Zinédine Yazid Zidane, argelino e muçulmano, era uma exceção na seleção francesa de 1998, e hoje seria uma exceção pelo excesso de proximidade com o continente europeu? Seu filho, aliás, atua como goleiro pela seleção argelina.
Na era do globalismo, do mundo sem fronteiras, dos refugiados em massa, do fim das soberanias nacionais, talvez seja o novo normal não ver mais franceses jogando na seleção da França
Não é muito diferente na Inglaterra, que tem nomes como Ezri Konsa, Jarell Quansah, Marc Guehi, Kobbie Mainoo, Eberechi Eze, Bukayo Saka e Noni Madueke – boa parte deles de difícil pronúncia para um britânico. É difícil imaginar um suíço conseguindo pronunciar o nome do atacante Noah Arinzechukwu Okafor, cujo pai é nigeriano. Mas talvez já tenham se acostumado com o primeiro nome do atacante Mohamed Zeki Amdouni, filho de um turco com uma tunisiana.
O conceito de cidadania mudou radicalmente pelas mãos da União Europeia – composta por burocratas não eleitos que xingam de fascistas todos os que votam pensando em, por exemplo, ver franceses filhos de franceses jogando pela seleção da França. Hoje, a sensação é a de que europeus são minoria em seus próprios países. Cenas de marroquinos em Haia e Roterdã destruindo a cidade, jogando fogos de artifício em lojas, pedras em policiais e roubando celulares foram vistas após o Marrocos eliminar a… própria Holanda.
Nesta mesma semana, um imigrante foi visto atravessando ilegalmente o Canal da Mancha em direção à Inglaterra, vociferando “This is the end of England! Uhu!” [“Este é o fim da Inglaterra! Uhu!”] enquanto empunhava um facão. A política da UE – e mesmo da própria Inglaterra pós-Brexit – é a de tratar como britânico todo “refugiado”, mesmo chegando ao país sem um único documento.
A seleção alemã, eliminada nos pênaltis pelo Paraguai, sofreu de maneira irônica por ter uma “diversidade” interna que os paraguaios não possuem. Na seleção do 7 x 1, havia dois principais “não alemães” tratados como alemães: o turco Mesut Özil, que postou uma foto com o ditador turco Recep Erdoğan, passou a xingar a Alemanha de maneira agressiva e encerrou sua carreira precocemente, além de Jérôme Boateng, filho de ganeses, que posteriormente foi acusado de agressão doméstica contra a mãe de seus três filhos, atingindo-a com uma lâmpada (errou) e uma caixa, sendo acusado de abuso contra mulheres reiteradas vezes. Após romper um namoro com a modelo polonesa Kasia Lenhardt, ela foi encontrada morta uma semana depois, aparentemente por suicídio.
Uma das desgraças do mundo contemporâneo é que toda e qualquer mudança é explicada em termos de simplificação extrema de fenômenos complexos, como racismo ou colonialismo.
Não é raro ver pessoas culpando países europeus pelo colonialismo do século XVII e que, portanto, precisam pagar agora tendo sua população destruída, sua economia servindo apenas para ser transferida para populações estrangeiras e, claro, sua base cultural e civilizacional, que é o cristianismo, sendo trocada, em questão de menos de uma geração, por hordas de muçulmanos. Isto é feito mesmo com países que nunca foram alvos do tal colonialismo, como a Turquia (que mandava em quase tudo o que chamamos de “Oriente Médio” depois da Primeira Guerra Mundial), ou mesmo com países que nunca foram metrópole de nada, como a Suíça ou os países escandinavos.
Tampouco alguém se pergunta o que seria dos países africanos sem colonialismo. Responda rapidamente: você prefere nascer no Sudão ou na África do Sul? Certamente a última tem algumas vantagens, como ter alguma economia, instituições mais sérias, apesar de seus conflitos tribais, e uma tal de democracia. Algum europeu implantou isso por lá, diga-se.
Mais burro ainda é tentar entender o problema apenas em termos raciais. O Império Romano tinha de tudo – de africanos a asiáticos – mas possuía um conceito bem mais estrito do que é cidadania. Não adiantava apenas pisar no Império Romano e ter o green card da Antiguidade, a cidadania romana. Era preciso, principalmente, adquirir os costumes romanos. Em Roma, sê romano. Só com uma mudança interna é que alguém poderia bradar civis romanus sum. O Império Romano não era um território, um espaço, uma linha imaginária ou uma fronteira porosa: era, antes de tudo, um conceito, um modo de ser, uma ideia, uma prática interna, um costume.
A maior divisão política que vemos no Novo Testamento é entre palestinos divididos entre reclamar do Império Romano ou apoiar os pagãos, mas que davam tudo de bom o que eles possuíam – cisão hilariamente apresentada na cena do Coliseu no filme “A Vida de Brian”, do grupo Monty Python. Resta saber se um Monty Python britânico hoje poderia fazer uma piadinha com Maomé.
O que o Brasil tem a reclamar de Portugal, afinal? O que temos de bom que não nos foi dado pelos próprios portugueses? Como podemos reclamar do seu colonialismo – falando português, usando seu alfabeto, seus conceitos intelectuais europeus, sua herança europeia? Até pastel de Belém no café da tarde temos.
Já um francês típico, que defende La République, acredita no Iluminismo e leu Sartre e Beauvoir na faculdade, tem medo de Marine Le Pen e é a favor do Estado laico enquanto come croissant ouvindo Carla Bruni, tem alguma conexão minimamente emocional com sua seleção?
Ele pode ter aprendido a repetir “colonialismo” na faculdade, mas alguém lhe ensinou sobre a hégira? Simplesmente é o dia 1 do calendário islâmico. Não o nascimento de Maomé, nem o dia em que, supostamente, o arcanjo Gabriel lhe teria inspirado as regras draconicamente patriarcais do Corão.
A hégira é a data de uma imigração: quando Maomé, após fracassar na pregação na cidade de Meca, imigra para a cidade de Medina, desta vez pelo fio da espada. Foi a partir da hégira, uma imigração, que Maomé começou de fato a conquistar. Todo muçulmano hoje faz hégiras para fazer os países-alvo tornarem-se muçulmanos.
Em menos de uma década, afinal, Mohammed tornou-se o nome mais comum na Inglaterra. Nada de James, nada de William
Antes de sacar a carta “racismo”, poderíamos pensar se os noruegueses passassem a imigrar em massa para o Brasil, vivessem em guetos, não aprendessem português, praticassem a religião asátru, só falassem norueguês nas ruas e passassem a dominar nosso futebol, considerando-se brasileiros.
Se chegássemos ao final da Copa só com sobrenomes como Haaland, Schjelderup, Aasgaard, Østigård e o maravilhosamente brasileiro Sørloth, poderíamos considerar que o Brasil ganhou o penta? Ou ter grande relação sentimental com seus jogadores? Talvez seja uma forma simples de entender o que é a Europa recriada pelos burocratas da União Europeia.
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